Quem diria, Clarice Lispector autora de livro de receitas! Se nem seu filho, Paulo Gurgel Valente, consegue se lembrar da imagem de sua mãe com uma tigela nas mãos preparando um bolo, imagine, nós, leitoras/es que idealizamos uma Clarice apenas munida de papéis e canetas?
O fato é que, dias atrás, em um sebo de raridades chamado “O Buquineiro”, foi encontrado um livro de receitas chamado Cozinha para Brincar, 1970, publicado pelo Centro Nestlé de Economia Doméstica e poderia ser encontrado, ao que parece, em supermercados.
Quem encontrou a peça rara foi o livreiro Gilvaldo Amaral Santos, que, ao se deparar com a assinatura de Clarice Lispector no prefácio, imediatamente entrou em contato com o biógrafo da autora Benjamin Moser, para sua análise minuciosa.
Após uma investigação precisa, Moser constatou que, sem dúvidas, o texto de Cozinha para Brincar, ao menos o prefácio, é da autora de clássicos como A Paixão segundo G.H. e A hora da estrela. Segundo o biógrafo de Clarice,
“O livro não é um ‘A Paixão Segundo G.H.’ e não acrescenta muito ao que já sabemos sobre Clarice, mas ainda assim é uma descoberta emocionante.”
Muito embora seja a primeira vez que Cozinha para Brincar, 1970, entra oficialmente na lista do acervo literário de Clarice Lispector, a Profa. Dra. Ju Gervason mostra no seu perfil que já tinha um exemplar do livro de receitas e compartilha no vídeo abaixo:
Assim, parece até que nem é mais tanta novidade que este livro componha o acervo de Clarice, pois, como foi uma publicação comercial, é bem provável que muitos desses exemplares estejam espalhados pelas casas de muitas famílias brasileiras, em alguma caixa de papelão em um canto sujo de um quarto escuro. E isso nos leva a pensar em outras coisas…
Benjamin Moser conseguiu identificar a obra como sendo efetivamente feita por Clarice, como compartilha Letícia Lima, do Aventuras na História, por conta do “forte odor de mofo do exemplar“. Ao que parece, não cuidar de acervos literários é uma tradição brasileira.
Se importar com acervos pessoais e literários de autoras e autores brasileiros, é coisa rara, principalmente quando citamos escritoras/es negras/os. Já falamos disso, quando tratamos das péssimas condições em que se encontra o acervo literário de Carolina Maria de Jesus.
Carolina, não é a única “vítima” do descaso e do apagamento de histórias, que parecem ser tragadas pelo tempo e esquecidas por quem tem o poder de guardar e conservar os documentos e as histórias das pessoas que ajudaram a construir a nossa sociedade.
Quando o Moser aponta que Cozinha para brincar, 1970 não é nenhum ‘A Paixão Segundo G.H.’, parece colocar o “livrinho de receitas” como algo menor, ou que mereça menos atenção. Esta fala me lembrou um texto que li há alguns anos chamado Caderno de receitas de Janair, 2019.
O Caderno de receitas de Janair, 2019, é um texto da Tamyres Batista e foi publicado no e-book Outras Tramas: dramaturgias escritas por e para mulheres, pela Editora Maré. A Tamyres é uma autora do Espírito Santo com uma produção literária que busca tirar do silenciamento pessoas negras.
A Janair da qual trata o texto publicado no Outras Tramas: dramaturgias escritas por e para mulheres é a empregada doméstica que foi demitida pela patroa em A Paixão Segundo G.H., e que nesta publicação possui voz para falar “sobre as receitas e os sabores de sua vida”.
Ao saber da existência de mais uma obra de Clarice, festejamos e esperamos que este acervo esteja longe de estar finalizado, mas não podemos deixar de falar dos acervos que sequer vieram à público.
Na atualidade, pensamos sobre vozes que foram silenciadas e maneiras de resgatá-las, como é o caso de Janair, pelas mãos de Tamyres, mas quantas ainda não possuem seus acervos pessoais e literários preservados e bem guardados? Muito menos, um velho livro de receitas?
Revisão de @biazilda