Darcy Ribeiro chega à China: “O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil” é traduzido pela primeira vez para o mandarim

No dia 9 de abril de 2026, a sede do Grupo de Comunicações Internacionais da China (GCIC), em Pequim, recebeu o lançamento inédito de “O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil” (1995), de Darcy Ribeiro, traduzido para o mandarim pela professora Yan Qiaorong. O evento reuniu cerca de cem representantes de ambos os países, diplomatas, acadêmicos e jornalistas, e foi a segunda atividade oficial do Ano Cultural China-Brasil de 2026, estabelecido pelos presidentes Lula e Xi Jinping.

A edição é fruto do trabalho conjunto da Blossom Press e do Centro Cultural de Publicações China-América Latina e Caribe do GCIC, em parceria com a Fundação Darcy Ribeiro. A cerimônia contou com discursos do embaixador brasileiro na China, do vice-diretor do Escritório Nacional de Publicações em Línguas Estrangeiras da China e da ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes, que participou por vídeo. Em sua fala, a ministra expressou sua esperança de que a cultura continue a servir como uma força unificadora, fomentando o respeito mútuo e construindo um futuro compartilhado para ambos os países.

Uma obra que nasceu no exílio e chegou até a China

“O Povo Brasileiro” teve sua gênese no exílio, após o golpe militar de 1964, com uma primeira versão escrita no Uruguai em 1965 e uma segunda no Peru em 1972. A versão definitiva foi concluída décadas depois em circunstâncias dramáticas: gravemente doente, Ribeiro saiu do hospital para terminar o manuscrito em Maricá, no estado do Rio de Janeiro. Sua publicação original pela Companhia das Letras, no Brasil, ocorreu em 1995. 

Darcy Ribeiro (1922–1997) foi um dos pensadores mais influentes do Brasil no século XX. Participou da construção de Brasília, da fundação da Universidade de Brasília e foi um dos pilares da política de proteção aos povos indígenas. Em 2024, o presidente Lula o declarou “Herói Nacional”. 

Para José Alves da Cunha, que trabalhou com o autor desde jovem e hoje é o presidente da Fundação Darcy Ribeiro, a chegada da obra à China é a realização de um dos sonhos centrais do intelectual. “Tenho certeza que Darcy estaria exultante. Me sinto cumprindo uma de suas metas, realizando esse sonho de trazer ‘O Povo Brasileiro’ para a China, exatamente neste momento” , disse ele ao Brasil de Fato. 

Para o presidente da Fundação Darcy Ribeiro, a atualidade da obra vai além do contexto diplomático, “O Povo Brasileiro” não é um documento histórico encerrado em si mesmo, mas um convite permanente à reflexão sobre o que o Brasil ainda pode se tornar. O livro lança questões que seguem atuais: que país queremos construir? Por quais causas a juventude brasileira deveria lutar? José Alves da Cunha as descreve não como perguntas retóricas, mas como desafios concretos que a obra impõe a cada geração de leitores.

Leia também: Lu Xun, o pai da literatura moderna chinesa, em três livros publicados em português

Parte desse desafio passa por desconstruir interpretações que, segundo Darcy Ribeiro, distorceram a compreensão do Brasil. O autor rejeitava a noção de “democracia racial”, consagrada por Gilberto Freyre e outros, tratando-a como uma idealização que encobre a violência fundadora da sociedade brasileira. Na leitura do autor, o povo brasileiro é produto de um processo marcado pelo genocídio indígena e pelo etnocídio das comunidades negras e reconhecer isso não enfraquece a ideia de uma identidade nacional comum, mas a torna mais honesta. As lutas desses povos, longe de fragmentar o tecido social, integram a própria história de formação do Brasil.

A desafiadora jornada de traduzir Darcy Ribeiro

Durante o evento de 9 de abril, a tradutora Yan Qiaorong, professora da Universidade de Comunicação da China e especialista em estudos brasileiros com mais de duas décadas de experiência, compartilhou sua jornada na tradução do livro. Ela afirmou que entender o Brasil sem ler Ribeiro é como entender a China sem ler “乡土中国” (“Da Terra: Os Fundamentos da Sociedade Chinesa”, em tradução livre) , de Fei Xiaotong (费孝通) ; e para um chinês nunca ter ouvido falar de Ribeiro é como um brasileiro nunca ter ouvido falar de鲁迅 (Lu Xun). 

