“Depois do Fim”, de Isnard F. M. Aguilar: o que aconteceria se a humanidade desaparecesse?

Você já parou para pensar no que aconteceria se a humanidade desaparecesse?

Não amanhã. Não daqui a cem anos. Mas daqui a milhares de anos.

E se tudo aquilo que construímos, cidades, tecnologia, ciência, internet, virassem apenas ruínas sem explicação?

Essa é a pergunta inquietante de Depois do Fim: Raízes Profundas, do escritor brasileiro Isnard F. M. Aguilar.

A história se passa milhares de anos após o colapso da civilização humana. O mundo continua existindo, mas não da forma que conhecemos. Os animais praticamente desapareceram, insetos gigantes ocupam funções de transporte e alimentação, e as antigas tecnologias sobreviveram apenas como vestígios arqueológicos de um passado incompreensível.

Um ponto que achei super interessante é que o livro não trata o apocalipse como um espetáculo de destruição.

O verdadeiro tema da narrativa é a memória, pois quando uma civilização desaparece, não desaparecem somente os prédios e as máquinas, mas o desaparecem também os seus  significados.

Palavras que hoje fazem parte do nosso cotidiano, como “latitude”, “biosfera” ou “protocolo”, passam a ser interpretadas quase como objetos mágicos. A ciência vira lenda e a tecnologia vira mito.

E isso cria uma reflexão muito interessante: quantas coisas que consideramos conhecimento absoluto sobreviveriam ao tempo?

Outro ponto que me chamou atenção foi a construção desse universo.

Muitas fantasias reproduzem modelos europeus ou norte-americanos. Aqui, porém, existe uma preocupação em criar culturas que nascem do próprio território. Cada povo possui sua própria forma de falar, de interpretar a natureza, de organizar a espiritualidade e de compreender o mundo.

A própria linguagem muda conforme os personagens.

Enquanto Zahid possui uma narrativa mais filosófica, Kanuî é marcado por uma oralidade viva, profundamente ligada à sua comunidade.

Mas talvez o aspecto mais fascinante do romance seja a relação entre ruína e esperança. Pois o mundo está destruído e as cicatrizes do colapso permanecem por toda parte.

Mesmo assim, a narrativa insiste em perguntar se ainda é possível reconstruir alguma coisa.

Por isso, Depois do Fim, sendo uma fantasia pós-apocalíptica, nos obriga a fazer uma reflexão sobre o que fica quando tudo o que conhecemos desaparece.

E talvez seja justamente essa mistura entre ficção científica ecológica, mito e imaginação brasileira que faz o livro se destacar dentro da fantasia contemporânea nacional.

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