Milton Hatoum nos lembra dos devaneios e da experiência mística da literatura: como viver isso quando se trabalha com livros?

Em uma festa, ao ser abordada com o clichê “Com o que você trabalha?”, minha resposta – “Com livros” – deixou o rapaz galanteador em total confusão. Por alguns segundos, ele me encarou, sem palavras. A verdade é que minha vida é dedicada integralmente a esses objetos literários. Eles são meu tema constante de conversas e escritos, ultrapassando a esfera do trabalho para se tornarem parte da minha própria decoração, espalhando-se pela sala e pelo quarto, prontos para qualquer momento de devaneio.

Se você vier à minha casa, prepare-se: não apenas conhecerá minha biblioteca, mas também ouvirá em detalhes a história de cada volume — quem me deu, as particularidades das diferentes traduções de obras russas, e outras “curiosidades” que, ao final das contas, não são tão aleatórias assim.

Leia também: Lendo sobre o neoliberalismo enquanto o neoliberalismo atravessa a sua vida

Essa experiência com os livros me remeteu ao ensaio O direito à literatura, de Antonio Candido. O crítico e sociólogo defende a literatura como uma necessidade básica e universal, refutando a visão de que seja um privilégio de poucos ou algo supérfluo. Pelo contrário, elementos como a ficção, as lendas e os folclores são, para Candido, uma condição fundamental para a existência humana. Ele entendia, claramente, que histórias deveriam vir na cesta básica.

Reprodução: Instagram

Recentemente, tive a oportunidade de acompanhar a posse de Milton Hatoum como o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). As palavras do escritor amazonense em seu discurso de posse são extremamente pertinentes ao tema deste texto. Hatoum, e qualquer pessoa que tenha uma certa intimidade com a literatura, reitera a importância de “sair do real”.

Ele afirmou que “não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos, na literatura, nas artes, no teatro, essa arte viva. Na experiência mística. Vivemos também no devaneio. A humanidade não pode suportar tanta realidade“.

Imagem: Reprodução da Internet

A realidade se apresenta como um lugar quase inóspito, até inabitável. Talvez seja por essa razão que os entusiastas de Tolkien encontram refúgio no Condado, lar dos Hobbits, ou em qualquer lugar fictício da Terra Média. Nesses devaneios, imaginam-se com pés peludos, dedicados aos prazeres simples da existência — como desfrutar de múltiplos cafés da manhã ao longo do dia — e residindo em tocas confortáveis. No cair da noite, a cena se completa com um cachimbo, a tranquilidade da pose e a arte de soprar pequenas e perfeitas bolinhas de fumaça. 

A perplexidade estampada no rosto daquele jovem na festa tem me assombrado nos últimos meses. O que no meu trabalho o deixou tão confuso? Consigo, no entanto, compreender essa reação. Muitas vezes, o que produzo carece de utilidade prática imediata, de metas definidas ou de uma aplicação técnica evidente. Essa situação me leva a uma indagação constante: como é exercer a literatura em uma sociedade neoliberalizada, totalmente refém do capitalismo? A resposta, em poucas palavras: é precário.

Apesar da precariedade, esse campo oferece lugares. Neles, podemos questionar a lógica do capital e explorar a fundo a subjetividade humana, que é incessantemente alvo de tentativas de padronização. É, portanto, na utilidade do inútil que encontramos nosso espaço. 



Related posts

MEC Livros supera marca de meio milhão de usuários: Dostoiévski, Socorro Acioli e Han Kang lideram a lista de mais lidos

Milton Hatoum toma posse na ABL e se torna primeiro amazonense a ocupar a cadeira de imortal

“Escrever é uma experiência migrante”: entrevista com Talita Tibola, autora de Paquiderme