“Escrever é uma experiência migrante”: entrevista com Talita Tibola, autora de Paquiderme

Conhecer Talita Tibola pelas ruas do Rio de Janeiro é um prazer. A gente jogo sabe que ela não é daqui. Em um pouco de conversa, a gente logo descobre que ela veio do sul, pelas conversas, pelo sotaque. Mas isso escapa pelas entrelinhas do seu jeito totalmente cosmopolita, mas também com uma memória brutal de quem vem de outro lugar. Pois é. sua bio diz que ela nasceu em Planalto-RS em 1983. Diz que é também psicóloga (UFSM), tradutora e pesquisadora. E isto logo descobrimos com seu lado (o)culto.

Mas ela também é mais: tem pós-doutorado no Laboratório de Design e Antropologia (Esdi/UERJ), doutorado em Psicologia pela linha Subjetividade, política e exclusão social (PPGPsi/UFF) e é mestre em Educação (UFRGS). Atua como psicóloga clínica e nas diferentes áreas em que trabalhou a arte e a palavra estiveram no centro como ferramenta de encontro e escuta. Tem epilepsia e isso não a define, mas também sim. Ela diz.

O editor do Jornal Nota, Luiz Antonio Ribeiro fez uma entrevista com Talita Tibola e você pode acompanhar a seguir. Confira:

Olá, Talita! Primeiramente, queria dizer da alegria de você ter aceitado dar esta entrevista aqui pro Nota. Fico mesmo contente por ter conseguido entrar em contato com suas “obras completas” tão cedo e poder conversar um pouco com você sobre sua escrita e sobre o que é poesia para você neste nosso mundo.

Bom, primeiro queria falar que escolhi como forma de abordar nossa conversa o caminho oposto: começar pelo Paquiderme, seu livro mais recente, para depois voltarmos ao Ainda morreremos tanto e será só o começo. Não como um método rígido, só como uma escolha aleatória mesmo. Mas sempre que eu falar de um, talvez esteja com o outro como contraste na cabeça. Fique à vontade para responder como desejar.

LUIZ RIBEIRO – Só para contextualizar quem está nos lendo, fale um pouco sobre o livro de poemas Paquiderme. Para evitar um ato de falsa humildade da sua parte, já adianto ao nosso público que é um baita livro de poemas, vencedor de dois prêmios: o Prêmio Loba de 2024 e finalista do Prêmio Minuano de Literatura 2024.

Bem, obrigada, fico muito feliz que você tenha gostado do Paquiderme e fico muito feliz também com a vida que ele tem tido depois da publicação. Pra contextualizar de forma mais direta antes de eu me delongar: o Paquiderme é um livro de poemas dividido em quatro partes (memória, peso, insônia e delicadeza) que parte de cenas relacionadas ao lugar onde nasci e ao longo do livro vão se misturando com questões mais universais, como amor, morte, luto, linguagem e questões mais específicas, por exemplo, a não maternidade.

Só que talvez o que eu mais gostaria de falar sobre o Paquiderme é que ele não existiria sem o meu primeiro livro, o Ainda morreremos tanto e será só o começo, pois ele não existir sem o outro me parece fundamental pro Paquiderme ser como é: um livro onde me permiti escrever sem nenhuma amarra, sem pensar se seriam poemas ou outra coisa, sem pensar se seriam publicados, mas sim, com esse desejo de publicar. 

Eu vou explicar um pouco isso: no início dos anos 2000 eu criei um blog que se chamava A morte é uma borboleta. Ele surgiu como substituto a emails-carta que eu costumava enviar pra amigos – eu escrevia um texto e me perguntava qual amigo gostaria de ler e enviava – com o blog eu não precisaria pensar quem seria o destinatário. Foi um blog com pouquíssimos leitores, mas tinha seus fiéis e conheci alguns escritores de blog de outros interiores do Brasil através dele. Esse blog existiu por muitos anos, não tinha regularidade, ok, mas estava lá desde 2008 e acho que o último texto foi de 2018, só que eu só me senti escritora, me permiti me chamar assim, quando publiquei meu primeiro livro, o Ainda morreremos tanto e será só o começo que é uma coletânea de alguns textos do blog retrabalhados e organizada em formato de livro. Essa publicação tem um papel muito simbólico.

