A arte de Ana Julia: capturando o fragmento de memória de um tempo congelado

Ana Julia, a artista que pinta a memória através de fotografias antigas

O meio da internet tem sido visto como tóxico por muita gente, tanto pela proliferação de discursos de ódio quanto pela constante autopromoção que dá a todos nós a sensação de que a vida está passando e algo está ficando para trás. Porém, ocasionalmente, a internet nos propicia conhecer pessoas incríveis.

Foi este o meu caso quando me deparei com um instagram de uma artista que pintava uns quadros que muito me chamavam a atenção. Primeiro, investiguei em mim mesmo os motivos, depois fui querer saber mais dela. Trata-se de Ana Julia, uma artista plástica nascida no Rio Grande do Sul. Entrando em contato com ela, descobri que seu trabalho tem como foco a linguagem da pintura, utilizando da tinta acrílica buscando sempre entre o simples e eterno e girando em torno de temas comoca da memória e da identidade.

Segundo ela própria, a ideia é “perpassar pelas noções de tempo e espaço e as múltiplas narrativas que se pode ter a partir de uma imagem”, como é o caso das fotografias passadas registradas por ela e/ou por seus familiares que auxiliam na elaboração de suas pinturas. Além disso, Ana Julia trabalha com encomendas de pinturas em tela, estas com diferentes temáticas que variam de acordo com a clientela.”

Conheça o trabalho da artista aqui! O Jornal Nota convidou Ana Julia para uma entrevista. Confira:

Luiz Ribeiro – A primeira coisa que me chamou atenção no seu trabalho é meramente sensitiva. Quando eu olho pra um quadro seu sinto vontade de olhar de novo. Parece que quando olho fico com a impressão que perdi algo e poderia olhar mais. O que você acha dessa minha impressão e o que ela poderia falar de você como pintora?

Ana Julia – Com o passar dos anos fui desenvolvendo tal técnica de pintar. O que muitos chamam de talento, eu acredito que é trabalho, é tirar um tempo para pintar. Isso pode ser comprovado ao colocar lado a lado pinturas de quando eu era mais nova e minhas pinturas de agora, mas sem colocar juízo de valor sobre elas.

As pinturas mais antigas apresentavam poucos detalhes, pouca técnica, mas ainda assim, muita vontade de aprender e de colocar meus pensamentos pra fora. Sempre tive dificuldade de me expressar através de palavras – estou melhorando aos poucos -, e a arte foi um meio que me ajudou a externar sentimentos. Aprendi com o tempo a trazer mais de mim na pintura, acredito que seja por isso que você fica com a impressão de que perdeu algo e poderia olhar mais… 

Essa sensação tem a meu ver como uma pintura de um movimento, mas que não é movimento das coisas, mas de um jogo com memória. Sua pintura passa pelas memórias que todos temos?

As imagens carregam diversos significados, porém, depende de quem vê. Por exemplo, outro dia compartilhei uma pintura que fiz de minha avó, sentada ao lado do fogão à lenha, e para muita gente que me enviou mensagens, esta pintura fez sentido da mesma forma que para mim, o que me impressionou. Recordavam de momentos que avós passavam ao lado do fogão, tomando chimarrão e conversando, trazendo sentimentos de saudade.

Isso me fez refletir que apesar de pintar memórias minhas, para algumas pessoas podem soar parecidas, caso tiveram vivências semelhantes às minhas (gosto quando se enxergam nas minhas pinturas). Passei grande parte da minha infância na casa de minha avó, então muitas pinturas que trago são daquele lugar, que hoje já mudou bastante. Gosto de pensar no que já se foi, no que mudou, no que sinto saudade. Talvez a saudade ou a sensação da mudança todos sintam, mas a memória acredito que é singular.

Gosto particularmente das suas escolhas na hora de pintar. Parecem cenas cotidianas, mas ao mesmo tempo que parecem ser imortalizadas. Como o vento que bate na fachada de uma casa ou a família em uma moto. Num mundo de tanta coisa, o que te chama atenção para pintar?

Na maior parte dos meus trabalhos, tento trazer uma parte de mim, um afeto, algo que me toca e me motiva a pintar determinada imagem. Muitas coisas me chamam atenção para pintar, cores, formas, sensações (isso carrega um peso enorme) e a vontade. Sem a vontade nada anda pra mim.


O seu processo é feito como? Com lapidações de ideias, planejamento ou tudo sai mais rápido por impulsos?

O meu processo de criação leva em conta as fotografias. Elas me ajudam a dar mais detalhes para a pintura, a notar as coisas que estão ao meu redor e deixei escapar. Para mim, a fotografia é uma imagem congelada, ou melhor dizendo, um fragmento do tempo congelado. Portanto, analiso antes o que vou pintar, se vou trazer uma ou mais fotografias para dentro da pintura, o que vou mudar, quais cores vou usar e por fim faço o esboço no suporte.

A parte de começar a pintar é a mais difícil. Mesmo depois de ter pintado diversas telas, ainda tenho receio de iniciar uma. O início sempre é mais difícil, porque a pintura é uma construção, é feita por partes. No começo, parece que vai dar tudo errado. Mas depois de um tempo pintando, é bom demais. É uma sensação boa, de realmente gostar de estar fazendo aquilo, se sentindo no presente em cada pincelada. Nesta hora posso dizer que o processo é mais rápido e acontece por impulsos. 

Conheça também: Tudo é cor: a incrível e lúdica arte de Lorena Deluiz

Um dos meus quadros preferidos é o Zeca Padoguinho. Me fala TUDO sobre ele?

Ah! A tela do Zeca Padoguinho… Esta foi uma encomenda de uma cliente, que quis encomendar para dar de presente para a dona do Zeca. O Zeca (um cachorro) tinha um perfil no Instagram com diversas fotos suas. Tive a ideia de trazer uma de suas fotos para dentro da capa de “Hoje é dia de festa”, pois a cliente avisou que a dona do Zeca adorava amarelo. Para fechar, utilizamos as mesmas cores e fontes, mas trocamos “ZECA PAGODINHO” por “ZECA PADOGUINHO”.

Outra característica muito forte de suas pinturas são os rostos. Parecem todos pesados, carregados. Como você pensa a figuração de rostos num mundo onde a gente vive na base das selfies?

Tu me perguntaste sobre rostos, e é complexo. Não gosto de pintar rostos em encomendas, isto porque acredito que qualquer detalhe diferente da imagem que a pessoa traz de referência pode criar um outro rosto, de uma pessoa diferente. Por isso, não aceito encomendas que os rostos estão a mostra. Os rostos que mais pinto são de pessoas que conheço, pessoas próximas a mim, e nem sempre se parecem com o real – o que também não é um problema para mim. 

E por fim, o que você acha que as pessoas deveriam ver na sua pintura? O que está em você que está nelas?

Atento-me muito à detalhes, luz e sombra – estou fascinada por isto! -, pequenos objetos retratados, cores, etc, um pouco perfeccionista eu diria. Até que não gostar da pintura, eu não paro. Acho que aí esta o meu eu na pintura, a vontade de colocar detalhes a mais carregados de sentimentos.

Quer conhecer mais o trabalho da Ana Julia? Acesse suas redes sociais aqui!

Related posts

Conheça Rezende, o homem por trás do consagrado Instituto Candelaio

O Corpo (2000) e Parabelo (1997): conheça os espetáculos do Grupo Corpo

Artista cria impressionantes esculturas no buraco de uma agulha