Meu primeiro contato com Franz Kafka se deu pela via do cinema. Estava em uma missão de ver o máximo possível da obra de meu diretor favorito, Orson Welles, e chegou às minhas mãos uma cópia de “O Processo”, dirigido por Welles e estrelado por outro favorito, o subestimado Anthony Perkins, em 1962. De Kafka, sabia que existia uma história sobre um homem chamado Gregor Samsa que certo dia acordou no corpo de um inseto asqueroso. Conhecer as obras é uma maneira de desvendar um escritor, mas o cinema também pode ajudar nessa aventura de interpretação humana. As cinebiografias existem para destrinchar vidas ilustres, mas algumas se destacam por não seguirem fórmulas engessadas.
A infância do menino de cabelo tigelinha se confunde com a juventude do rapaz orelhudo. O jovem Franz (Idan Weiss) se sente na corda-bamba, dividido entre sua vocação e o negócio da família. Ele, que vê poesia no teatro em iídiche, língua que não compreende, e graça na sinfonia inesperada que surge com uma goteira – como ele poderia se curvar à mediocridade de um trabalho estável?

Franz é o cara que questiona a natureza da fé junto a um amigo em quartos contíguos de um bordel. Que só escrevia com caneta, de uma a três cartas por dia – totalizando na vida mais de 11 mil missivas. Um homem que gerou interesse: hoje, para cada palavra escrita POR Kafka, existem 10 milhões de palavras escritas SOBRE Kafka!
Assim como muitos escritores famosos, Franz teve também uma musa, Felice (Carol Schuler). Com ela, ele “conseguiu transformar suas dúvidas em palavras”. O pai de Franz a desaprova por ser pobre da mesma forma que desaprova os “rabiscos” do filho: um homem completamente desprovido da razão, em suma.
E então veio a guerra – a Primeira Guerra Mundial, no caso. Por ter falhado “como filho, como homem, como escritor”, decidiu que teria sucesso como vítima do então maior conflito armado da História. Para sua tristeza, Kafka é dispensado do exército por ser um trabalhador essencial na seguradora da família, mas a guerra ainda o afeta através dos racionamentos de alimentos. E a constante: a brutalidade do pai.

Numa sequência, Franz e Grete Bloch (Gesa Schermuly) vão ao cinema assistir a um curta do comediante francês Max Linder, provavelmente o primeiro superastro internacional da Sétima Arte. Sabemos que Kafka perambulou pelos cinemas, como informa um livro e um box de DVDs interessantíssimos, que infelizmente só saíram na gringa.
A diretora, produtora e roteirista polonesa Agnieszka Holland capitaneia a produção conjunta de República Tcheca – país natal de Franz -, Alemanha, Polônia e França. Ela afirmou que a película tenta encontrar e retratar a essência de Kafka, que em muito parece digladiar com as mesmas coisas que causam exasperação às pessoas de hoje, como a luta entre ser o que é ou se conformar com o que esperam de você. Alguns diriam que o comportamento de Kafka é de um neurodivergente, mas a diretora contesta: é um comportamento universal.
Passado e presente se confundem na narrativa não apenas pela alternância entre Kafka criança e adulto. Há uma profusão de narradores oniscientes. Cenas salpicadas gravadas no Museu Kafka ou em outros lugares importantes para o escritor informam e concatenam a narrativa, que de maneira alguma se aproxima das cinebiografias quadradas, com começo, meio e fim. Não se sabe se Franz foi mesmo um entusiasta das novas tecnologias, como o fonógrafo. Isso é o que menos importa. O que importa é que depois de assistir a este filme, podemos nos referir a Kafka como se chamássemos por um velho amigo, o que de fato ele se tornou para nós: simplesmente Franz.
“Franz” chega aos cinemas em 02 de julho. Confira o trailer:
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