É difícil que alguém, para além de conhecidos próximos, me chamasse de poeta ou escritora se eu nunca tivesse publicado esses textos – que já existiam há muito tempo – em forma de livro. E é por isso que eu acho muito importante o trabalho que editoras independentes tem feito, principalmente as que tem um olhar do Brasil para além das capitais, como a Patuá, por exemplo. Há algumas furadas entre editoras independentes a se evitar? Sim. Há dificuldades mesmo ali? Sim. Mas temos mais pessoas que se permitem escrever e publicar seus textos e isso é algo a ser comemorado. Eu ouvi da boca de escritores que admiro que agora com esse novo formato de editora todo mundo pode publicar e o que eu digo é: bom se fosse! É preciso um longo trabalho de educação de base pra que as pessoas do interior e das periferias do Brasil entrem em contato com a leitura e se permitam escrever, a gente está longe de ter essa situação ideal. 

E o livro Paquiderme só existe por isso, tanto porque chamadas de editoras independentes me permitiram ter a coragem de colocar meus textos pra fora, quanto na temática. Ele é um livro em que eu percebo que não sou daqui, do Rio de Janeiro, do centro do Brasil, o lugar que tem o capital cultural, que decide o que é Brasil e o que não. 

Então depois de eu me liberar da pergunta se posso ou não me chamar de escritora, depois de desovar textos há muito parados, eu escrevi coisas, no Paquiderme, que estavam me mobilizando muito naquele momento. Eu me permiti voltar a escrever e a escrever com mais leveza, a participar de saraus, fazer oficinas de poesia. Passei a me alimentar mais da literatura. Um grande propulsor pra eu escrever os textos do Paquiderme foi minha participação na oficina do Carlito Azevedo, me alimentar daqueles poemas e do amor do Carlito pelos poemas que ele seleciona, traduz, analisa foi essencial pra mim. O amor nas suas mais diversas formas é muito central em Paquiderme, e talvez o amor do Carlito, dos poetas que conheci na oficina dele, além dos poetas que conheci nas redes e ruas a partir do meu primeiro está ali também.  

Lembro de sair de casa depois das oficinas que, por amor à poesia, acabavam às 23h e encontrar o Gabriel Alvarenga – escritor e mais que amigo que está sempre envolvido na escrita de algum texto – e o Daniel Stringini – meu companheiro e músico e que também ele está sempre com um projeto novo – e ler os textos e ouvir as músicas uns dos outros. 

Sinto ele um livro muito vivo pelo processo como foi criado e por essa sensação de “não interessa se vão gostar”, pois eu estava falando o que eu queria, o que estava pulsando em mim naquele momento. Nesse sentido ele veio num clima muito parecido com o do surgimento do meu blog lá nos idos de 2008, escrever pra ler na mesa de bar juntos, escrever com e sobre o que amamos, só que são poemas de uma pessoa de 40 anos, não de 25. Então se aos 25 existia um peso existencial, o Paquiderme é mais um “bora viver”.

Quando eu falo que o Paquiderme tem a ver com perceber que eu não sou daqui, isso também tem a ver com idade, eu vim pro Rio com 27 anos, aos 27 a gente finge que não, mas quer caber, eu estava fazendo um doutorado então, nem que seja em termos de trabalho, é preciso caber pra ser aprovado. E esse querer caber tira a nuance de quem se é, suaviza o sotaque de maneira imperativa. Aos 40, idade que eu tinha quando lancei o Paquiderme, eu já não estava mais preocupada com isso.

Existe uma alegria em entender que quem está criando com você e apoiando seu trabalho é porque admira quem você é e sua história. E isso me levou de maneira não planejada a visitar memórias, paisagens que as pessoas mais próximas a mim aqui no Rio nunca vão conhecer. É uma experiência migrante que pessoas que migram por obrigação vivem o tempo todo e de maneira muito mais cruel, mas tem se feito presente em mim de alguma maneira nos últimos tempos.

