
“O homem com quem estamos prestes a nos encontrar é o ministro do Ducado de Lancaster. Ele também é o suplente do Chanceler de Exchequer e conselheiro do gabinete do Primeiro Ministro da Grã-Bretanha. Vocês já conheceram homens maus antes. O homem que estamos prestes a ver é Satã.”
É assim que Tommy Shelby apresenta a personagem que virá a ser o vilão das duas temporadas finais de Peaky Blinders para seus irmãos. A icônica série britânica tem uma tradição de vilões ilustres: na primeira e na segunda temporada, o antagonista principal foi o corrupto e pervertido inspetor Chester Campbell, torturador e estuprador interpretado pelo sempre fantástico Sam Neil; na terceira, o padre John Hughes, um pedófilo sádico ligado à organizações criminosas, vivido pelo também sempre excelente Paddy Considine; a quarta temporada teve um declínio momentâneo, quando o vencedor do Oscar Adrian Brody deu vida ao caricaturesco mafioso italiano Lucca Changretta num dos papéis mais monótonos e exageradamente atuados da produção; entretanto, se recuperou brilhantemente com o vilão da quinta e sexta temporadas, Oswald Mosley – uma figura histórica real, conhecida na Inglaterra como o “quase Hitler” britânico – interpretado magnificamente no seriado por Sam Claflin em uma das melhores interpretações de sua carreira.

Mosley foi, por todo e qualquer parâmetro, o melhor vilão da série; carismático, efetivo, ameaçador, verdadeiramente desprezível como ser humano e perigosíssimo como antagonista, e o roteiro reconhece isso: no fim da quinta temporada, o frio Tommy Shelby se pergunta, aterrorizado, se ele finalmente encontrou, em Mosley, o homem que ele é incapaz de vencer. Isso, de fato, parece se concretizar, já que Mosley causa imenso estrago na vida de Tommy sem jamais sofrer consequências por isso. Ele é, efetivamente, o único vilão que nunca vemos os Peaky Blinders derrotarem.
Não surpreende, portanto, que nas últimas duas temporadas da série, o personagem interpretado por Sam Claflin tenha sido o elemento mais perturbador e fascinante de toda a produção: um homem de charme desconcertante, discurso afiado e convicções genuinamente perigosas, apresentado não como um lunático de margens mas como alguém que pertencia ao centro da vida política britânica, que era recebido em salões respeitáveis e que, durante alguns anos cruciais da história do século XX, esteve perigosamente perto de mudar o curso dessa história. Ao contrário dos outros vilões, um homem real. A série, fiel ao personagem real em seus pontos essenciais, capta algo que os livros de história frequentemente suavizam: Oswald Mosley não era um excêntrico à margem. Era, por todo o critério objetivo, um dos políticos mais talentosos de sua geração — e é exatamente essa a parte assustadora.

Quem foi o verdadeiro Oswald Mosley?
Oswald Ernald Mosley nasceu em 1896 numa família aristocrática, herdou o título de baronete aos vinte e poucos anos, serviu como piloto na Primeira Guerra Mundial e entrou para o Parlamento em 1918 com apenas vinte e um anos — o mais jovem deputado conservador eleito até então. O que se seguiu foi uma carreira de mudanças de partido que desconcertaria qualquer eleitorado moderno: saiu dos conservadores por discordar da política irlandesa do governo, sentou como independente, depois migrou para o Partido Trabalhista em 1924, tornando-se deputado por Smethwick em 1926 e apoiando os mineiros durante a Greve Geral. Em 1929, com o governo trabalhista de Ramsay MacDonald, assumiu o cargo de Chanceler do Ducado de Lancaster — essencialmente um ministro sem pasta encarregado de encontrar soluções para o desemprego crescente num país que estava a poucos meses do crash de 1929.
O que Mosley propôs naquele momento é, em retrospecto, uma das ironias mais amargas de sua trajetória. Seu plano econômico — o chamado Memorando Mosley, de 1930 — era uma mistura de keynesianismo avant la lettre, protecionismo e intervenção estatal que propunha, essencialmente, o que a maioria dos economistas modernos reconheceria como respostas razoáveis a uma crise de demanda: grandes investimentos públicos em infraestrutura, controle de importações para proteger a indústria nacional e reforma das instituições econômicas para torná-las mais ágeis. O gabinete trabalhista rejeitou o plano quase por unanimidade, em grande parte por timidez política e pelo peso da ortodoxia econômica liberal que dominava o pensamento da época. Mosley, frustrado, renunciou. Keynes, lendo o memorando, disse ser o documento mais sensato já produzido por um político britânico sobre aquele assunto. O que veio a seguir foi, portanto, o resultado da combinação mais perigosa possível: um homem ambicioso, genuinamente inteligente, politicamente habilidoso, convicto de que tinha razão e pronto para buscar outros meios.

