“Lajes Pintadas”, de Jakenia Nascimento: o luto é uma viagem sobre névoas

“Lajes Pintadas”, de Jakenia Nascimento: um passeio pelo luto em forma de poesia

O luto é uma espécie de névoa que se coloca em nossos olhos. É tal como uma lente que molda nossa visão e percepção a respeito do mundo. Chimamanda Ngozi Adichie, no livro Notas sobre o Luto, em que retrata o período de perda do pai, afirma que, durante o processo dolorido da perda de alguém, a gente “aprende quanto do luto tem a ver com palavras, com a derrota das palavras e com a busca das palavras.” 

Foto de Aline Aimée

Acredito que Chimamanda está apenas parcialmente certa: muitas vezes, o luto pode ser visto como as palavras sendo aquilo que são: pedras, rochas, matérias brutas de significado. E é exatamente isso que vamos encontrar no singelo e brutal livro de poemas de Jakenia Nascimento, Lajes pintadas. Podemos começar tal como a poeta, que, logo no início, já nos lança sua tarefa de escrever a perda:

 “lamentei a morte do poema
nasceu prematuro
mas não resistiu ao cansaço.”

Lajes pintadas, de Jakenia Nascimento, é um breve livro de poemas publicado pela Macabéa Edições, editora voltada exclusivamente para a publicação de obras escritas por mulheres. Poeta, psicóloga e gestalt-terapeuta, Jakenia nos apresenta sua obra de estreia na qual, logo de cara, nos coloca um desafio para a leitura. 

Explico: a poeta é nascida no Rio Grande do Norte e diz com orgulho que é uma nordestina morando no Rio de Janeiro. O curioso é que o livro, no entanto, reside nessa dualidade: ele vai se constituir justamente na interseção entre um lá e um cá. Se um leitor desavisado pega o livro de Jakenia e começa a ler, deixando de lado a apresentação, pode ficar com a impressão de que se trata de uma obra nostálgica de um passado perdido, de uma infância bela e livre em uma cidade pequena, cuja vida quase idílica permitiu um mundo apenas de lembranças boas e belas. Tudo isso é verdade sobre o livro, tudo isso está efetivamente lá, mas não só.

Ao pegarmos a obra pelo seu começo, vamos ver que Jakenia nos apresenta seus procedimentos estéticos, éticos e poéticos, assim como do caminho de como devemos ler os poemas das lajes que ela vai pintando diante de nossos olhos. 

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Primeiro de tudo, ela afirma que estamos diante de uma obra que nasce do exercício de “dar vazão aos instantes”. É interessante que ela não menciona uma vazão aos sentimentos, como é mais comum, nem aos instintos, como se a poesia revelasse um desejo profundo e escondido nosso. Ao contrário, ela usa a palavra “instantes”, demarcando que a poesia é um evento relativo exclusivamente ao tempo. Palavra, assim, para ela, é marca de tempo. 

Foto de Monnaliza Ribeiro

A seguir, ela nos mostra que os poemas abordam, ainda que não na íntegra, a temática de “morte e luto”. Ou melhor, lutos, como ela mesmo afirma:

“lutos diversos: a casa dos meus pais, a presença deles, a família grande, a tranquilidade das ruas, os amigos, a cultura, a culinária nordestina, o forró pé de serra”

Os títulos dos poemas, passado assim diante de nossos olhos, também nos contam a história não só da infância de Jakenia, mas também de qualquer infância, principalmente das crianças que moram no interior do país: “chocalho, pirulito caseiro, carrinho de rolemã, merthiolate”, entre outros. 

Outro ponto que merece destaque são as referências literárias que atravessam os poemas, tal como dois poemas em que A hora da estrela, de Clarice Lispector, o livro Pequena coreografia do adeus, de Aline Bei, que dá título a um poema “coreografia do adeus”, e, por fim, Água de barrela, livro de Eliana Alves da Cruz, que dá título a um dos poemas. 

Nele, podemos ver “as roupas estendidas [que] dançavam sua música”, na casa que “exalava um cheio diferente” e de repente é tomada por uma chuva que leva todos os corpos femininos a retirar a roupa do varal. 

Porém, dentro deste universo idílico da memória que dói, Jakenia também nos faz enfrentar não apenas a morte, mas a morte através da visão de um corpo morto, com no poema “carcaça”:

“quão duro é encarar o corpo sem vida
sem alma, sem ar, sem calor.
o corpo que antes aquecia-nos num abraço
torna-se frio
de pele caída, de músculos rígidos e olhos vazios.”

E faz sentido essa passagem proposta pela poeta, uma vez que a morte é ideia, conceito que habita nosso pensamento, enquanto o corpo morto é a materialização da morte, da dor e da perda, tal como a palavra diante do poema: o poema é uma ideia, a palavra é a sua matéria. 

Assim, mediante saudades “despenduradas” e as vidas que só enxergamos “sangrando”, Jakenia Nascimento vai tecendo um emaranhado entre dor e memória, saudade e contato, distância e calmaria, no que ela mesmo chama de “melancolia poética”:

“pessoas-vultos, ao fundo,
um brinquedo boiando,
as cores derretendo,
o céu apagando – noturno e frio,
e eu poente, 
me despedindo do calor, e
acolhendo minha melancolia poética
que raras vezes se põe”. 

Destaco, por fim, o magnífico trabalho de edição do livro, realizado pela também poeta Bianca Monteiro Garcia. É notável o exercício preciso de tessitura na construção da obra, no desenho de um movimento fluido, na costura dos poemas e, ainda mais raro, na sabedoria de compor um livro que não é nem curto, nem excessivamente extenso, mas que dê conta de valorizar a escrita da poeta. Este não é apenas uma mera coletânea, mas uma obra, com conceito, ideia, forma e justeza.

Jakenia Nascimento, poeta de uma sensibilidade ímpar, melancólica, saudosa em meio a uma urbanidade nada acolhedora, escreve, em Lajes pintadas – excelente nome para uma cidade, quem dirá para um livro – sobre um mundo pulsante, mas rasgado pela perda. Um passado que tive e também sofro. Vai ver, espero que seja, é apenas nossa memória pregando mais uma peça na gente.

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