Compre o livro aqui:
https://shorturl.at/DIQGm

LUIZ RIBEIRO – Um primeiro ponto a destacar sobre Paquiderme é um desejo pela palavra — mais que isso, um desejo pelo ato de falar, uma não economia da palavra. Como você vê este gesto em seu livro?

Acho curioso que isso é um ponto que mais de uma pessoa destacou. A Diana de Hollanda comentou que sente que tem algo da psicologia em alguns poemas. A Aline Aimée falou do fato de que existe sempre alguém com quem a voz do poema conversa. São coisas que eu não tinha em mente quando fechei o livro. Acho que esse gesto se conecta com o livro ter sido escrito entre muitas conversas e entre essas conversas eu incluiria os saraus, além de um estado de despreocupação com julgamentos. Não que eu ignore totalmente o leitor e não queira que o livro seja lido, mas isso não está em questão quando escrevo. O primeiro livro é mais medroso nesse sentido. Pelo menos em sua edição final. Corta palavras por medo, por preciosismo e pra deixar mais espaço pro leitor, já o Paquiderme tem uma estética do excesso, de evitar o corte. Então ali há muita oralidade, muita rima pobre, piadas sem graça até, eu sei que elas estão ali, mas eu tento sustentá-las.

Outro dia, conversando com a Paula Poc, amiga poeta e a gente percebeu como temos processos bem diferentes de escrita – Paula é uma pessoa multitarefas e eu sou bem lenta – e ela me perguntou: mas você não está sempre pensando em algum projeto, em algum texto, num poema? E eu falei que não, estou sempre pensando, coisas que me incomodam, que me apaixonam, estou sempre pensando, confusamente, em algum momento o incômodo é tanto que escrevo. O poema só existe quando escrevo, não na minha cabeça. Não estou aqui defendendo a inspiração ou algo mágico que simplesmente em algum momento sai, mas escrever poesia me organiza, colocar as palavras no papel me organiza, não existe um pensamento muito organizado até que eu escreva.

Quando eu percebo que os poemas estão se conectando e que talvez exista um livro eu fico num estado de excitabilidade, mas até montar o livro é algo que eu faço falando e escrevendo e não matutando em pensamento. Quando eu falo “me organiza” também não quer dizer que seja um processo terapêutico ou fale sempre do que eu sinto e vivo, organiza como eu percebo o mundo, pode ser o sentimento de outra pessoa que me atravessou. Um bom exemplo é o poema A idade, que fala sobre não maternidade, acho que tem muitas mulheres ali nele, e eu achava que fossem só mulheres, mas homens falaram comigo também sobre como se sentiram afetados por ele. 

São poucos os poemas de Paquiderme que são temáticos, no sentido, de “eu quero falar disso”, é um ato de falar mais com expressão de ansiedade que eu resolvo lidar com as ferramentas de escrita que tenho. Então, por mais que em alguns momentos eu queira falar sobre algo, o que guia o poema é a palavra, o som, o ritmo, e esses elementos traem o tempo todo o que eu gostaria de ter dito.

Tudo isso me parece ligado a tentar cavar o espaço pra uma palavra não disciplinada, não obrigatória. Eu passei muitos anos como pesquisadora e no mundo acadêmico cada palavra precisa ser justificada e há uma disputa pelas palavras. Então poder usar a palavra sem pedir licença é libertador. Um grande mal que posso fazer usando a palavra errada é fazer algo sem sentido, ou um novo sentido, ou algo que não gostem, e se não gostarem, tudo bem. Isso é maravilhoso! Já que não é preciso, então vamos falar mais, é sempre um modo de conexão. O poema A conversa brinca com a impossibilidade de entendimento total quando conversamos. A poesia está o tempo todo lidando com esse desentendimento sem culpa.

LUIZ RIBEIRO – Eu cheguei a comentar com você que Paquiderme é feito de dromopoemas: poemas que correm no papel, que parecem ser lidos ao correr da página, que possuem certo movimento, velocidade. Você corrobora ou acha que não é bem por aí?

Eu concordo, consigo ver isso, apesar de não ser algo calculado faz sentido e se conecta inclusive com o que falei da escrita ligada a uma ansiedade e também com o ritmo trair o que o poeta quer dizer. 

