“O Diabo Veste Prada”(2006) mantém sua relevância (e veneno) ao abordar as transformações da moda e do mercado de trabalho

“Peça demissão. Consigo outra garota pro seu trabalho em cinco minutos”

A cena mais marcante do primeiro visionamento de “O Diabo Veste Prada” não foi o monólogo azul-cerúleo ou o desfile de Anne Hathaway pelas ruas de Nova Iorque. Ela acontece antes, quando a recém-contratada Andrea (Hathaway) brinda com seus amigos aos “trabalhos que pagam o aluguel”. Eis ali, com a princesa de Genóvia adentrando o mercado corporativo, um relance de vida adulta para meu eu de dez anos de idade.

Duas décadas depois, leituras rasas atribuem a longevidade do filme às suas plumas e paetês e até o acusam de glamourizar a exploração do trabalho. Contudo, uma revisão recente – no encalço da aguardada continuação – aponta para construções mais sofisticadas. Em termos de dramaturgia, a comédia, injustamente rotulada como “filme de mulherzinha”, aborda não só as transformações da moda como do mercado do trabalho.

Numa ousada quebra de expectativa, conhecemos uma jovem protagonista cujo desleixo com a aparência é fruto de um posicionamento político. Ao se recusar a “vestir a camisa da empresa”, a intelectualizada Andrea cristaliza seu julgamento sobre a indústria da moda e seus trabalhadores. A dedicação vacilante frisa que o cargo que “um milhão de garotas matariam para ter” é, para ela, apenas uma forma de pagar o aluguel. Se há vinte anos a postura da heroína fazia as vozes do público – “Os dois cintos parecem idênticos para mim” –, atualmente um quê de “millenial intitulada” não passa despercebido. 

Levando em conta o “furo” que afasta a protagonista da vitimização unilateral, o filme tampouco relativiza os abusos trabalhistas sofridos. Inclusive, o som estridente do celular prenuncia uma era de disponibilidade irrestrita, desvio de função e falsa urgência. Tudo isso não em nome de um bom salário – mesmo empregada, Andy aceita o dinheiro do pai para o aluguel – mas de oportunidades imprecisas ao final da via-crúcis. O trabalho bem-feito é recebido com mais trabalho, o malfeito idem.

Como líder desse ambiente hostil, repleto de códigos não verbais, ofensas em voz baixa e maquiagens para conter lágrimas, Miranda (Streep) encarna a vilania impessoal do meio corporativo. A princípio, em demonstrações brandas – “esquecer” o nome da assistente -, e, depois, em práticas estruturais, inviabilizando qualquer rede de apoio entre as mulheres de sua força de trabalho. Num recorte onde beleza e capacidade produtiva são ativos de duração breve, a ascensão de uma acontece em detrimento de outra. Não por acaso, o único aliado de Andrea é Nigel (Tucci), um homem gay de mais de quarenta anos.

Sendo assim, Andrea encontra seu espelho reverso não em Miranda, mas na supervisora Emily (Blunt). Fruto da magreza pré-canetas – que devem brotar na continuação – a assistente encapsula a apropriação capitalista do amor ao ofício. Afinal, não há tirada de humor britânico que apazigue sua figura trágica: mesmo doando o sangue, esperando que outros façam o mesmo e recusando qualquer vínculo fora do trabalho, seu adoecimento paulatino a retira da jogada que organizou sua vida inteira ao redor.

Mas qual é o ganho simbólico desse sacrifício? A partir da transformação visual de Andy, “O Diabo Veste Prada” equilibra suas derrotas com relances de vitória. À medida que agrada a entidade do título – que talvez nem seja Miranda – a protagonista se coloca, enfim, à altura de sua posição. E se testemunhamos sua luta por um lugar ao sol, como podemos recriminá-la por se seduzir pelas roupas bonitas, eventos exclusivos e homens charmosos que oferecem – sem mencionar juros – os “empurrõezinhos” de carreira? Não seriam esses acessos – e não os ganhos curriculares – que levam os millennials a entubar maus salários, chefes e colegas escrotos e noites insones?

Uma vez superado o esnobismo, a “falha” de Andrea se redefine como a dificuldade (de apelo feminino universal) em sustentar a própria ambição. Não lhe faltam justificativas para desejar roupas melhores, perder um ou outro aniversário e aproveitar uma oportunidade pretendida a uma colega – que não pensaria duas vezes em seu lugar. A tal “perda de integridade” denunciada pelo namorado e seus amigos nunca acontece de fato. Mas o filme reconhece essa contradição ou também participa da estrutura punitiva?

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Com essa argumentação, não procuro dizer que a faceta vulnerável de Miranda, desenvolvida no terço final em Paris, corrobora o estereótipo de carreirista amargurada. Ainda que, mais próxima do sucesso do que nunca, Andrea reconheça no cenho da chefe o peso de suas escolhas. Sob uma lógica “girl boss” – que sucedeu a fabulação moralista com a qual o filme flerta – a personagem de Streep representa a última milha de uma carreira plena. Mas os criativos compreendem que o fantasma da substituição sempre paira sobre os espaços de poder.

Se em obras masculinistas como “Whiplash”, esses espaços endossam os desvios de mentor e mentorado, a comédia de David Frankel apresenta uma visão surpreendentemente mais complexa. Afinal, anos de dedicação a Miranda só renderam a Emily e Nigel lugares cativos – tanto na estima quanto no cárcere – abaixo dela. A decisão de partir é apropriada pela protagonista, que simboliza seu rompimento com a destruição do celular que a aprisionou e viria a aprisionar trabalhadores dentro e fora da ficção. 

Talvez seja um pouco demais que, nos dez minutos finais, tenhamos que testemunhá-la endossando as críticas do namorado recalcado e prestando o apoio que ele passou o filme todo lhe negando. Mas as expressões estilo “Smizing” de Emily – que livre da disputa de território pode reconhecer Andrea com afeto – e Miranda, na cena final, indicam que – no ambiente de trabalho – dizer “não” a uma oportunidade capciosa pode ser a demonstração mais cabal da sua própria integridade.

Um final fechado para a dramaturgia, posto que a protagonista se retira do universo da história, mas não para o capitalismo. Talvez, para além das finalidades óbvias, os criativos envolvidos tenham, de fato, algo a dizer sobre as paisagens cujas transformações anteciparam. Levando em conta a inversão de papéis proposta pelo trailer – com Andy voltando ao mundo da moda para acudir uma Miranda em baixa – talvez crescer aos olhos de outra mulher, duas décadas depois, possa significar mais do que torná-la obsoleta para ocupar o seu lugar. Os millennials e Gen Zs precarizados certamente estarão presentes para conferir.

Veja o trailer de O Diabo Veste Prada 2:

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