Uma equipe de investigação demonstrou a verdadeira função de uma sala na villa romana de Fuente Álamo, em Córdoba, na Espanha. Antes considerada um templo subterrâneo, o local foi identificado como uma biblioteca, o que a torna a mais antiga da Península Ibérica.
O trabalho foi realizado por pesquisadores da Universidade de Granada (UGR) e a descoberta foi publicada na última edição do Journal of Mediterranean Archaeology, uma das principais revistas britânicas na área da arqueologia.
A descoberta foi possível graças a uma metodologia que analisa a combinação de elementos arquitetônicos no espaço. O principal desafio foi superar a dificuldade de identificar arqueologicamente espaços como as bibliotecas romanas, cujos livros e estantes de madeira praticamente desapareceram com o tempo.
Para resolver esse problema, os pesquisadores utilizaram uma técnica conhecida como “gramática de formas”. Essa metodologia permite analisar como os diferentes elementos arquitetônicos de um cômodo se combinam.

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No caso de Fuente Álamo, no sul da Espanha, a divisão analisada apresenta uma planta que se enquadra no estilo construtivo das bibliotecas romanas: uma abside, nichos retangulares para abrigar estantes, outros nichos semicirculares, um pódio e salas auxiliares adjacentes que provavelmente serviam como espaços de trabalho ou armazenamento.
A combinação desses elementos foi fundamental para descartar a interpretação anterior do espaço como um possível templo e confirmar sua utilização como local de leitura, estudo e exibição cultural.
Essa descoberta é especialmente relevante porque, ao contrário de outros casos, a arquitetura de Fuente Álamo preserva uma combinação excepcional de indícios que permitem ir além das meras hipóteses.
Biblioteca de Fuente Álamo
A biblioteca de Fuente Álamo torna-se não apenas a mais antiga da Península Ibérica, mas também de todo o Império Romano.
Além disso, os pesquisadores a consideram a biblioteca privada mais bem preservada do mundo romano conhecido, com exceção da Villa dos Papiros, em Herculano, cujo conteúdo (os papiros) foi conservado, mas não a estrutura física que os abrigava.
O estudo incorpora ainda uma hipótese que aumenta o interesse sobre a descoberta. Os autores sugerem uma possível ligação entre essa biblioteca e um sarcófago encontrado no século XIX no sítio arqueológico de Villares del Carril, nas proximidades.
Essa peça, conhecida como o “Sarcófago da Declamação” e que se encontra no Museu de Málaga, apresenta cenas relacionadas à leitura e ao ensino.
A cronologia e a iconografia desse sarcófago coincidem com as da segunda fase da aldeia de Fuente Álamo. Uma das figuras representadas — um homem barbudo com um pergaminho e um códice — apresenta semelhanças com uma figura em um mosaico local que estudos anteriores identificaram como o proprietário da aldeia.
Embora essa relação não possa ser comprovada de forma definitiva, sugere-se que o sarcófago poderia representar o dono da biblioteca, oferecendo provas únicas de como as elites rurais da Bética, na Antiguidade Tardia, estavam ligadas à cultura escrita e à identidade intelectual.

Crédito: Antonio López García /M. Rodríguez de Berlanga (1903)

