Rogério Sganzerla foi um dos grandes diretores do Cinema Novo, e em 1968 ele escreveu “O Cinema Fora da Lei” um manifesto onde defende a fusão de gêneros em seu filme e argumenta que a produção cinematográfica não deve ser vista como algo único e estético, pois a vivência do autor influencia diretamente a criação do filme. Mas uma das coisas que ele exalta em seu manifesto e me chama muita atenção, é amar o plano fixo acima de todos os travellings, algo que ele aprendeu com Friedrich Wilhelm Murnau, responsável por obras como Nosferatu (1922) e Aurora (1927).
Poucos anos depois, a diretora belga Chantal Akerman apresenta para o mundo seu primeiro longa-metragem Eu, Tu, Ele, Ela (1974), que utiliza o mesmo princípio do plano fixo de Sganzerla e Murnau. O filme segue uma jovem que, após uma decepção amorosa, passa por um autoisolamento. Ela decide sair de casa, embarcando em uma jornada que inclui encontros íntimos com um caminhoneiro e uma ex-namorada.

Leia também: “Copan” (2025): documentário versa sobre democracia e polarização
A obra de Akerman não é fácil de ser digerida em tempos de dopamina a cada rolagem de tela. Seu roteiro não possui muitas falas ou cenas dinâmicas; boa parte da obra fica num plano fixo, num quarto com longos silêncios, acompanhando o isolamento de Julie (Chantal Akerman). Durante o período de isolamento, as cenas seguem uma poética ao narrar as ações de Julie, que também performa a repetição das ações. Assistir a essa sequência de ações me trouxe uma sensação de paz, não que tenha sido fácil, mas me ajustar para ver o que o filme propõe, dentro de uma ansiedade em saber o que virá, me deu essa sensação de recompensa prolongada.
Eu, Tu, Ele, Ela é considerado um dos filmes mais eróticos de Akerman, mas o erotismo aqui é fruto de uma dinâmica cotidiana, e de uma busca talvez pelo self de Julie, em que o reconhecimento de si e do seu corpo, desinvestida do externo, a libido retorna ao ego, e o corpo de Julie deixa de ser um veículo para o outro para se tornar um território a ser mapeado por ela mesma. O plano fixo aqui é crucial: ao imobilizar a câmera, ele imobiliza o olhar do espectador, que é forçado a perceber os mínimos gestos e a textura do corpo no espaço. Psicologicamente, o erotismo surge não da nudez, mas da consciência do próprio corpo. E por fim, talvez culminando numa completude, após a longa imersão solitária, o encontro com o caminhoneiro e a ex-namorada não representa uma ruptura, mas uma extensão do self redescoberto. A dinâmica narrativa em três tempos (isolamento → experimentação corporal → encontro) parece um ciclo de integração da personalidade. Aqui o erotismo se consuma quando o sujeito, tendo resgatado a posse de seu próprio corpo, pode encontrar o outro sem se dissolver nele.

Eu, Tu, Ele, Ela não é um filme para ser “vencido” ou digerido às pressas, mas para ser experimentado como um estado de espírito. A densidade que Chantal Akerman impõe não é um defeito narrativo, mas a própria substância de sua poética. Ao recusar o dinamismo, ela nos obriga a preencher o vazio com nossa própria subjetividade. A sensação de paz durante o isolamento de Julie é, na verdade, o filme nos ensinando a arte de esperar. Se Sganzerla defendia o plano fixo como amor cinematográfico, Akerman prova que esse amor é também um ato de coragem, tanto para a personagem, que reassume a posse do próprio corpo, quanto para nós, que precisamos reassumir a posse do nosso próprio tempo. Uma obra surpreendente, sim, mas, acima de tudo, necessária.

