Foi bastante noticiada e comentada nos últimos dias a mudança no mapa-múndi que promete reparar um erro intencional: a nova projeção vai representar a África finalmente proporcional ao seu tamanho real. Porque África não é um só país, nem um continente homogêneo. É um continente diverso e rico, como são diversos e ricos os cinemas dos países africanos.
Para reparar um erro histórico e colorir o mapa do seu Letterboxd, existe a Mostra de Cinemas Africanos, que tem em 2026 sessões no Rio de Janeiro e em Salvador. Confira a seguir três filmes imperdíveis na programação:
Cartum: dando voz aos refugiados

No Sudão, as crises parecem se suceder. Após uma ditadura de 30 anos, um governo civil cai com um golpe militar. Cineastas acompanham as vidas de cinco pessoas nesses tempos turbulentos. Uma guerra civil leva ao deslocamento de dez milhões de pessoas, entre eles todos os objetos do nosso filme e até mesmo os cineastas.
Descobrimos que o Sudão é um país em crise de identidade: o povo não sabe se é africano ou árabe, e acaba não sendo nenhum dos dois. A guerra começou como começam tantas outras: por uma disputa de poder.
Em frente a um chroma-key, os cinco sujeitos reencenam momentos da vida pregressa, como quando ficaram sabendo da guerra ou quando perceberam que precisavam procurar outro lar. É duvidosa a validade de reviver momentos dolorosos para as câmeras, sendo que as únicas recompensas são a catarse e um abraço – seria suficiente? Veja e opine.
Diya: a injustiça de seguir uma tradição

“Olho por olho, dente por dente”. Quem nunca ouviu, sem talvez saber o nome, esse resumo da milenar, babilônica Lei de Talião? No Chade ela ainda é válida, sob o nome Diya.
Dane (Ferdinand Mbaïssané) é um motorista de uma ONG que, um dia, enquanto tentava atender a uma chamada da chefe no celular, atropela um garoto, que não resiste aos ferimentos. Dane é preso por homicídio, mas o inspetor propõe um acordo: Dane terá de pagar cinco milhões de francos à família do garoto, contando com duas semanas para angariar o dinheiro. Isso é pagar a Diya.
Na comunidade, muitos se recusam a ajudar porque dizem que Dane não estava lá quando precisaram dele, em momentos de luto. Dane é dispensado do emprego. A tentativa de venda de um terreno se mostra infrutífera. Tempos de desespero pedem medidas desesperadas.
Além da contagem regressiva para pagar a Diya, há outra contagem regressiva na vida de Dane: sua esposa Delphine está grávida e a cada dia aproxima-se do nascimento. A mais pragmática em toda a situação, Delphine é onde reside a redenção.
Memória da Princesa Mumbi: usar a IA para criticar a IA

Este filme nos transporta para o fim do século XXI, quando uma Grande Guerra foi vencida pelos conservadores, que proibiram as tecnologias e assim deram início a uma era retrofuturista. Foi uma guerra que começou por conta de uma depressão social, mas acabou com mais gente deprimida – um resumo bom para todas as guerras.
Nesse contexto nasce Mumbi (Shandra Apondi), que insiste em seguir carreira como atriz apesar de estar prometida para um príncipe. Em 2093, nosso narrador, Kuve (Ibrahim Joseph), conhece Mumbi quando propõe a ela participar de um documentário, mas algo distinto acaba saindo desta empreitada. Porém o momento do casamento real se aproxima, minando a possibilidade de um relacionamento com Kuve. Mas um reencontro inusitado os espera no futuro. Este filme é uma meditação sobre o cinema, como quando Mumbi fala para os realizadores que, se eles ficarem focando no que o mercado quer ver, farão apenas filmes sem originalidade. Ademais, imagina um contexto em que inteligência artificial é a norma, não a exceção, apesar de Mumbi a abominar. No fim das contas, a IA pode democratizar o fazer cinematográfico, mas envolve debates éticos, ambientais e filosóficos que vão muito além deste filme.
A Mostra de Cinemas Africanos segue em Salvador até 23 de setembro.

