Existem diversas maneiras de dar à luz um livro. Pode vir de uma inspiração momentânea, de um projeto calculado por anos ou, como é o caso de Amor com Febre (2025), de uma vida toda registrada em textos das mais variadas formas. Publicado de maneira independente, a obra bilíngue reúne poemas e minicontos escritos entre 2009 e 2023, todos atravessados por uma investigação profunda e incessante de um “eu”.

Nascida da mistura e da indisposição a definições rígidas, pode-se dizer que Amor com Febre se trata de uma coletânea ou, se observarmos com mais atenção, de uma antologia em que o fio condutor está no mergulho da subjetividade através do fazer literário.
Mas o respeito pelo arquivo não é só textual. O livro se divide essencialmente em duas metades: uma seção de textos em português, seguida por outra majoritariamente em inglês. Tratando-se de literatura, a escolha não seria impensada: Carvalho conta, no prefácio da obra, que se traduzisse os textos para o português, parte de si seria perdida. Há, portanto, no ato de antologizar a própria vida escrita, um respeito pelo arquivo, ou seja: pela prática de si (Artières).
A antologia é, por excelência, uma peneira. Ao escolher quais textos entram e quais são descartados, a autora atua como sua própria arqueóloga e crítica. Em um arquivo afetivo, a escritora, tradutora e professora Samantha Carvalho, faz uma curadoria de si mesma, mergulhando no momento da escrita ao passo que volta à superfície, à escolha de textos para o arquivo-livro.
E, sem pedir licença, o título já entrega a proposta: o amor tratado a partir de sua plasticidade, das suas mudanças de forma. A febre – um quadro que consome e altera o estado normal do corpo –, muitas vezes não passa sem deixar no mínimo uma prostração, e quando o amor é visto por essas lentes do instável, mas também do perene (arquivo) tem-se o projeto completo de Amor com Febre.
Nesta antologia, há menos uma progressão narrativa e mais um mosaico de sentimentos. Gosto de pensá-la, portanto, como um caleidoscópio – aquele instrumento com espelhos internos e pedaços de vidro coloridos que criam padrões visuais que, apesar de simétricos, sempre mudam conforme o movimento. Da mesma maneira, Samantha Carvalho destrincha temas caros ao fluxo do eu (amor, sexo, abandono) revisitando-os em novos padrões óticos a cada texto.
Em “Eternizado”, poema de abertura, a autora resume sua própria pulsão de escrever quando afirma:
combino letras a fim de te encontrar
A imagem condensa o projeto do livro inteiro: escrever como tentativa de alcançar o outro (seja ele um indivíduo, uma ideia, um sentimento ou um estado de espírito), alcançando a si mesma.
Há poemas de verso livre que investigam solidão, autoestima e o desencaixe, como em “Polvo”, no qual a autora se imagina retraindo todos os tentáculos para se proteger do mundo.
Só por agora
Tiraria de mim com todos os braços
Tudo aquilo que me toca
Há também nessa caudalosa mistura, formas breves que se aproximam de uma prosa poética ou minicontos. Neles, Samantha empreende um trabalho com a ficção para além do lirismo confessional. “Borgonha”, por exemplo, salta aos olhos do leitor por sua atmosfera detalhadamente construída, um retrato quase cinematográfico de um homem perdido em si mesmo.
[…] tinha sonhos em que se engolia pela boca, no desespero de extrair o que lhe mantinha entre outros. Sentia-se já, há tantos anos, passeante em outro plano
Trecho de “Borgonha”
A escrita de Carvalho versa por imagens sensoriais que funcionam como fio condutor entre textos escritos em momentos muito diferentes da vida da autora. Café, cigarro, coturnos, roupas pretas, uma certa estética melancólica de caderno e madrugada. É justamente essa distância temporal, reconhecida por ela no próprio prefácio, que dá ao livro seu principal interesse: acompanhar, poema a poema, o amadurecimento de uma voz que começou a escrever por urgência pessoal até se sentir pronta para assinar o próprio nome na capa.
A visão artística de Samantha também se projeta nas escolhas materiais para seu livro, que contempla ilustrações de Diego Gonçalves Bonadiman e projeto gráfico, diagramação e capa de Samara Nina. Em sua concretude, o livro apoia o texto, afirmando ou interpretando seus sentidos, o que convida o leitor a uma imersão inevitável.
Amor com Febre é uma obra que dialoga com uma tradição de poesia confessional, próxima ao diário, defendendo o próprio arquivo como material para escrita. Além disso, cumpre a promessa anunciada logo na abertura: um convite a encarar de frente aquilo que a própria autora, no prefácio, descreve como ter amado sempre com “a intensidade de uma febre doentia e colérica”.

Sobre a autora:
Samantha Carvalho é professora, tradutora, escritora e editora. Nascida em 1990, em Manaus/AM, é formada em Letras – Língua Inglesa e tem extensa carreira na docência. Autora de “Amor com Febre”, primeiro livro autoral, coleciona seus escritos em poesia, prosa e contos, e já participou de várias coletâneas e antologias. “Nem tudo que eu escrevo é sobre mim, mas pode ser que sim”.

