
Guy Ritchie dirigiu os dois icônicos primeiros filmes de Sherlock Holmes com Robert Downey Jr. e Jude Law — lançados em 2009 e 2011, ambos enormes sucessos comerciais que ainda aguardam uma terceira parte, há muito prometida, mas ainda em suspenso — e quinze anos depois retorna ao mesmo território, desta vez para o Prime Video, com Young Sherlock, série de oito episódios estreada em março deste ano, e sucesso tão estrondoso que, menos de um mês após seu lançamento, teve uma segunda temporada confirmada.
O projeto tem uma premissa que é, simultaneamente, sua maior força e seu risco mais óbvio: acompanhar Sherlock Holmes aos dezenove anos, estudante em Oxford, antes de Baker Street, antes de Watson, antes da lenda ter calcificado ao redor dele — e, o que é mais arriscado ainda, apresentá-lo não ao lado de seu fiel companheiro de toda a vida, mas ao lado de James Moriarty, seu futuro arqui-inimigo, que a série transforma em seu primeiro amigo. É uma ideia suficientemente boa para sustentar oito episódios; e o que Young Sherlock faz com ela, na maior parte do tempo, é mais do que suficiente para justificar o investimento de atenção.
A série é baseada, ainda que livremente, na série de romances juvenis de Andrew Lane, que imaginava um Holmes adolescente de quatorze anos; a adaptação eleva a idade, transfere o ambiente para Oxford dos anos 1870 e acrescenta uma conspiração internacional que começa com um assassinato e termina em lugares consideravelmente mais complicados. O Sherlock de Hero Fiennes Tiffin — sobrinho de Ralph e de Joseph Fiennes, que aqui interpreta o pai distante de Sherlock, Silas Holmes — é um jovem indisciplinado, desacreditado e impulsivo que entra na história já tendo saído da cadeia e sendo resgatado pelo irmão mais velho Mycroft, interpretado por Max Irons com a energia específica de alguém que passou a vida inteira arrumando a bagunça de outra pessoa e está cansado disso.
O elenco de apoio

