Lendo sobre o neoliberalismo enquanto o neoliberalismo atravessa a sua vida

Foi no final do século XX, quando a face desgradável e apática do neoliberalismo se voltou para o Sul Global, introduzindo no Brasil um novo vocabulário para compreender o social; o conceito de “direito” passou a ser associado ao conceito de “serviço”; onde havia universalidade, instalou-se a ideia da eficiência e do mercado. Tenho lido alguns materiais, enquanto busco analisar essa transformação, tomando o panorama traçado por Carinhato (2008) como ponto de partida e dialogando com demais autores que investigam a conversão da proteção social em mercadoria. Um dos meus objetivos é compreender como essa racionalidade se tornou estrutural e permanece influenciando o presente. Certamente tenho outros objetivos. Acordar às 6h00 todos os dias, por exemplo — espasmos do mindset neoliberal.

Os anos 1990 selaram essa virada, como descreve o artigo que consulto enquanto tento não me perder na quantidade de siglas e datas. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial foram os organismos multilaterais responsáveis pelo receituário aplicado ao país. E a reforma do Estado, segundo os autores, não pretendia tão somente enxugar a máquina pública, mas reformular a própria ideia de proteção social. A Constituição de 1988 havia ensaiado o raro gesto de ampliar a cidadania a tal ponto que direitos deixassem de depender do contracheque e se ancorassem simplesmente na condição humana. Buscava-se romper com a velha lógica contributiva, criar mecanismos solidários, redistributivos, universais. Mas esse projeto recém-esboçado encontrou nos anos 1990 sua antítese mais dura — você-sabe-quem.

O Plano Diretor da Reforma do Estado leu a Constituição Cidadã como um retrocesso burocrático sem precedentes. As reformas orientadas pelo neoliberalismo pretendiam reconfigurar o Estado e reduzir sua presença na proteção social, substituindo o universalismo da seguridade por políticas focalizadas, racionamento de gastos e um alívio monetário mínimo — suficiente para garantir sobrevivência, mas incapaz de produzir autonomia. Surpresa: mais um conceito deslocado. A cidadania, antes vista como direito, começa a se parecer com uma coisa disforme, algo que o Estado gerencia e entrega com parcimônia, como se administrar a pobreza fosse mais urgente do que superá-la.

Se o neoliberalismo tinha arquitetura, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso foram seus decoradores oficiais — cada um à sua maneira, mas sempre seguindo a planta baixa da austeridade. Collor inaugurou a temporada das aberturas, privatizações e da ideia de que o Estado era um estorvo barulhento, um móvel ultrapassado ocupando espaço na sala. FHC refinou o projeto: profissionalizou a linguagem, terceirizou serviços, regulamentou Organizações Sociais e conectou de vez o Brasil ao receituário global. Quando dei por mim, a proteção social já estava de porta aberta, recebida como visitante ocasional, não como moradora. Talvez seja por isso que, décadas depois, ainda sinto essa ansiedade de manter tudo em ordem — até os odores ao meu redor tornaram-se parte do manual de instruções de uma vida administrada.

Porque o neoliberalismo não termina no Estado; ele escorre para dentro de casa. Está no cheiro do café que tomo para convencer meu corpo de que a manhã começou; no energético cuja fragrância cítrica me dá taquicardia; nas velas “de foco” que acendo no ritual de invocação dos demônios da produtividade; nos aromatizadores que prometem concentração enquanto só me entregam ansiedade com perfume de eucalipto. Se minha casa exala lavanda sintética, é para provar a mim mesma que estou mantendo tudo sob controle — ainda que o controle seja a ficção favorita dessa era.

Para ilustrar meu ponto de forma ainda mais íntima e literal, continuo escrevendo este texto sentindo uma mescla de aromas entre o de arrependimento e o de incenso de sândalo — talvez a fragrância oficial de quem tenta organizar a própria vida enquanto descreve o desmonte da proteção social. Sônia Draibe mostra que, nos anos 1990, o Brasil assistiu ao esvaziamento silencioso do modelo universalista inaugurado pela Constituição de 1988.

A “publicização”, conceito central naquele momento, operou a transferência das políticas sociais para entidades não estatais, convertendo a seguridade em uma engrenagem gerencial. No lugar do universalismo, entrou a focalização; no lugar da solidariedade, a lógica da eficiência; no lugar de emancipação, políticas compensatórias que garantem sobrevivência, mas não cidadania plena. De quem foi a brilhante ideia de autorizar o Estado a terceirizar a responsabilidade coletiva?

A essa altura, já é possível ver como a cidadania foi se convertendo em mercado — não por decreto explícito, mas por uma sucessão de pequenas torções conceituais. Direitos deixaram de ser garantias universais e passaram a funcionar como serviços moduláveis, distribuídos conforme orçamento, desempenho ou vulnerabilidade extrema. A ideologia neoliberal sugere que saúde, educação e assistência não são necessariamente dimensões da vida civil. Se o objetivo está no desenvolvimento econômico, tudo isso tem de operar sob a lógica do mercado: quem pode pagar, acessa; quem não pode, disputa migalhas focalizadas.

E nesse arranjo, a pobreza não é uma fatalidade com a qual os governos neoliberais se deparam. Como lembra Boito Jr. (1999), ela é um produto direto da própria política econômica que reduz empregos, comprime salários e concentra renda. O gerenciamento de danos substitui a política e o que nasce universal se converte em serviço focalizado para quem sobra do mercado formal. Metas, indicadores, relatórios trimestrais — tudo isso para administrar uma desigualdade que o próprio modelo insiste em produzir, gerenciar, mas jamais combater.

E é aqui que tudo desemboca: quando a pobreza vira gestão, a vida vira planilha. A racionalidade neoliberal escorre para dentro do corpo, entra nos hábitos, nos cheiros, na culpa diária. A precarização emocional é a tarifa subjetiva desse sistema: eu mesma cobro de mim aquilo que o Estado deixou de garantir. No fim das contas, minha casa cheira a lavanda sintética, café forte e uma ponta de desespero performático; a fragrância perfeita de quem tenta sobreviver a um mundo que transformou até a cidadania em KPI. E, sinceramente, se esse é o aroma oficial da modernização, talvez eu prefira o cheiro de qualquer coisa que não precise justificar sua eficiência.

Isadora França

Estudante de Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Interessa-se por narrativas que misturam literatura, política e história. Cultiva, com carinho e inquietação, uma paixão antiga pela filosofia, um amor crescente pelo fotojornalismo — e um comprometimento inabalável com pugs. Ainda não aprendeu a escrever sem sentir muito.

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