Em tempos em que as salas de cinema lutam para justificar sua relevância financeira e cultural, a frase “esse filme é para ser visto no cinema”, apesar de, superficialmente, parecer bem-vinda, foi sequestrada por um novo fetiche: o da escala. Basta ver uma das discussões em torno de A Odisséia, novo filme de Christopher Nolan, em que somente 40 cinemas do mundo podem exibir o filme da “maneira correta”, fazendo pleno uso do Imax 70 mm, e em que outros formatos seriam uma experiência “reduzida” e, portanto, menos proveitosa.
É preciso dizer que isso não condiz com a realidade. É evidente que a experiência entre formatos varia, mas ninguém estará vendo “menos” de A Odisseia por assisti-lo em uma sala convencional. Ainda assim, é sintomático que o público esteja tão preocupado com essa possibilidade. A sala de cinema virou sinônimo de grandeza, e nada menos que o épico parece justificar o esforço do espectador em sair de casa e comprar um ingresso.

Abro falando dessa questão pois, assistindo a cabine online Aquele Que Viu o Abismo, obra que ocupa o extremo oposto da produção de Nolan em escala, dimensão e método de produção, me vi pensando diversas vezes o quanto gostaria de assistir ao longa de Gregorio Gananian e Negro Leo na tela grande, para que o assalto aos sentidos proposto pela obra tivesse a sua força total.
“Assalto aos sentidos” pode não ser a forma mais atraente de descrever um filme, mas certamente é o mais preciso neste caso. Aquele Que Viu o Abismo preza pela instabilidade e mutação de sua forma. Acompanhamos o protagonista, X (Negro Léo), em uma jornada com teores de noir, com uma conspiração global repleta de assassinatos e, no meio dela, a misteriosa empresa ProLife, que promete a vida eterna aos seus usuários.
A trama em si, contudo, pouco importa dentro do fluxo de consciência proposto pelo filme, que lança mão de uma série de recursos para implodir qualquer noção de narrativa linear e instaurar um transe audiovisual contínuo. O longa é marcado por dois momentos, um onde vemos X em suas andanças pela China, e outro onde um galpão escuro é palco de jogos de luzes e projeções que ilustram os monólogos paranóicos de X.

Ambos trabalham o aspecto multimidiático de Aquele Que Viu o Abismo, onde filmagens “tradicionais” andam ao lado de colagens fotográficas, intervenções gráficas, projeções, manipulações digitais e uma trilha sonora que frequentemente se recusa a funcionar como mero acompanhamento das imagens. Tudo parece disputar a atenção do espectador ao mesmo tempo, compondo um bombardeio sensorial que encontra mais afinidade com uma instalação artística ou uma performance audiovisual do que com o cinema narrativo convencional.
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Mais do que um exercício de experimentação, Aquele Que Viu o Abismo reafirma uma dimensão do cinema que frequentemente fica de lado em discussões sobre tecnologia e espetáculo: sua capacidade de produzir experiências coletivas através dos sentidos. Não é um filme que pede uma tela grande por ser maior do que a vida — embora, à sua maneira, também o seja —, mas por fazer do excesso de imagens, sons e texturas sua principal matéria-prima.