E essa eu diria que é uma grande diferença entre o Ainda morreremos tanto e será só o começo e o Paquiderme, no primeiro o que traía o que eu queria dizer era a sonoridade, a métrica, no segundo, é o ritmo mesmo.

O poema que eu mais leio em público e do qual eu recebi mais comentários é o A idade e eu acho que ele tem isso, é até difícil de ler ele devagar, eu escrevi como se estivesse correndo mesmo e mantive isso em todas as revisões pra dar uma noção de urgência que se apaga rapidamente no final. Outro poema que tem um ritmo muito parecido é O sonho que fala da pandemia, ninguém nunca me falou nada sobre esse poema, talvez as pessoas não se conectem com ele por ser datado, ou por ele provocar uma memória tão ruim que deixamos bem trancada pra poder sobreviver, mas ele tem o mesmo ritmo crescente que chega num pico e finaliza abrupto, ali a velocidade traz a intenção de sufocar, de fazer perder o ar.

LUIZ RIBEIRO – Sendo assim, você já pensou que, talvez, seus poemas sejam musicais? Ou que tenham uma musicalidade imprevista?

Apesar de pensar muito em ritmo, nunca tinha pensado em musicalidade no Paquiderme especificamente, mas faz sentido, quando eu descrevi o processo de um poema que vai criando velocidade ao longo da página e termina bruscamente eu consigo ver que poderia ser usado pra descrever algumas composições do Daniel (Linha, Através), eu ouço essas músicas sendo compostas, nunca tinha feito esse paralelo mas é possível que ele exista, tanto é que eu e ele começamos a brincar juntos numa mistura entre textos meus, musicas dele e samplers de recortes de falas e poemas. 

Tem um novo poema que não está em nenhum livro ainda que ao ler em voz alta eu pensei que ele tem algo de rap, com todo o perdão do meu não lugar de fala sobre isso, gosto mas não tenho um grande conhecimento. Uma parte disso pode ser influência de poetas que admiro muito da cena slam, Gênesis, Tom Grito, Laura Conceição, tudo que a gente aprende é por imitação, a gente sempre está roubando de alguém, quando eu conheci a Laura eu já tinha escrito Paquiderme, mas o Tom e a Gênesis eu conheci antes. 

De modo geral a música faz muito parte da minha vida, meu pai é músico, cantei em corais quando pequena, minha mãe sempre cantava em casa, eu estou sempre ouvindo o Daniel compor em casa, já compus mini canções. Mas eu sempre vi mais a minha poesia do Ainda morreremos… mais conectada com a música. Ali eu fui muito influenciada pelo Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, Itamar Assunção, Cadão Volpato.

LUIZ RIBEIRO – Mas por trás desse movimento da forma, você também recupera memórias dos seus avós, do Dumbo (não me recuperei desse poema até hoje), de seus aniversários (“o mundo é esse aqui e essa é a vida, minha vida / esse passar lento / do dia a dia”). Há um certo amadurecimento sem tentar perder a pureza no livro, não?

Eu diria que o amadurecimento é encontrar, não exatamente a pureza, mas a leveza. Então não é bem isso e aquilo, vejo como quase a mesma coisa. Não uma pureza original, perdida, mas a leveza de poder estar presente no que se vive. O amadurecimento de entender o nosso tamanho, bem pequeno. Entender que o que a gente vive é completamente especial e ao mesmo tempo insignificante. Talvez essa insignificância seja o mais próximo da pureza e do amadurecimento. E aqui talvez eu encontre Manoel de Barros que é um poeta que não tenho lido mais, não me toca mais tanto, mas que foi tema, junto com Lispector e Cortázar, do meu TCC em psicologia. Incrível como tudo volta, esse é o poder do ato de falar me mostrando que eu estou e não estou mais lá.

Ver que existem outros mundos, outros problemas no mundo, sem desprezar nem sobrevalorizar nossos problemas, é o que nos torna capazes de nos responsabilizar. E amadurecer é se responsabilizar, não tem pra onde correr. Entender isso talvez seja a solução pra gente nem desprezar nem invejar o mundo do outro e valorizar a própria historia. E o olhar da criança é muito importante pra isso, por isso talvez te faça pensar em pureza, porque a criança ainda não emburreceu com certezas. O poema O mundo (essa é a vida, esse passar lento do dia a dia) é realmente inspirado numa cena que minha tia Ivanir me contou sobre minha avó Rosa e eu vejo como uma fala de alguém profundamente conectada com a sua vida, não autocentrada, mas comprometida consigo e seu entorno, todas as pessoas que ela tornou melhores estando presente. 

