O que é uma “escrita assêmica”? Algumas reflexões sobre o método

A escrita assêmica deseja apenas expressar emoções, intenções e possíveis direções de linguagem. “Assêmico” quer dizer “a menor unidade de significado”, mas atualmente isto tem se tornado vago e complexo, pois estamos acostumados a pensar o significado apenas pelo seu viés semântico. A escrita assêmica procura se livrar disso e propor novas concepções, que fogem às normas gramaticais.

A escrita não tem lugar na sociedade contemporânea. Isto é ao mesmo tempo uma provocação e, em certo sentido, uma afirmação. A escrita, segundo diversos pensadores do século XX*, teria o seu fim com a chegada do desenvolvimento tecnológico, isto pois o mecanismo da escrita não equivale ao da digitação. Em termos musculares, sensitivos, de cognição e intenção gestual. Assim, a escrita se desenvolve, primordialmente, como uma linguagem a ser decifrada e explorada, principalmente nos tempos de hoje.

Já faz alguns anos que as metodologias de ensino optam pela alfabetização digital contraposta à escrita fina. Não é incomum que a nova geração desconheça por completo o que é um livro de caligrafia – o Brasil, felizmente, ainda presa pela escrita à mão, por outro lado, países como os Estados Unidos (que não são, nem de longe, parâmetro para desenvolvimentos psicológicos) retirou por completo a obrigatoriedade de escrever das escolas.

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É preciso reforçar que a escrita não é apenas composta pelas peripécias do legível. Antes de ser invadida pelas regras gramaticais, a escrita é um lugar da descoberta, de tudo aquilo que é anterior à linguagem. Os primeiros movimentos que fazemos quando crianças é o de mapear o mundo através da marca, e aí sim está contida toda a potência da escrita: todos os rabiscos feitos por bebês de 0-3 anos são o mapa do mundo que se descobre.

Cada traço, risco e bagunça visual reflete o vazio da linguagem, que não pretende significar nada além do mapeamento de sensações e decodificação do espaço e suas qualidades de força e intensão – o tamanho da folha, a qualidade do material em que se escreve (se na areia, parede, chão, com giz de cera, canetinha ou lápis) – e é precisamente esta a busca linguagem assêmica.

Por trás de toda essa pesquisa, que ganha força no final dos anos 90, existem teorias densas que discutem toda a filosofia simbólica e semiótica por trás da escrita. A escrita assêmica alcança o que a palavra não pode, as sensações visuais e cinéticas que seres humanos e natureza podem evocar através dos mecanismos da escrita.

A mão, o cérebro e os sentimentos têm importância total neste campo da linguagem. Hoje, é preciso ressaltar, a escrita assêmica tem ecoado por todos os campos artísticos, inclusive os que envolvem a tecnologia, porém o mais importante prevalece: não é necessário que seja comumente legível para que possa ser amplamente comunicável.

Foto de Vicky Verardi

Lia Petrelli é artista visual, filmmaker, poeta e psicanalista. Pesquisa a escrita assêmica desde 2015, experimentando o corpo e palavras em estado de abstração, buscando deslocamentos dos sentidos. A partir de registros, edições audiovisuais e escritas, trabalha a intermidialidade, traduções e tensões entre linguagens artísticas.

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