“O casamento é performático por natureza”.
Quando Charlie (Robert Pattinson) está deitado na cama ao lado de sua noiva Emma (Zendaya), em uma noite insone devido à paranoia após conhecer um segredo do passado dela, lembra-se da premissa de Freud sobre os desejos reprimidos: eles permanecem no indivíduo e ressurgem piores mais tarde. O que Charlie descobriu vem de uma revelação da própria Emma, um episódio sombrio na adolescência do qual ela, aos 30 anos, evidentemente já amadureceu. Mas o noivo fica completamente desestabilizado ao tomar ciência do ocorrido, e isso desencadeia todo O Drama que estremece o casal prestes a dizer sim no altar.
O interesse do cineasta norueguês Kristoffer Borgli pelo inconsciente já é um elemento característico de seus filmes. Radicado nos Estados Unidos, lançou, em 2026, O Drama, seu segundo trabalho produzido no circuito de Hollywood. Aos 40 anos, é um queridinho da produtora A24, parceiro de Ari Aster (Beau tem medo) e consolidado na grande indústria. Muito disso, certamente, é devido à acidez e ao estilo desconcertante com que explora as debilidades do caráter humano em filmes que escreve, dirige e edita.
Em O Drama, Charlie e Emma são um casal apaixonado nos últimos preparativos do casamento. Nesse processo, convidam um casal de amigos para o jantar de degustação do cardápio, em que, após várias taças de vinho, Emma faz a trágica revelação. Na ocasião, a amiga Rachel (Alana Haim) propõe um jogo pré-nupcial: contar a pior coisa que já fizeram na vida.
Para manter o texto livre de spoilers, convém dizer que a confissão seria algo equivalente a confessar que, na adolescência, ela desejou entrar para uma facção neonazista ou, para aproximar do nosso contexto, que quis fazer parte do 8 de janeiro de 2023 ou ingressar em um grupo de disseminação de informações antivacina. De qualquer forma, trata-se de algo que Emma apenas desejou, e não de um erro que, de fato, cometeu.
Na cena do jantar, é válido notar que quem mais se escandaliza são os amigos. Rachel julga o que acabou de saber como inaceitável, enquanto a reação de Charlie é mais comedida. É evidente que a indignação externa acende nele uma espécie de culpa em seguir no relacionamento como se aquilo não tivesse importância.
Sendo um millennial bem-sucedido, curador de um grande museu de arte, com posicionamento ideológico bem estabelecido, seria correto para Charlie ter como parceira alguém que já quis cometer crimes contra a humanidade, a democracia ou a liberdade? Ou, pior, seria moralmente aceitável ignorar qualquer uma dessas possibilidades e permanecer com quem ama? Como seria viver à mercê do julgamento alheio?
Portanto, quando Charlie menciona o perigo atestado por Freud em relação às emoções reprimidas, é provável que, inconscientemente, não se refira aos planos que Emma fez na adolescência, mas ao seu próprio desejo de seguir com ela, abandonando a coerência da sua moral ideológica. Além disso, o personagem parece ter outros sentimentos reprimidos, como os que surgem no seu conflito em relação às próprias preferências sexuais e no seu impulso de traição.
Expor a hipocrisia da moralidade intelectual parece o recurso narrativo favorito de Borgli. Seus longas apresentam dilemas cômicos que acabam por revelar conflitos morais mais complexos. Em Doente de Mim Mesma (2022), produzido na Noruega, Signe é uma jovem cansada de viver à sombra do namorado, um artista visual que é sempre o centro das atenções. Quando passa a usar uma droga que causa lesões graves na própria pele para tomar os holofotes do parceiro, fica evidente que ele não é o único narcisista da trama.
Em Homem dos Sonhos (2023), Nicolas Cage interpreta um professor universitário de meia-idade que, inexplicavelmente, começa a aparecer nos sonhos de pessoas pelo mundo todo. Sendo apenas um senhor calvo de vida pacata e existência patética, passa a ser julgado por atitudes no plano onírico. Assim, o filme se torna um estudo sobre como os fenômenos da fama, viralização e cancelamento são percebidos no ambiente acadêmico, contexto em que é esperado um maior esclarecimento para compreender os acontecimentos de forma racional.
Em absurdas comédias de costumes, Borgli desmonta relações construídas em esferas sociais como a arte, a academia e, agora, o casamento, para expor ao ridículo a suposta superioridade moral de pessoas mais intelectualizadas. Seus enredos repletos de eventos inesperados e até cenas incômodas, geralmente, culminam na constatação de que a moralidade é mais uma performance. Isso fica claro quando Emma propõe que a dança dos noivos seja mais livre e espontânea, ao que a instrutora contrariada responde: “não, o casamento é performativo por natureza”.
Ao combinar banalidades com elementos que vêm até do horror corporal, Borgli cria comédias de constrangimento que não pretendem se aprofundar em causas sociais e existenciais, mas expor personagens e espectadores ao ridículo de si mesmos.
Com atuações incríveis, especialmente de Robert Pattinson e Alana Haim, O Drama repete o feito de Amores Materialistas, com uma ressalva. O filme de Celine Song, em 2025, prometia uma comédia romântica que não entregou, segundo grande parte do público. Em 2026, os espectadores também vão ao cinema esperando isso de O Drama, mas seu humor mordaz, com tendência ao absurdo, serve muito mais.
Minha nota para O Drama no Letterboxd: 4 ½ estrelas.
The Drama (2026)
Direção e roteiro: Kristoffer Borgli
Duração: 1h45