Pensando no mundo de hoje eu vejo como um poema anti-FOMO.

Compre o livro aqui:
https://shorturl.at/y5yHO

LUIZ RIBEIRO – Em Ainda morreremos tanto e será só o começo tem um procedimento distinto: o verso é mais lapidado, menos solto. Pode nos falar um pouco sobre o livro?

Eu escrevi os textos que estão nesse livro a partir de um momento que eu estava estudando escrita e subjetividade. Eu fiz meu mestrado em educação na UFRGS na linha de Pesquisa Filosofia da Diferença e Educação orientada pelo Tomaz Tadeu da Silva, um pesquisador que o Brasil todo conhece como referência em estudos culturais e estudos do currículo, mas, pelo perfil autocentrado do Rio de Janeiro, é mais difícil que o conheçam aqui. Como tradutor de Virginia Woolf, até mesmo no Rio de Janeiro fica difícil ignorar. O Tomaz foi referência em tudo que estudou (Marx, Foucault, Estudos culturais) e falo no passado pois ele não foi fiel a nenhuma de suas referências – segundo ele, continuará fiel só à Virginia Woolf por quem ele morrerá apaixonado até o fim – eu fui a última orientanda dele e nesse momento ele estava estudando escrita, encantado com Mallarmé, Paul Valéry, dava aulas de Bakhtin, muitas aulas dele eram focadas em analisar formalmente poemas.

Então eu comecei a escrever sob esse estudo encantado pela forma e sonoridade. Pra ter uma noção, no lançamento do livro em Porto Alegre, quase 15 anos depois de eu ter sido aluna de Tomaz Tadeu, ele falou com meus pais que uma pessoa com meu nome só poderia ser poeta, pois tem assonâncias e aliterações no nome. Então esses estudos com o Tomaz me formaram, mas a minha escrita sempre foi veloz, o ato de escrever, só que ali meu norte pra escrita era mais formal que o Paquiderme. O Tom Grito, quando leu alguns dos poemas do Ainda morreremos… reparou em como ele é consonantal e, sendo assim, ele é um texto difícil de ler em voz alta. 

Além disso, tem um jogo de se esconder do leitor. Algumas vezes eu sei do que estou falando, mas não entrego, tem algo contido, um dar trabalho. Um quem pegou pegou. Eu sou encantada por alguns dos poemas, pois consigo admirar essa pessoa que já não sou mais, assim precisa. Já o Paquiderme é um blááááá, tipo um “dorme com isso” pro leitor.
Mas uma parte da dureza do livro tem a ver com o fato de eu ter escolhido textos que eram de blog – e eu chamo de textos propositadamente, pois eles nasceram sem se pretender poemas – e tentar fazer eles caber num livro.

Esses dias eu ouvi a Andrea del Fuego falando do livro dela, Nego Tudo, e é um livro em que alguns textos nasceram em blogs, e ela chama de microcontos e no mundo da literatura tem todo um estudo de microcontos, uma respeitabilidade dessa forma muitas vezes experimental, ela citou o livro organizado pelo Marcelino Freire “Os cem menores contos brasileiros do século”, organizado pelo Marcelino em 2004, se eu olhar pra muitos dos textos que escrevi no meu blog, alguns que entraram e outros não no Ainda morreremos…, vários poderiam ser considerados microcontos (por exemplo: moramos/ namoramos e/ morremos/ de amor ou de novela/ das oito/ eu ele ela). Mas eu não sou alguém “da literatura’, não tenho essa formação ou estava ligada em como esse mundo dos blogs foi elaborado pelo mundo editorial.

