“E cadê você que não está aqui?
Duas da manhã e eu na solidão”
Triste com tesão, Pablo Vittar
No início do ano, a Prefeitura do Rio e a Polícia Militar restringiram o acesso noturno à Pedra do Arpoador. A medida respondeu a denúncias e vídeos virais que expunham um ponto de cruising na região. A comunidade local e segmentos conservadores do movimento LGBT celebraram o cerceamento, defendendo que a expressão sexual “saudável” existe fora do espaço público. De forma irônica, a necessidade de tal intervenção aponta que – num universo de interações digitais – algo da ordem do desejo, quer se entenda como homossexual ou não, ainda compele os homens a desbravar a noite por prazer.
Desejo e desamparo
Um traço singular do longa-metragem “O Labirinto dos Garotos Perdidos”, assinado pelo paulista Matheus Marchetti e estreado em 4 de junho, é a atualização dessa busca para as ansiedades contemporâneas. Tida como a menos sexuada das gerações, os Zoomers são protagonistas improváveis para uma história de flerte analógico entre estranhos. E é com uma sinergia rara de tesão e melancolia que o diretor acompanha seu protagonista sem nome (Giuliano Garutti) por uma jornada noturna rumo ao desconhecido.
Em diálogo com o francês “Faca no Coração” (2018), a iminência de um assassino pronto para executar jovens em profusão de hormônios gera um elemento erótico. Seria fácil relacionar essa linguagem com o cinema de Mário Bava, mas considerando a obra anterior do autor, a artista Mary Blair – que produziu a arte conceitual de “Alice no País das Maravilhas” e “A Bela Adormecida”, da Disney – parece constituir um referencial mais forte. Em sua caminhada, Giuliano faz lembrar mais uma princesa rumo à roca de fiar do que um protagonista de giallo ou o peregrino firmado no imaginário popular em obras como “Parceiros da Noite” (1980).
Spoilers abaixo!
A composição estilizada dos interiores contrapõe radicalmente o breu e a sombra das cenas externas. Nelas, a ameaça já não remete a um mundo mágico, mas à violência urbana de uma cidade entregue à iniciativa privada. Além do algoz, o filme apresenta outras figuras de repressão à sexualidade dissidente. Uma mãe castradora, uma namorada traída e um médico moralista encarnam medos como ISTs, sequestros e a solidão perpétua. No entanto, as “correções” desses personagens agravam a pulsão sexual (e de morte) dos garotos, que preferem o risco à segurança condicinada.
Outras formas de prazer (e desprazer)
Em mais uma investida contra o senso comum, Marchetti abraça uma sexualidade radical, mas não necessariamente prazerosa. Sendo assim, nenhum dos personagens está interessado na penetração anal frenética tão enfatizada pelo pornô gay. Um deles demonstra desconforto com a expectativa romântica sufocante do outro – outra contravenção interessante, dado que a sociedade acredita na relação monogâmica como ápice da realização homossexual; outro deseja ser penetrado por uma fruta – sua relação histérica com o encontro aponta para a instrumentalização dessas experiências casuais. Um terceiro convida o protagonista ao sexo oral e insiste que ele continue apesar dos antidepressivos que bloqueiam sua ereção.
Por fim, na sequência mais ousada, o mais amigável e dentro dos padrões de beleza dos rapazes resolve fazer da traição da namorada uma janela para seu fetiche com Golden Shower – que ganhou projeção após uma fala preconceituosa do ex-presidente do Brasil. Mesmo flagrado de joelhos com a boca cheia, a satisfação se sobrepõe ao constrangimento moral da parceira. Goza-se primeiro, o resto se resolve depois.
É como se o labirinto que intitula o filme fosse não apenas um espaço de gozo, mas de pertencimento. Meninos com prazeres singuares e corpos diversos coexistindo numa apropriação de inferno onde suas fantasias são celebradas. Na potente sequência final, o assassino emerge numa aplicação freudiana (e eficiente) do recurso dos gêmeos. Enquanto um deles segue os ritos da heteronorma, a sociedade o reconhece como filho e homem. Em contrapartida, sua cópia “defeituosa” que desafia os padrões do belo e do desejo é relegada à clausura. Na sua perspectiva vigorosa sobre a experiencia queer, Marchetti postula que é a morte do gêmeo bom que torna possível o gozo, a melancolia e o pertencimento.
Veja o trailer de O Labirinto dos Garotos Perdidos