Em 1931, Mosley fundou o Novo Partido, tentando criar uma terceira via entre trabalhistas e conservadores. O partido foi um desastre eleitoral — concorreu em 24 assentos nas eleições gerais daquele ano e não ganhou nenhum —, e a derrota deixou Mosley numa encruzilhada. Ele poderia retirar-se da vida pública, como chegou a considerar. Escolheu outra coisa. Em 1932, depois de uma viagem à Itália onde se encontrou com Mussolini e estudou de perto o modelo fascista italiano, fundou a União Britânica de Fascistas. A BUF começou com ambições que Mosley apresentava, com toda a seriedade de um homem de Estado, como uma resposta racional à crise do capitalismo liberal — não o extermínio, não a loucura, mas a corporação, a eficiência, a velocidade de decisão que a democracia parlamentar, na sua visão, era incapaz de oferecer. Ele não estava, naquele momento, errado ao perceber que a democracia liberal estava em crise — a crise era real, as democracias europeias estavam caindo uma após a outra. Estava catastroficamente errado sobre a solução.
O caminho para o fascismo inglês
Nos primeiros anos, a BUF cresceu com uma velocidade que deveria ter sido mais alarmante do que foi. Apelando igualmente para as frustrações dos veteranos de guerra abandonados pelo governo, a sensibilidade impressionável das classes mais baixas, as sempre venenosas ansiedades e ambições da classe média e a arrogância da aristocracia em derrocada, chegou a reivindicar cinquenta mil membros, e teve o apoio inicial do Daily Mail — cujo proprietário, Lord Rothermere, publicou um editorial intitulado “Viva os Camisas Negras” com um entusiasmo que hoje parece extraordinário, embora na época fosse perfeitamente alinhado com a simpatia que grande parte da imprensa britânica conservadora nutria pela “ordem” que Mussolini havia estabelecido na Itália e que Hitler estava estabelecendo na Alemanha.

Como Peaky Blinders mostra muito bem, o líder fascista era um propagandista e ator teatral nato; Mosley era um orador formidável, capaz de falar por horas sem notas diante de multidões de dezenas de milhares de pessoas, e a BUF cultivava uma estética deliberadamente dramática e intimidatória, com uniformes negros inspirados nos fascistas italianos, saudações romanas e marchas organizadas com precisão militar. Nos comícios, Mosley entrava sempre com efeito dramático — as luzes se apagavam, um holofote o seguia, a multidão em pé. Todos esses elementos, por sinal, são reproduzidos com precisão no seriado britânico – mas, sobretudo, no último episódio da quinta temporada, e no primeiro episódio da sexta.
Havia também, desde o princípio, a violência. Nos comícios da BUF, perturbações eram respondidas pelos Camisas Negras com uma brutalidade sistemática que ficou explícita para o grande público no Comício da Olympia, em junho de 1934 — um evento ao qual compareceram mais de dez mil pessoas e no qual manifestantes foram espancados com uma ferocidade que chocou observadores, parlamentares e jornalistas presentes. O comício da Olympia coincidiu quase que ao dia com a Noite das Facas Longas na Alemanha, e os dois eventos juntos causaram uma debandada significativa de apoiadores moderados da BUF, incluindo o Daily Mail, que nunca mais voltou a apoiar o movimento. Era 1934, e a associação com o nazismo — que Mosley, naquele momento, ainda tentava negar ou ao menos matizar — estava se tornando impossível de desvincular.

O que se seguiu foi uma escalada constante para territórios cada vez mais explicitamente antissemitas e violentos. Em 1936, a BUF anunciou uma marcha pelo East End de Londres — um bairro densamente habitado por imigrantes judeus, escolhido com a precisão calculada de quem quer provocar —, e o que aconteceu naquele 4 de outubro é uma das histórias mais notáveis da resistência popular ao fascismo no século XX. Cerca de cem mil a trezentos mil pessoas — judeus, estivadores irlandeses, comunistas, sindicalistas, socialistas, anarquistas, moradores comuns — ergueram barricadas, bloquearam ruas e, sob o grito de “They Shall Not Pass!”, emprestado dos republicanos espanhóis que naquele mesmo momento lutavam contra Franco, impediram a marcha. A polícia, com seis mil agentes mobilizados para abrir caminho para os Camisas Negras, foi incapaz de dispersar a multidão. Mosley, finalmente, desistiu. Os fascistas não passaram. Era a primeira vez, em toda a Europa dos anos 1930, que o fascismo de rua havia sido derrotado pelas ruas.
Declínio, casamento e prisão

No dia seguinte à Batalha de Cable Street, Oswald Mosley voou para Berlim para se casar com Diana Mitford — também vilã de Peaky Blinders, uma das famosas irmãs Mitford, divorciada de seu primeiro marido, herdeiro da fortuna Guinness, para se tornar amante do líder fascista, notório por suas traições à primeira esposa (a série observa, e é verdade, embora pareça quase absurdo, que em determinado momento ele mantinha relações tanto com sua sogra quanto com sua cunhada). O casamento aconteceu na casa de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista. Adolf Hitler compareceu como convidado de honra e padrinho, e ofereceu ao casal uma fotografia autografada numa moldura de prata. Não havia mais nenhuma ambiguidade possível sobre o que Mosley era e com quem se alinhava.

