O livreiro palestino Mohammed Ramadan Saad, de 56 anos, morador da cidade de Beit Lahia, no norte da Faixa de Gaza, trabalha no ramo há 36 anos. Após inúmeras bibliotecas e livrarias serem destruídas pelos ataques israelenses, Saad resgatou os livros dos escombros de sua casa e outros locais atingidos, e montou uma banca ao ar livre na beira da estrada, em Deir al-Balah, na região central do território, para onde se descolocou durante a escalada do genocídio.

Deir al-Balah é uma das cidades mais antigas da Faixa de Gaza e fica localizada às margens do Mar Mediterrâneo. O nome, que em português significa Mosteiro das Tamareiras ou Mosteiro das Palmeiras de Tâmaras, faz referência às tamareiras da região e um antigo mosteiro cristão que existiu ali.

A tâmara é cultivada na Palestina desde a antiguidade, e se tornou um símbolo de resistência, pertencimento e vínculo com a terra.

Saad percorreu toda a Faixa de Gaza, comprando e vendendo obras literárias, até ter a própria biblioteca em casa. As obras que predominam na banca são de autores da Literatura Árabe e da Literatura Palestina, Estudos Islâmicos e Jurisprudência Islâmica.

Leitor nato e apaixonado por livros de bolso, afirmou que conservar as obras literárias é uma forma de manter viva a cultura palestina, mesmo diante da destruição. Ademais, desabafou sobre as terríveis condições em que se encontram os livros, por consequência direta das substâncias químicas e da poeira causada pelas explosões.

Uma livraria a céu aberto que desabrocha na terra das tamareiras é o simbolismo da flor que nasce sob os escombros. Ou como já filosofava o escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962), que definia a literatura como um fósforo aceso no campo no meio da noite, uma banca de livros na beira da estrada sob cerco militar e genocídio, é o simbolismo máximo de trazer um feixe de luz na escuridão.


