Em uma rua residencial de Makati City, nas Filipinas, uma casa repleta de livros chama a atenção. São milhares e eles não estão confinados a apenas um cômodo; eles avançam ao longo da calçada e sob prateleiras improvisadas do lado de fora, se espalhando, disponíveis para quem quiser. Sem cadastro, sem prazo de devolução, sem multas.
O dono da casa é Hernando Guanlao, conhecido no bairro como Mang Nanie. Contador de profissão e filho de funcionários públicos que tinham o hábito da leitura, ele conviveu a vida toda com livros. Porém, quando estava perto dos 50 anos, ao perceber que sua coleção pessoal acumulava poeira enquanto, do lado de fora, havia gente que nunca havia tido acesso a um único título, ele colocou cerca de 50 volumes na frente de casa com um cartaz simples: “Leitura gratuita”. E assim, criou o Clube de Leitura 2000, nome inspirado no ano de sua criação e na ideia de compartilhar conhecimento.
Mais de duas décadas depois, o acervo cresceu para milhares de títulos, desde romances, enciclopédias, livros didáticos e revistas até textos religiosos. Doadores deixam caixas no portão sem nem bater e alguns visitantes chegam para pegar livros e acabam deixando os seus próprios livros.
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Não existe burocracia nenhuma. Nada de carteirinha, nada de multa por atraso, nada de limite por visita. O leitor pode levar o livro para casa e ficar com ele para sempre, se quiser. É justamente essa ausência de regras que, segundo quem frequenta o espaço, cria um ambiente diferente do de qualquer biblioteca convencional, mais parecido com uma sala de estar coletiva do que com uma instituição. Essa natureza “sem regras” cria também uma cultura de confiança, generosidade e comunidade.
O público é tão variado quanto o acervo. Estudantes que precisam de material de apoio, crianças em situação de rua, trabalhadores que passam pela calçada e param por curiosidade. Mang Nanie também criou a “Caminhada dos Livros”, onde ele literalmente caminha carregando livros até crianças em situação de vulnerabilidade, oferecendo histórias e oportunidades de aprendizado onde a infraestrutura formal é precária.
Nas Filipinas, onde bibliotecas públicas são poucas e livros novos custam mais do que muitas famílias podem pagar, iniciativas como a de Mang Nanie preenchem uma lacuna fundamental ao transformar aquela calçada repleta de livros em um ponto de acesso gratuito à leitura.