O casamento foi secreto — Mosley sabia que a opinião pública britânica já estava virando contra ele —, mas quando veio a público, quando o casal teve seu primeiro filho, o dano foi considerável. Diana Mitford, conhecida como “a valquíria de Hitler”, era considerada “a mulher mais odiada da Inglaterra”, o que não podia ajudar o caso do político mais controverso da Inglaterra. A Batalha de Cable Street e o Public Order Act de 1936, que proibiu o uso de uniformes políticos e deu à polícia poder para banir marchas, enfraqueceram progressivamente a BUF; e o crescimento da hostilidade britânica à Alemanha nazista, com a qual a imprensa insistia em associar o movimento, foi erodindo sua base de apoio. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em setembro de 1939, Mosley ainda insistia numa campanha pela paz negociada, argumentando que a guerra era um desastre evitável. Em maio de 1940, poucos dias depois de Churchill assumir o governo, Mosley foi preso sob o Regulamento de Defesa 18B, que permitia a detenção de simpatizantes do inimigo sem julgamento. A BUF foi declarada ilegal. No total, cerca de 750 membros foram encarcerados, incluindo a própria Diana.
Mosley ficou preso por três anos — ele e Diana viveram juntos num chalé no terreno da Prisão de Holloway, numa concessão que provocou escândalo considerável —, sendo libertado em 1943 por problemas de saúde, para terminar a guerra em prisão domiciliar. Tentou retornar à política em 1948, com o Union Movement, e depois nos anos 1950 e 1960, nunca com qualquer sucesso real. Morreu em 1980, em Orsay, perto de Paris, onde havia se exilado décadas antes, convicto até o fim de que havia sido incompreendido. A BBC, em sondagem posterior sobre os piores britânicos do século XX, colocou-o no topo da lista.
Vilão da televisão

Em 2019, a quinta temporada de Peaky Blinders introduziu Oswald Mosley como seu mais novo vilão. A série já tinha tido uma coleção de assassinos, mafiosos, estupradores, torturadores e até mesmo um pedófilo entre seus antagonistas, mas, seguindo a lógica da BBC, apresentou Mosley como o pior de todos. A história acompanha a criação do partido fascista inglês e, em sua versão ficcional, mostra o líder fascista tentando trazer Tommy Shelby, chefe de crime organizado e político promissor, para seu lado. Shelby, por sua vez, atua como agente duplo anti-fascista, organizando um atentado que deveria tirar a vida de Mosley, mas dá errado.
A temporada dá enfoque no carisma e na teatralidade de Mosley, com duas cenas brilhantemente escritas e atuadas de discursos que exemplificam perfeitamente a retórica fascista e seu ilusório apelo popular. Ao mesmo tempo, vemos o político se envolver com o crime organizado, com violência de rua, e até mesmo mandar assassinar um jornalista. O Mosley de Claflin é carismático, elegante, metódico, poderoso e muitíssimo inteligente, mas também extremamente arrogante, grosseiro – quando quer -, desagradável e promíscuo, com uma tendência a insultar e humilhar mesmo seus aliados para reafirmar sua superioridade.
Já a sexta temporada cobre o caso e depois casamento de Mosley com Diana Mitford – possivelmente a mulher mais odiada de Peaky Blinders, além da Inglaterra -, sua campanha extra-oficial para Primeiro Ministro e seu envolvimento direto com Hitler e os nazistas. O político fala do “nosso amigo em Berlim” e se envolve em negociatas com uma versão ficcional (mas muito transparente) de um Kennedy para exportar o fascismo para os Estados Unidos. A temporada continua reforçando a teatralidade de Mosley, com entradas triunfais em eventos lotados de camisas-negras, pôsteres com seu rosto espalhados por toda Londres e uma cena onde o MP ensaia um discurso, ajustando pessoalmente a iluminação do palco.
No último episódio da série, Tommy Shelby descobre que Mosley foi o responsável por destruir seu casamento e fazê-lo acreditar que ele tinha uma doença terminal, o que quase o levou ao suicídio. A intenção clara era continuar a história e fazer da Batalha de Cable Street a grande vingança do líder dos Peaky Blinders – que, sendo um político de esquerda e tendo ligações com os judeus e comunistas da capital, tinha tudo para, na série, ser o cérebro por trás do confronto que levou à queda de Mosley. Entretanto, a série teve que terminar antes do previsto em função da pandemia, e essa continuação jamais chegou a acontecer.
A trilha sonora de Peaky Blinders – sempre brilhante – tem uma piada interna com Mosley: embora o líder fascista tenha seu próprio tema instrumental – “Mosley”, peça excelente da fantástica Anna Calvi -, toda vez que o personagem aparece na tela com alguma música tocando no fundo, a música escolhida está, de alguma forma, zombando do fascista ou apontando-o como uma pessoa ruim. Algumas das músicas que acompanharam cenas de Mosley incluem “Evil”, de Nadine Shah, que tem como refrão a frase “Todos dizem que eu sou mau, que eu sou o diabo em carne e osso”, “Never Fight a Man With a Perm” da banda Idles, com uma letra subversiva zombando do estereótipo do homem conservador (“Ele acha que é sofisticado, você não é sofisticado por ter assistido Get Carter / Você é um catálogo, um Sinatra de plástico / […] Você é um tirano da Topshop / Até seu corte de cabelo é violento”) e declarando seu desgosto por eles (“Eu tenho uma tendência a fumar e chutar imbecis na boca, e para o seu azar, meu último cigarro acabou”); “I’m Scum”, cujo título se traduz para “Eu sou lixo”, também da Idles, e “The Last Hangman”, da banda Hotel Lux, que conta a história de Albert Pierrepoint, carrasco britânico conhecido por enforcar mais de 200 nazistas durante os julgamentos de Nuremberg, e afirma, em seu refrão, que “Albert não terá piedade”. Um recado bastante óbvio de como os criadores de Peaky Blinders vêem o líder fascista.
O homem que queria ser Hitler
Oswald Mosley voltou a memória popular com seu surgimento como vilão de uma das maiores séries da última década. Tanto o roteiro muito bem construído como a excelente atuação de Claflin, que foi muito elogiado pelo papel, tornaram a personagem uma figura marcante e memorável da cultura pop. Desde então, Mosley já ganhou outra versão na série britânica “Outrageous”, focada nas vidas escandalosas das irmãs Mitford, onde aparece como o – logicamente, muito problemático – amante de Diana.

