O cinema é a arte que mais dialoga com a realidade, ou até mesmo o chamado “espírito dos tempos”. O espírito do tempo presente nos alerta para um processo de negação da memória histórica recente, e o cinema contra-ataca. Haja vista a recente onda conservadora que clama pela volta da ditadura: a ela o cinema reagiu e ainda reage com narrativas tanto reais quanto fictícias sobre os horrores daquela época que não podem voltar de maneira alguma. Misturando justamente realidade e ficção, na fronteira entre documentário e docudrama, “Honestino” chega aos cinemas para se juntar ao coro: “ditadura nunca mais”.
Honestino era filho do Seu Monteiro, dono de cartório, restaurante e cinema em Itaberaí, Goiás. Em sua família, Honestino era chamado pelo apelido Gui. Quando a mãe virou diretora de escola após passar num concurso, lá se foi a família para Brasília.
A história da Universidade de Brasília é contada brevemente como um sopro de esperança logo antes do golpe militar. Fundada após Darcy Ribeiro fazer lobby no Congresso, ela foi um trunfo do breve governo Jango. Célebres mestres foram chamados para lecionar, e o modelo americano foi adotado: a convivência entre professores e alunos não se limitava à sala de aula. Honestino entrou na UnB em 1965, em primeiro lugar na lista de aprovação.

Arregimentado pelo movimento estudantil Ação Popular, de origem católica, Honestino se mostrou um líder nato, liderança esta que só cresceu após sua primeira prisão, já em 1966.
Outro fato histórico mencionado é o acordo MEC-USAID para privatização das universidades. Não era só questão de cobrar mensalidade: era também privatizar as mentes, dominar a educação porque quem manipula quem está sendo educado hoje comanda como o futuro será.
Já perseguido, Honestino sequer compareceu a seu próprio casamento: seu pai teve de representá-lo na cerimônia. Militares invadem a UnB principalmente em busca de Honestino para efetuar sua quarta prisão. E tudo isso acontece antes do AI-5. Começa uma vida na clandestinidade – para Honestino e para os seus.
Documentar também é criar provas, nos lembra um estudante, Hermano Penna. Eles evitavam filmar e fotografar as assembleias e passeatas para não produzir evidências que poderiam ser usadas pelos militares para aprisionar manifestantes. Para contornar essa dificuldade, o filme escala Bruno Gagliasso para viver Honestino em breves reconstruções de cena de embate e resistência, além de emprestar a voz aos escritos do nosso objeto de interesse.

Não há nada no filme que não tenhamos já ouvido falar sobre a ditadura civil-militar. Há repressão, perseguição, invasão. Propriedade privada o escambau! E sobre proteger a família, hein? Sobre isso, militares ameaçam pegar e torturar a filha bebê de Honestino para que o pai se entregue. São relatos duros, que infelizmente precisam continuar vindo à tona como um tapa na cara para confirmar que isso jamais pode se repetir.
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Este é um filme quase familiar. Os roteiristas são Aurélio Michiles, também diretor, e André Finotti, também editor do filme. A direção de fotografia fica a cargo de André Lorenz Michiles e os figurinos, de Isabel Lorenz Michiles. Nosso diretor / roteirista tem conhecimento de causa: foi militante estudantil e inclusive aparece dando seu depoimento, sobre o dia em que acompanhou Honestino até a parte de fora do Congresso, onde os militantes estavam escondidos dos militares.
Lutar contra o fascismo exige estratégia como um jogo de xadrez. Honestino nunca saía sem seu joguinho de xadrez dobrável. A esperança de uma vida melhor não passa de utopia se não há organização. E é essa organização, principalmente da UNE da qual Honestino era presidente no momento de sua captura, que o fascismo quer fazer ruir. A memória é também arma política, como diz a atual presidenta da UNE, e serve como inspiração, para que estejamos sempre atentos e fortes.
“Honestino” chega aos cinemas em 13 de agosto. Confira o trailer:
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