Eu sempre vou defender que uma boa dramaturgia é aquela que se torna atemporal, ou seja, os temas dela vão ultrapassar a sua época, mas em alguns casos essa ideia nos leva para um lugar triste da sociedade. Esse é o caso de Valsa nº 6 escrita por Nelson Rodrigues, em 1951, e agora montada pela Cia. Cães Errantes.
O espetáculo narra a história de uma jovem que, após ser assassinada, tenta montar o quebra-cabeça de suas memórias e reconstruir os acontecimentos de sua vida. Suspensa em um espaço sem tempo definido, a jovem revela uma trama de assassinato, adultério, alucinações e conflitos entre o real e o imaginário.
A dramaturgia de Nelson Rodrigues para esse espetáculo é desafiadora, pois não pode se apoiar no mecanismo da intersubjetividade, ou seja, no diálogo entre personagens para criar conflito e ação. Em Valsa nº 6, a ação é inteiramente mental. Mais do que uma pessoa, ela é um “corpo que acontece” no palco, um espaço de memória e de linguagem. Sônia é construída por suas ambiguidades: é menina e mulher, morta e viva, cômica e trágica. Essa ambiguidade é o que mais me chama atenção no texto; ela é que sofre o julgamento, mas também a que acusa.
Mas, saindo do olhar técnico para sua dramaturgia, temos que olhar para as temáticas que Nelson Rodrigues explora em 1951. Apesar de algumas abordagens na internet optarem por um foco sobre violência e pedofilia, temas que sim a habitam, eu optei por olhar uma questão que me angustia: como “o controle e o suposto “direito” sobre o corpo da mulher.” Se Nelson ousa colocar uma lente sobre o abuso de meninas, é porque estamos falando de uma sociedade patriarcal, que escolhe como lidar com suas jovens, tratando seus corpos como objetos sobre os quais homens, famílias e instituições poderiam exercer domínio. Algo não muito diferente de 2026, quando a sociedade ainda reivindica para si o poder de decidir se uma menina ou mulher violentada deve levar adiante uma gestação. Ou seja, 75 anos após ser escrita, vemos que a dramaturgia não se tornou data, ou pelo menos não pelos motivos certos.

A atuação de Fernanda Gidali é um dos grandes acertos do espetáculo, revelando uma maturidade cênica que surpreende diante do duplo desafio de sua juventude (22 anos) e da natureza exaustiva de um monólogo sem intersubjetividade. Sua qualidade se sustenta em duas frentes técnicas igualmente notáveis: no trabalho corporal, ela habita o palco com maestria, utilizando o corpo não como mero suporte, mas como ferramenta narrativa para criar signos físicos claros que distinguem as múltiplas personagens que povoam a mente de Sônia; e no trabalho vocal, sua atuação se torna impecável ao dominar não apenas o tom emocional de cada fala, mas a própria tessitura da voz, ajustando-a com precisão para construir registros específicos que refletem as camadas da protagonista. Dessa forma, Gidali não apenas interpreta Sônia, mas encarna a própria ambiguidade estrutural do texto, sendo menina e mulher, morta e viva, cômica e trágica, transformando a complexidade psicológica da dramaturgia em uma performance coesa, legível e dramaticamente potente, que honra a densidade do texto sem jamais perder a clareza comunicativa com o público.
A qualidade técnica do espetáculo é marcada por uma execução precisa e simples, que, em vez de se sobrepor ao texto, atua como um elemento de amplificação dramática, engrandecendo a narrativa ao lhe conferir concretude sem excessos. A cenografia, reduzida a uma única cadeira, revela-se uma escolha acertada e funcional, pois dialoga diretamente com o plano “espiritual” e fragmentado da peça, onde a realidade é substituída por recortes de memórias, não havendo necessidade de adereços materiais que poluam a abstração. Essa austeridade cênica, contudo, é potencializada pelo desenho de luz de Gabrielle Costa e Gabriel Starobinas, que transcende a mera funcionalidade ao criar corredores de luz; esses feixes não apenas iluminam o espaço, mas constroem visualmente a sensação de busca e desorientação, traduzindo em termos plásticos a tentativa da protagonista de encontrar um fio condutor para o entendimento de sua própria vida.

A direção de Gabriel Starobinas nos revela uma inteligência e segurança, assentadas em uma pesquisa estética que prioriza a coerência narrativa em detrimento de uma suposta “atualização” visual que pudesse desvirtuar a essência do texto. Sua qualidade reside justamente na contenção. Ao invés de sobrepor elementos cênicos que disputassem a atenção do público, Starobinas opta por uma encenação depurada, na qual a cadeira solitária, os corredores de luz e o trabalho corporal da atriz são orquestrados como partes de um mesmo organismo dramático, sem que nenhum desses componentes se destaque em detrimento do outro. Essa abordagem, no entanto, não é fruto de uma ausência de decisões, mas de um exercício de curadoria rigorosa. O diretor sabe exatamente o que incluir e, mais importante, o que suprimir, mantendo o foco sobre os dois pilares que sustentam o espetáculo: a crítica social contundente que Nelson Rodrigues inscreveu na peça e a performance visceral de Fernanda Gidali. Dessa forma, a direção de Starobinas não apenas conduz a atriz com segurança em um monólogo tecnicamente exaustivo, mas também garante que a montagem da Cia. Cães Errantes respire a mesma ambiguidade trágica e política do texto original, provando que sua inteligência na encenação está em saber recuar para que a obra e a intérprete ocupem o centro, sem jamais abdicar de uma assinatura estética precisa e resoluta.
Diante de todas as camadas analisadas, o que se impõe como síntese é a constatação de que a montagem da Cia. Cães Errantes não apenas compreendeu a obra em sua integridade, mas a tratou com a dignidade que ela exige. E é justamente aí que reside o grande diferencial desse grupo: enquanto outra produção simultânea opta por subestimar a inteligência do público, mastigando o texto e desrespeitando a capacidade de recepção ativa do espectador, os jovens Cães Errantes assumem o risco de encarar a complexidade rodriguiana sem atalhos, confiando que a plateia é madura o bastante para sustentar o peso de um tema tão doloroso quanto o controle patriarcal sobre o corpo feminino. Essa aposta na maturidade do público, somada à segurança com que conduzem cada elemento cênico, revela não apenas um acerto estético, mas uma postura ética diante do teatro: a de não proteger o espectador da ferida, mas de expô-la com respeito, para que a catarse e a reflexão aconteçam em sua plenitude. Assim, ao recusar o paternalismo e abraçar a densidade, a Cia. Cães Errantes oferece uma Valsa nº 6 que não é datada e que, por isso mesmo, se mantém viva, necessária e, acima de tudo, respeitosa com a obra, com o público e com a própria história que ainda insiste em se repetir.
Ficha técnica:
Texto: Nelson Rodrigues
Elenco: Fernanda Gidali
Direcão: Gabriel Starobinas
Sonoplastia: Nina Darin
Iluminação: Gabrielle Costa e Gabriel Starobinas
Operação de luz: Caroline Rúbio
Produção geral: Vitória Anibal
Realização: Cia. Cães Errantes

