“Björk e Clarice Lispector? Estou enlouquecendo!” A reação entusiasmada de uma fã resume o fervor provocado por um rumor recente no Brasil: a artista islandesa estaria preparando uma composição inspirada em A Paixão Segundo G.H., um dos romances mais emblemáticos e densos de Clarice Lispector.
Por ora, a novidade remete ao ritmo incerto de sua clássica “It’s Oh So Quiet”: ainda não há título, data de lançamento ou confirmação oficial. O boato ganhou força após ser publicado na coluna de Ancelmo Gois, no jornal O Globo, apoiando-se no conhecido fascínio de Björk pela escritora brasileira, a quem já declarou pública admiração: “Li todos os livros dela e acho que é a melhor escritora do século XX”.
Nas redes sociais, o público reagiu com fascínio: “Não quero parecer dramática, mas esta é a coisa mais importante que já me aconteceu” e “Meus dois artistas favoritos reunidos, uma das melhores notícias da minha vida”. Entre tiradas mais literárias, outro seguidor pontuou com perspicácia: “Preparem suas baratas, pessoal: este encontro já estava mais do que atrasado”.
É provável que, desde as referências dos Beatles ou do carismático companheiro de WALL-E, nenhum outro inseto da espécie tenha mobilizado tanta comoção na cultura pop.
A especulação surge em meio a um período movimentado na agenda da cantora. Em 12 de agosto, Björk foi o destaque do Echolalia — evento que reuniu cerca de 7.000 pessoas na Islândia durante o eclipse solar total. Em seu setlist, apresentou “Berghain”, parceria com Rosalía presente no álbum Lux.
Além disso, a artista lançou recentemente a faixa “Nerve Bloom”, prévia de seu próximo disco de estúdio, previsto para 2027 e ainda sem título divulgado.
Com uma trajetória que vai do apelo visceral de “Human Behaviour” à imagem desconcertante de uma mulher que consome uma barata, Björk se consolida há mais de três décadas como uma das vozes mais inventivas da música. Sua obra transita com maestria entre a vanguarda, o apelo popular e a erudição da música contemporânea — vertente já evidenciada nos primórdios de sua carreira solo com Gling-Gló, um memorável álbum de padrões de jazz islandês.
Se em seu primeiro grande sucesso solo a cantora observava a humanidade sob a ótica animal, trinta anos depois a inspiração parece emergir de uma narrativa onde uma mulher e um inseto se encaram em um duelo contemplativo por horas a fio.

A Paixão Segundo G.H.: O Kafka carioca
A premissa de A Paixão Segundo G.H. é aparentemente simples, porém monumental em seu alcance psicológico. Na trama, uma mulher identificada apenas por suas iniciais percorre o interior de sua cobertura no Rio de Janeiro até alcançar o quarto recém-vagado por Janair, sua ex-governanta.
Naquele trajeto cotidiano do quarto para a sala de estar, revela-se todavia um abismo de reflexão existencial.
Janair contrapõe-se à figura da protagonista — uma escultora da alta sociedade carioca da qual pouco sabemos. A empregada, mulher negra e silenciosa, deixa uma marca expressiva antes de partir: um desenho feito a carvão na parede, num gesto que inverte os papéis e projeta a outra mulher à condição de artista.
A atmosfera evoca o cinema de Lucrecia Martel — cineasta responsável pela direção de Cornucopia, espetáculo de Björk estreado em Nova York no ano de 2019 —, em que os maiores dramas ocorrem nas profundezas do espaço interior. É quando, abruptamente, G.H. abre o armário e se depara com uma barata.
Como uma personagem de Lucrecia Martel — que dirigiu Cornucopia, o espetáculo de Björk que estreou em Nova York em 2019 — a procissão está acontecendo lá dentro, a procissão está acontecendo lá dentro. De repente, G. H. abre um armário e vê uma barata.
O confronto visual entre as duas se prolonga de maneira hipnótica. Em um gesto instintivo, a protagonista esmaga o inseto contra a porta:
“A barata, depois de perder sua casca, expele a secreção branca que aparece como sua última essência.”
Em seguida, em ato de revelação e ruptura, leva essa substância à boca.
Então ela coloca essa matéria na boca.
A cena traz o choque estético do cinema de John Waters, revestido, contudo, por uma gravidade existencialista — sem espaço para ironias ou concessões cômicas.
O cerne do romance pode ser sintetizado em um dos questionamentos mais contundentes formulados pela narradora: “Se eu olhar para a escuridão com uma lupa, verei algo além de escuridão? A lupa não elimina a escuridão, apenas a revela com mais clareza.”
Fonte: Clarin