Quando eu me vi diante dos meus textos e tentando fazer eles caberem num livro eu fui mexendo naquelas formas que eram variadas, experimentais e tentando fazer caber. Pra algumas editoras eu enviei mais próximo do original com forma livre, mas o arquivo que eu acabei enviando pra Urutau era um arquivo que eu tinha mexido pra um concurso em Portugal e que eu supunha mais conservador, então eu tinha mexido todos os textos e cortado em versos, com uma atenção precisa à métrica, sim. Mas não foi assim que eles nasceram. Era o último dia do prazo pra enviar pra Urutau e o Gabriel ficou insistindo pra eu enviar: manda, você já tem o arquivo, custa nada, e eu não vi qual arquivo tinha enviado, se o mais doidão, ou o mais quadrado, e era o mais quadrado. Então eu acho que tem esses diferentes níveis que tornam ele um livro mais lento. A escrita dele foi bem mais experimental do que a forma que ele tomou depois.

LUIZ RIBEIRO – Alguns temas como memória, infância e morte aparecem em Ainda morreremos tanto e será só o começo. Parece que há nele um interesse maior por voltar-se às coisas do universal, um desejo pelo todo… Faz sentido?

Você é o leitor, então você que manda. Mas eu sinto o contrário. Talvez ele dê uma sensação de querer abarcar o todo por ser um livro que mais esconde do que mostra, então existe uma história, um tema, um eu mais escondido. Apesar de muitos serem em primeira pessoa, são poemas que entregam pouco sobre esse eu. Mas eu vejo ele como corporal, mais mundano do que querendo abarcar o universal. Se o Paquiderme me soa mais narrativo, o Ainda morreremos… me soa mais paisagístico, mais conectado ao haicai, a momentos, acontecimentos. O Paquiderme, apesar de ter uma criança como personagem no primeiro poema, o tema do poema é basicamente a existência do mundo. Como a fala é localizada e traz uma cena cotidiana o leitor pode sentir mais proximidade, mas aí já responderia minha avó: essa é a vida. 

LUIZ RIBEIRO – O que você poderia dizer que está em Ainda morreremos tanto e será só o começo e que reaparece em Paquiderme?

Acho difícil responder essa sozinha. A Joseana Stringini, jornalista, fotógrafa pesquisadora de literatura, fez alguns paralelos no lançamento do Paquiderme em Florianópolis, mas eu não lembro assim de cabeça. Ela fez alguns paralelos com a minha dissertação de mestrado também que é intitulada Redondamente Amarela (um advérbio no título, quando ele foi escrito alguns escritores morreram) e é escrita em forma de poesia (sem nenhum rigor sobre o que estou dizendo com isso). No Paquiderme eu faço referência a essa dissertação, no poema O elefante eu cito diretamente: a vida corrompe a paz, pois amarela os panos. Então talvez o que os livros tem em comum seja memória. A memória do Paquiderme não está só na infância, num lugar original, mas em todas as camadas que vão se criando numa vida – é daí que vem o título inclusive – o Ainda morreremos tanto e será só o começo é uma dessas camadas. Mas isso não interessa muito ao leitor, é mais um processo meu. 

Enquanto escrita eu diria: o humor. No Ainda morreremos tanto e será só o começo tem um humor mais “vamos brincar de palavra e ver no que dá”, levar a poesia não pra tão longe do trocadilho, e no Paquiderme tem piadas, até memes no meio de poemas que supostamente deveriam ser sérios, como comentei antes.

LUIZ RIBEIRO – E pra fechar, indique pra gente 3 livros de poesia escritos por mulheres contemporâneas que você acha que seria legal a gente entrevistar também.

Essa é difícil porque tem muitas que amo, sou fã e admiro, algumas eu já citei ao longo da entrevista, mas eu vou me basear então por livros que eu gostei e que acho que poderiam ter mais visibilidade: Da queda enquanto voo, da Adriana Massocato, Terra Santa, da Gênesis e Beije entre a lua e o sol, da Téia Porto.

Related posts

MEC Livros supera marca de meio milhão de usuários: Dostoiévski, Socorro Acioli e Han Kang lideram a lista de mais lidos

Milton Hatoum toma posse na ABL e se torna primeiro amazonense a ocupar a cadeira de imortal

“Teatro aberto: escritos de um diretor” explora o teatro de Aderbal Freire Filho, um dos nomes mais importantes da dramaturgia brasileira