Que Mosley ressurja na consciência popular agora não deixa de ser interessante. Afinal, a infeliz e assustadora tendência mundial em direção à direita política, o ressurgimento de movimentos neonazistas e autoritários como cada vez mais aceitáveis em debate aberto e as tendências claramente fascistas de muitos dos mais poderosos governos do mundo não passam despercebidas por ninguém. Ao mesmo tempo, mais uma vez, estamos sendo lembrados dessa figura sombria da política inglesa – o homem que quase foi Hitler, e que poderia ter levado a história do século XX a ser conduzida de maneira muito diferente se tivesse conseguido seu objetivo. Afinal, o que poderia ter acontecido se a Inglaterra tivesse se aliados aos nazistas na Segunda Guerra Mundial? Felizmente, não precisamos descobrir. Precisamos mesmo chegar tão perto de conhecer algo equivalente no século XXI?
No contexto atual, o que torna Oswald Mosley uma figura ainda digna de atenção — além do óbvio interesse histórico — é precisamente o que a série de televisão capturou com incômoda eficácia: Mosley não era uma figura ridícula, absurda ou estúpida – pelo contrário, se tratava de um homem inteligentíssimo, capaz, politicamente articulado, excelente orador, brilhante propagandista, e genuinamente convincente em seu papel. Igualmente, e talvez mais importante para a atualidade, o fascismo britânico dos anos 1930 não foi uma anomalia importada ou uma loucura de margens: teve apoio de imprensa, financiamento aristocrático, simpatias em círculos parlamentares e militares, e foi liderado por um homem que o establishment britânico havia, até poucos anos antes, considerado um dos seus mais promissores.

É importante que reconheçamos isso; também é importante que nos lembremos de outra coisa: do remédio. A Batalha de Cable Street foi decisiva não porque derrotou a BUF militarmente — a polícia poderia, em outras circunstâncias, ter forçado a passagem —, mas porque estabeleceu que havia uma parcela da sociedade britânica disposta a lutar ativamente, com o próprio corpo, contra aquilo que Mosley representava. Esse foi o fim da carreira política de Mosley; embora ele tenha tido alguma sobrevida em teoria, suas aspirações à Hitler britânico – papel que ele já estava bem encaminhado para assumir, e que com facilidade poderia ter conduzido a Segunda Guerra Mundial e o resto do século XX para um caminho drasticamente diferente – efetivamente morreram ali. É um lembrete de que os fascismos que fracassaram por inevitabilidade histórica. Fracassaram porque alguém os parou.

