À primeira vista, o que impressiona em “O Riso e a Faca” é sua longa duração: três horas e trinta e seis minutos. Num mundo cada vez mais imediatista e ávido por recompensas, o cinema tem se mostrado pasteurizado e redundante, com filmes curtos para essa rápida sensação de “não perdi meu tempo”. Como outros cineastas – a exemplo de Chantal Akerman e Paula Gaitán – Pedro Pinho com este filme nos convida a desacelerar e acompanhar a jornada de um europeu que vai para a África e acaba sendo colonizado.
Em um mundo em que fiscais de rodovia aceitam livros como propina para deixar um veículo passar, Sérgio (Sérgio Coragem) está nos quilômetros finais de uma road trip que começou em Portugal e termina em Guiné-Bissau. Ele está na África para vistoriar um projeto de construção de estrada que mexerá com reservas naturais e povos nativos. Sérgio trabalha numa ONG e será responsável por analisar os impactos ambientais da obra. Seu antecessor desapareceu, o que torna o choque de realidade ainda mais forte. E, por onde quer que vá, encontra Diára (Cleo Diára) e sua impressionante coleção de perucas.

Horácio, colega de Sérgio, reclama que os demais estão demasiado preocupados com a tradição e fecham os olhos e as portas para o progresso. Numa aldeia vizinha, a família de um operário da estrada, Bojan, lidera a oposição aos planos de expansão rodoviária. O próprio Bojan fala que a construção é questão de desenvolvimento e os que a ela se opõem querem manter as coisas como estão: são taxados de inimigos do desenvolvimento. Enfim, antagonismos que sempre surgem quando se trata de “progresso”, essa palavra tão difícil de definir e especialmente exemplificar.
Numa festa na casa de Horácio, os guineenses comentam sobre sua colonização. Relatam que com os europeus vieram os conflitos, pela imposição ou desenvolvimento natural de dinâmicas diversas com as tribos locais. Depois, eles tiveram que lutar muito por sua liberdade. É um papo-cabeça mais simples do que aquele em que Horácio mais tarde envolve Sérgio, sobre as desigualdades e quem pensa nele de novo: no progresso.

Para os nativos, Guilherme, brasileiro de pele parda, é branco, assim como o português Sérgio. O colega de trabalho Hermínio diz para Sérgio que os negros na Guiné são racistas uns com os outros. Isso me lembrou de uma polêmica recente: as tais “parditudes”. Elaborado sem embasamento acadêmico e criticado por parte do Movimento Negro, o conceito de “parditude” busca expandir o movimento antirracista, mas ao mesmo tempo coloca em risco direitos conquistados, tais como as ações afirmativas, sendo as mais famosas entre elas as cotas raciais nas universidades.
Guilherme diz que acreditava que afirmaria suas raízes africanas estando na África, mas na verdade ressignificou seu lugar de origem. Aqui, vale destacar a jornada curiosa do intérprete Jonathan Guilherme: ex-atleta de vôlei, ele trocou as quadras pelos palcos, sets e livros, pois hoje vive em Barcelona e é poeta. Este é seu primeiro filme e esperamos que não seja o último!

Se tem uma coisa que “O Riso e a Faca” tem de bom é a trilha sonora, que inclui a música que dá título ao filme. Título, aliás, que muda de país para país. Falado em português de Portugal, francês, e crioulo, o título internacional é “I only rest in the storm”, traduzido como “eu só descanso na tempestade”.
Guiné-Bissau, tão recentemente quanto outras ex-colônias portuguesas, conquistou sua independência em 1974 e pode não ter tradição em cinema, mas vem tirando o atraso. O país foi pano de fundo para o filme “Sans Soleil”, de 1983, dirigido por Chris Marker. Guiné-Bissau hoje faz seu próprio cinema, com destaque para o realizador Flora Gomes.
“O Riso e a Faca” já estreia chancelado por festivais e publicações. Eleito um dos dez melhores filmes de 2025 pela Cahiers du Cinéma, também saiu do Festival de Cannes, onde fez sua estreia na mostra Un Certain Regard, com o prêmio de Melhor Atriz para Cleo Diára, muito merecido, afinal, o filme é melhor quando ela está em cena. Mais recentemente, recebeu o prêmio de Melhor Contribuição Artística no Festival Internacional de Cinema de Cartagena.
E os prêmios estavam certos: se não é um filme que “passa voando” nem usa a lentidão como recurso narrativo como fizeram Akerman e Gaitán, ao menos o filme consegue manter a plateia engajada e curiosa durante toda a projeção, e com personagens como Diára e Guilherme plantam em nós, como eles plantaram em Sérgio, sementes de dúvidas para muitas coisas que pareciam certezas.
“O Riso e a Faca” estreia em 30 de abril nos cinemas. Confira o trailer:
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