Steven Knight criou Peaky Blinders, o que lhe garante, ao mesmo tempo, uma reputação sólida e um peso considerável a carregar — toda nova série de drama de época britânico com inclinação criminosa será inevitavelmente comparada à saga da família Shelby, para o bem e para o mal. Mil Golpes convive com esse fardo com mais graciosidade do que uma comparação superficial permitiria entrever: as duas séries partilham um certo DNA estético, é verdade – uma Londres suja cenário dos dramas pessoais e profissionais de chefes do crime organizado, onde pessoas simples e ambiciosas sobem no mundo através da sua força de vontade e se misturam com figuras históricas reais – mas o universo que Knight constrói aqui é suficientemente distinto para que a comparação perca força após o primeiro episódio.
Ambientada nos anos 1880, a série acompanha Hezekiah Moscow e Alec Munroe, dois amigos jamaicanos que chegam a Londres sem recursos e sem perspectiva, sendo gradualmente absorvidos pelo submundo do boxe bare-knuckle da East End; em paralelo, e cada vez mais entrelaçada com essa história, desenvolve-se a de Mary Carr, a rainha das Forty Elephants, um grupo criminoso feminino especializado em furtos e golpes — personagem real, aliás, assim como vários outros que populam a série, numa mistura de registro histórico e invenção que Knight maneja com algum cuidado. A série acompanha a elevação do boxe com luvas à esporte aristocrático, os golpes e crimes das Forty Elephants, e trata de temas como racismo, pobreza e ambição.
Deixemos muito claro: Mil Golpes não é nenhuma Peaky Blinders. Em termos de qualidade estética, técnica ou narrativa, a obra-prima de Knight ganha de lavada. E, entretanto, isso não é um grande problema, pois Mil Golpes não está buscando ser Peaky Blinders – a série tem uma estética distinta, uma abordagem diferente à trilha sonora, e linhas narrativas e registros emocionais bem distantes de sua predecessora. Há menos violência e sexo, e talvez um pouco mais de absurdos; menos fantasmas e um pouco mais de humor.
Assim, se deixarmos de lado as comparações, Mil Golpes pode ser assistida e aproveitada por quem gostava de Peaky Blinders – e também por aqueles que não gostaram muito dos aspectos mais pesados da obra, mas que se interessaram por sua premissa geral – e oferecer excelentes atuações, visuais interessantes e linhas narrativas que, apesar de menos sérias, entretém e, ocasionalmente, dizem algo importante.
Como em todos os trabalhos recentes de Knight, o elenco é o ponto alto. Malachi Kirby, que muitos conhecerão de Small Axe, carrega Hezekiah com uma qualidade que poucos atores conseguem — a capacidade de fazer um personagem fundamentalmente bom parecer interessante; não um bem ingênuo ou aquele tipo de heroísmo televisivo sem textura, mas a bondade de alguém que entende perfeitamente o que o mundo à sua volta é capaz de fazer e escolhe, ainda assim, não converter esse conhecimento em cinismo.

É uma performance de contenção, que funciona em grande medida por contraste com o que a cerca: o East End de Knight é um lugar onde a decência é um luxo que poucos podem se dar ao trabalho de manter, e Hezekiah navega esse ambiente sem perder completamente o fio de si mesmo, o que é, de per si, uma forma de heroísmo mais sutil e mais honesta do que a maioria das séries de gênero costuma oferecer. Francis Lovehall, como Alec, tem menos espaço mas usa cada cena com uma precisão que merece mais atenção do que costuma receber nas discussões sobre o elenco da série.
Stephen Graham, brilhante como sempre, e hoje reconhecido – talvez um tanto tardiamente – como um dos grandes nomes de sua geração após sua performance premiadíssima em Adolescência (essa autora acha que seu trabalho já deveria ter muito mais destaque desde a melhor interpretação de Al Capone já feita, em Boardwalk Empire), é outro destaque. Graham interpreta Sugar Goodson com uma economia que desmente a grandiosidade do personagem — um homem que construiu um império de violência e que carrega essa construção no corpo, na mandíbula cerrada, no modo como ocupa o espaço de uma sala como se estivesse sempre prestes a precisar defendê-lo.

Há uma cena no quinto episódio em que Sugar senta sozinho depois de uma derrota e não faz absolutamente nada durante talvez quarenta segundos de tela — nenhum monólogo, nenhum gesto dramático, apenas Graham deixando o espectador ver o custo de tudo que o personagem é; é o tipo de cena que exige um ator capaz de sustentar silêncio sem preenchê-lo, e Graham o faz com uma naturalidade que torna difícil lembrar que é uma performance. O que ele consegue, e que é a marca de seus papéis, é fazer de Sugar alguém simultaneamente temível e profundamente compreensível — não simpático, necessariamente, mas humano de uma maneira que recusa a conveniência do vilão de uma nota só; por baixo da brutalidade há uma lógica, uma história, um conjunto de perdas que o transformaram no que é, e Graham carrega tudo isso sem precisar explicar nada.