Irons, por sinal, está excelente como Mycroft, um papel que, quando bem-feito, é sempre um dos melkhores nas adaptações de Holmes. Embora a série caia no mesmo clichê adaptativo de sempre de fazer de Mycroft “o irmão normal” – um desperdício, na minha opinião, já que o Mycroft de Connan Doyle é um personagem fascinante, ainda mais genial e estranho do que o próprio Sherlock, que lhe pede ajuda quando acha um caso impossível demais para seus poderes dedutivos , essa versão do Holmes mais velho é carismática, engraçada, genuinamente bem-intencionada (ao contrário da interpretação do Mycroft vilão que algumas versões preferem), envolvida na trama e, para todos os efeitos, fácil de se gostar.
A dinâmica dos irmãos funciona muito bem, em parte porque Irons é um ator melhor do que os papéis que costuma receber lhe permitem demonstrar, em parte por que o roteiro escreve o relacionamento dos dois de maneira genuinamente divertida e cativante, em parte porque a série tem o bom senso de não fazer de Mycroft simplesmente um obstáculo — ele é um personagem com suas próprias lealdades e suas próprias contradições, e a história da família Holmes, desenvolvida ao longo dos episódios através da figura da mãe, Cordelia, interpretada por Natascha McElhone com uma delicadeza que contrasta eficazmente com o caos ao redor, é um dos fios narrativos mais interessantes da temporada.
Um Sherlock fraco, mas com potencial
Fiennes Tiffin, protagonista da série, é, reconhecidamente, o elo mais fraco da produção, embora não necessariamente por culpa exclusiva dele. Num elenco com atores como Irons, McElhone, Colin Firth, Joseph Fiennes e Donnal Finn (a revelação dessa produção, de quem falaremos em breve), o Fiennes mais jovem definitivamente não é o destaque. Sua atuação, embora não ruim, não é particularmente específica e não traz nada demais para o personagem em meio à outras interpretações que, por trabalharem com personagens mais coloridas, tem mais facilidade de brilharem
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Isso, entretanto, não é necessariamente uma falha de Fiennes Tiffin., e sim uma falha de roteiro; afinal – ironicamente – Sherlock é possivelmente o personagem menos interessante da temporada inteira. Isso, é claro, é um feito, dado que o detetive ficcional de Connan Doyle precisa ser listado entre os personagens mais específicos, impressionantes, fascinantes e divertidos da ficção.
Esse Sherlock, porém, sofre do que podemos chamar de “síndrome do protagonista” – quando protagonistas, sobretudo de franquias com muitos personagens secundários acabam se tornando os personagens mais genéricos de um elenco para aumentar seu apelo, evitar alienar setores da audiência e, sobretudo, servir de veículo para o público se inserir na história. O personagem principal *precisa* não saber de nada do que está acontecendo no mundo ao seu redor, pois isso dá oportunidades para o escritor explicar coisas para a audiência através de cenas em que coisas são explicadas para esse protagonista; o personagem principal *não pode* ter uma personalidade muito distinta, para não atrapalhar a imersão da audiência que precisa se identificar com ele. Etc, etc.
Disso resulta que, em muitas histórias, o protagonista se torna o personagem mais genérico e menos interessante num elenco de personagens secundários que tem permissão para terem suas próprias personalidades, defeitos, especificidades e estranhezas. Em “Young Sherlock” não é diferente: o jovem Sherlock é um adolescente relativamente comum, cercado por personagens muito mais específicos e, por isso, divertidos.
O principal problema dessa abordagem para esse personagem específico, porém, é que o Sherlock de Connan Doyle é um personagem tão icônico que muito esperamos dele. É complicado chamar um personagem de “Sherlock Holmes” e fazer dele uma pessoa relativamente comum – que sequer apresenta, pelo menos não por agora, grandes habilidades dedutivas ou genialidade fora do comum. Isso é, majoritariamente, um problema de roteiro, que pode – e deve – ser resolvido na temporada seguinte.
A prova de que o problema não reside inteiramente no ator está no que acontece a partir do terceiro episódio: à medida que a conspiração se aprofunda e as apostas pessoais de Sherlock se tornam mais claras — sobretudo quando a morte de sua irmã mais nova, ocorrida na infância, emerge como o eixo emocional de toda a temporada —, Fiennes Tiffin encontra uma textura que não estava disponível no material mais superficial do início. Isso mostra que, com um roteiro adequado que comece a dar ao público o Sherlock Holmes que conhecemos, Tiffin ainda pode surpreender no papel.
Moriarty, um protagonista improvável
Dónal Finn, como Moriarty, é definitivamente um dos maiores trunfos de Young Sherlock — e um trunfo que a série como um todo não parece ter antecipado completamente, no sentido de que Finn frequentemente torna as cenas melhores do que o roteiro as escreveu. Foi Finn, e não Tiffin, quem mais se destacou e recebeu a maior parte da aclamação após o lançamento dessa temporada – entre seu carismático Moriarty em “Young Sherlock” e seu também muito elogiado papel recente na comédia romântica de época “The Other Bennet Sister”, o ator irlandês está rapidamente se tornando um interprete de renome na televisão.

Seu Moriarty não é ainda o vilão de chapéu alto que a memória coletiva guarda, mas um jovem genuinamente inteligente, encantador e divertido de uma maneira que a série estabelece como levemente calculada sem jamais confirmar se esse cálculo é consciente — uma ambiguidade que Finn sustenta com precisão, dando ao espectador razão suficiente para gostar de Moriarty e razão suficiente para ficar ligeiramente desconfortável com esse gostar. Com certeza é, facilmente, um dos personagens favoritos da maioria dos fãs, e tem sido um dos elementos mais elogiados da produção como um todo.
A escolha de transformar a amizade Holmes-Moriarty no coração da temporada era arriscada, porque exigia que os dois fossem a um só tempo suficientemente parecidos para que a aliança fizesse sentido e suficientemente distintos para que a ruptura futura fosse legível, e a série navega esse equilíbrio com mais habilidade do que o usual para uma produção desse porte. A construção do personagem de Finn é excelente. A relação entre os dois tem a qualidade específica das amizades que já carregam em si mesmas a sombra de seu fim — e é o que torna o último episódio, com suas inevitáveis primeiras fissuras, genuinamente doloroso em vez de apenas dramaticamente conveniente.