A professora e tradutora Yan Qiaorong. Foto: Xiaofei

Este livro foi uma “jornada” que ela escolheu traduzir ativamente. Para transmitir com precisão o significado de “povo brasileiro”, ela estudou especificamente o manuscrito original, impresso em 1995, comparando meticulosamente os conceitos centrais com os de Gisele Jacon de Araújo Moreira ,antropóloga e atual vice-diretora da Fundação Darcy Ribeiro, que auxiliou Ribeiro na compilação do manuscrito. 

Yan Qiaorong ainda enfatizou que as máquinas podem traduzir palavras, mas não pensamentos; podem converter código, mas não podem construir confiança. Porque a confiança só pode ser construída por pessoas.

Yan Qiaorong enfrentou o primeiro desafio já no título. O dilema era aparentemente simples: verter “povo brasileiro” para o mandarim. As duas opções óbvias não eram equivalentes. “巴西人民” (Bāxī rénmín) soa familiar, mas carrega uma carga política específica do contexto da República Popular da China, designando o sujeito coletivo organizado, um conceito com contornos ideológicos definidos. 

Yan, então, optou por “巴西人” (Bāxīrén), termo de sentido mais descritivo, que remete simplesmente a “quem é brasileiro”, mais próximo, segundo ela, do que Ribeiro realmente quis dizer já que o autor não estava falando de um grupo político constituído, mas de uma comunidade em formação: uma nova gente que emergiu dos contatos coloniais e seguiu se construindo até o povo brasileiro de hoje. A identidade que Ribeiro descreve é um processo, não um dado. Por isso “巴西人” é, na avaliação da tradutora, a escolha mais fiel ao pensamento do autor.

Tal decisão não foi tomada de forma intuitiva. Foram meses de consulta a acadêmicos brasileiros, leitura aprofundada da obra e um mergulho na historiografia do país. Yan, que fez mestrado em Letras na UFRGS entre 2005 e 2008, leu seis obras fundamentais da história e do pensamento brasileiros, entre elas “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, para que a tradução tivesse raízes sólidas além do texto original. “Parece que eu sempre estava com o autor”, disse ela sobre o processo.

Foto Xiaofei

O mesmo rigor se aplicou a conceitos que não têm equivalente em nenhuma língua além do português de Darcy. “Cunhadismo”, peça central de sua teoria sobre a colonização, por exemplo, foi traduzido como “联姻吸纳制”, que significa literalmente “Sistema de Absorção Matrimonial”, após consulta a especialistas brasileiros. “Ninguendade”, que nomeia a suspensão identitária dos mestiços no período colonial, exigiu notas de tradução extensas para que o leitor chinês pudesse acompanhar o raciocínio do autor.

Para o presidente da Fundação Darcy Ribeiro, essa dificuldade é inseparável da originalidade do pensamento de Ribeiro: o autor construiu um vocabulário próprio, sem paralelo em outros autores, e compreendê-lo é condição para traduzi-lo. 

Na mídia chinesa, destaca-se que “O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil” levou 30 anos para ser escrito e explica sistematicamente como a nação brasileira foi formada através do encontro, conflito e integração de diversas culturas. É um clássico essencial para a compreensão da história, da realidade e do caráter nacional do Brasil, sendo também um livro nacional conhecido por todos os brasileiros.

Fontes:

RAMOS, Mauro. “Darcy Ribeiro na China: ‘O Povo Brasileiro’ é publicado em mandarim pela primeira vez”. ICL Notícias / Brasil de Fato, 13 abr. 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/darcy-ribeiro-china-povo-brasileiro-mandarim/

晓菲. “巴西作家达西•里贝罗代表作《巴西人》中译本在北京发布”. 南美侨报网 (br-cn.com), 10 abr. 2026. Disponível em: https://www.br-cn.com/static/content/pics/2026-04-10/1492215992993067522.html

江海. “《巴西人:巴西的形成及意义》中文版新书发布会在京举行”. 中国出版传媒商报 (cbbr.com.cn), 10 abr. 2026. Disponível em: https://www.cbbr.com.cn/contents/533/108043.html

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