Erin Doherty, porém, é onde Mil Golpes aposta mais alto — e, na maior parte do tempo, com razão. Doherty já havia demonstrado em The Crown, como a jovem Princesa Anne, no seu também muito premiado papel em Adolescência ao lado de Graham, e sobretudo em Chloe, onde carregou uma série psicológica inteira nas costas durante oito episódios, que tem uma variedade de registro incomum; Mary Carr exige tudo isso ao mesmo tempo, sendo uma personagem que habita a frieza calculista e o afeto genuíno dentro da mesma frase sem que nenhum dos dois pareça performático. A relação que se desenvolve entre Mary e Hezekiah é o coração da série — não um romance convencional, pelo menos não apenas isso, mas uma aliança entre duas pessoas que reconhecem uma na outra uma forma similar de determinação e uma familiaridade igualmente íntima com o que significa ser descartável para as estruturas de poder que os cercam; Knight tem o bom senso de deixar essa relação respirar em vez de forçar seu ritmo, e isso paga dividendos.
O East End que a série constrói é um personagem em si mesmo, o que, no drama de época britânico, é uma afirmação quase obrigatória — mas que aqui se sustenta com mais solidez do que o costume. A produção, dirigida em grande parte por Tinge Krishnan, não se contenta em construir um cenário histórico que funcione como pano de fundo decorativo; a sujeira do lugar, seus cheiros implícitos, a densidade de corpos em espaços que a câmera frequentemente comprime até a claustrofobia, tudo isso trabalha ativamente sobre os personagens e sobre o espectador.
A questão racial, em particular, é tratada com insistência: o racismo que Hezekiah e Alec enfrentam não é apenas o de vilões convenientes, mas o do cotidiano — das pequenas humilhações institucionalizadas, dos espaços que se fecham de maneiras tão naturalizadas que ninguém ao redor parece nem mesmo notar. A série não pretende oferecer soluções ou catarses a esse respeito, o que é a escolha certa; o que oferece é a textura, o desgaste, e a capacidade de seus protagonistas de continuarem em pé dentro dela.

Ainda no tema racial, faço um pequeno adendo, talvez supérfluo, mas que me foi particularmente bem-vindo: Mil Golpes tem como personagem secundária recorrente a socialite britânica Victoria Davis, uma pessoa real, afilhada da rainha Vitória, e negra. A Victoria real era filha de Sarah Davis, nascida Aina, uma princesa africana cuja tribo foi dizimada e que, ainda criança, foi capturada por um chefe tribal inimigo que a ofereceu como presente “de um chefe de estado para outro” para a rainha Vitória quando foi informado por um oficial britânico, o Capitão Forbes, que tinha se comovido com a história da menina, de que a rainha não ficaria feliz se a garota fosse morta.
Sarah foi adotada pela família Forbes, e a rainha tornou-se sua madrinha. Vitória continuou interessada na vida e família de Sarah, mantendo um relacionamento com ela até o fim da vida. A filha de Sarah foi um exemplo real de uma socialite negra, de sangue puramente africano – Sarah casou-se com um empresário de Lagos – que circulava entre os mais altos círculos, e mesmo entre a realeza. Essa é uma história interessantíssima e pouco conhecida – só a série Vitória, da PBS, tinha antes dedicado um episódio à chegada de Sarah à Inglaterra – e é sempre bom vê-la representada na televisão, sobretudo em uma série que aborda frequentemente a questão racial na Londres do século XIX.
As limitações de Mil Golpes são reais e vale nomeá-las sem exagerar seu peso. O roteiro tem uma tendência, sobretudo nos episódios centrais, de acumular tramas de maneira um pouco mecânica — há uma sensação ocasional de que certos desenvolvimentos existem para fazer acontecer o próximo acontecimento, em vez de emanar organicamente de quem os personagens são; a trama chinesa, envolvendo o estalajadeiro Lao, oscila entre ser uma adição genuinamente enriquecedora ao mosaico do East End e parecer uma subplot que a série não sabe muito bem onde colocar.

O ritmo da série também não é inteiramente estável — os últimos episódios de ambas as temporadas têm a sensação de estar resolvendo questões com um pouco mais de pressa do que o restante da série havia sugerido ser seu temperamento natural. Muitas coisas se acumulam, e momentos que deveriam ser grandes em termos emocionais com frequência recebem menos importância do que deveriam em função desse inchaço.
Nada disso, porém, compromete de maneira séria o que a série faz bem — e o que ela faz bem é suficiente para colocá-la nas listas de fãs de dramas de época. Mil Golpes é um acréscimo sólido à tradição das histórias sobre outsiders em cidades que os engoliriam de bom grado, sobre a construção de uma espécie de dignidade à força em ambientes que a recusam sistematicamente. Knight já trabalhou esse território antes, com variações, incluindo, de certa forma, em Peaky Blinders, mas raramente com um elenco que correspondesse ao que o material exige com tamanha consistência — e é esse conjunto que faz Mil Golpes, com suas imperfeições e tudo, valer seu tempo. A segunda temporada, estreada em janeiro de 2026, indica que o que foi construído na primeira tem fundação para durar; ainda não sabemos se haverá uma terceira, mas essa autora espera que sim.