A construção dos primeiros elementos do Moriarty antagonista – sem dar spoilers, a partir de uma cena que acontece num dos episódios finais, durante uma situação delicada em uma Paris tomada por mais uma revolução – é excelente. Até que ponto a série o levará na próxima temporada é uma das coisas que mais me interessam ver.
Zine Tseng, como a Princesa Shou’an — personagem original da série, sem correspondente canônico — é a terceira peça do trio central e a que a série leva mais tempo para utilizar bem; os primeiros episódios a tratam quase como um recurso de trama, uma personagem funcional cuja presença existe para mover a investigação adiante, antes de perceber, com algum atraso, que Tseng tem material para oferecer se a série se dispuser a pedi-lo. A partir do sexto episódio, quando a história de Shou’an começa a ser desenvolvida com mais independência em relação às necessidades do plot, algo muda — e essa é, talvez, a indicação mais clara do que a segunda temporada deveria fazer de diferente.
Um enredo sherlockiano
A narrativa, em si, é exagerada, e entretanto absolutamente ninguém pode acusar a série de ser menos séria como adaptação de Holmes por isso – já que as histórias originais de Connan Doyle são cheias de reviravoltas e exageros do mesmíssimo calibre. A narrativa tem todos os elementos de um conto clássico de Sherlock Holmes: estrangeiros misteriosos, questões coloniais, objetos desaparecidos, pistas falsas, assombrações que não são de fato assombrações, dramas de família e muito mais. Para quem assiste e acha que isso é uma modernização do original, estejam avisados: as histórias narradas pelo Dr. Watson no século XIX eram exatamente assim.

A impressão digital de Ritchie, que dirige os dois primeiros episódios e assina como produtor executivo do restante, está presente ao longo de toda a série de maneiras que são, na maioria das vezes, bem-vindas: a câmera que acelera e desacelera dentro de uma mesma sequência de ação, os ambientes que têm sempre mais vida periférica do que o olho consegue acompanhar, a preferência por cenas que se resolvem em movimento em vez de em diálogo, as escolhas de música, o cenário vitoriano, os figurinos — tudo isso empresta à série uma energia que o drama de época televisivo frequentemente recusa por excesso de reverência ao material, e que aqui funciona como uma declaração de intenções: Young Sherlock não está interessado em ser a enésima adaptação solene do cânone holmesiano.
Mas afinal: essa é ou não uma prequela dos filmes de Guy Ritchie?
A posição da série em relação aos filmes de Ritchie é ambígua: em muitos aspectos, ela faz referência deliberada à eles: o Sherlock de Downey Jr. é um exímio lutador de boxe, e o da série começa a aprender, ao longo da produção, a lutar; os filmes famosamente utilizaram a canção irlandesa “Rocky Road to Dublin” em sua primeira cena de luta, e a série abre com uma cena de luta ao som de “Rocky Road to Dublin”; o Sherlock dos filmes está constantemente sendo preso, e esse Sherlock também; os filmes utilizam um tipo de “projeção astral” estilizada em cenas de luta e investigação, e a série se apoia frequentemente em um recurso similar. As muitas referências aos filmes de Downey Jr., sobretudo já na primeira cena, parecem posicionar o seriado firmemente como uma prequela oficial.

Entretanto, escolhas de elenco e outros detalhes estéticos parecem distanciar um pouco uma coisa da outra, já que não houve preocupação alguma em construir um elenco que se pareça com o original – de fato, o Moriarty de Dónal Finn fala com um forte sotaque irlandês, enquanto o vilão dos filmes tem um sotaque inglês indiscutível. As próximas temporadas devem deixar mais claro qual a posição oficial da série em relação ao cânone dos filmes – e se devemos considerá-la um prelúdio de fato, ou um tipo de universo alternativo do Sherlock de Ritchie.
Nem tudo é perfeito
As limitações da série são nomeáveis sem que precisem definir o julgamento final. Como já mencionado, o personagem de Sherlock precisa de algum polimento, e é necessário que comecemos a ver traços do detetive brilhante de Connan Doyle no até agora relativamente comum, embora esperto, adolescente interpretado por Tiffin. Colin Firth, como Sir Bucephalus Hodge, aparece com uma frequência que nunca corresponde ao peso que a série parece querer dar ao personagem, uma subutilização que se torna mais flagrante à medida que os episódios avançam. Há também, sobretudo na primeira metade da temporada, uma tendência a explicar demais as deduções de Sherlock em vez de confiar que o espectador acompanhará o raciocínio — uma escolha de roteiro que diminui a inteligência do personagem ao tentar demonstrá-la, e que a série felizmente abandona à medida que ganha confiança.
Um Sherlock que vai longe
O que permanece, depois de oito episódios, é uma série que sabe o que quer ser e tem, na maior parte do tempo, os meios de sê-lo — não uma reinterpretação que pretende substituir ou comentar as adaptações anteriores, mas uma história sobre dois jovens extraordinariamente inteligentes que estão prestes a se tornar inimigos e que, por ora, ainda não sabem disso; a tragédia está no horizonte, e a série tem o suficiente para que valha a pena estar lá quando ela chegar.


