A literatura contemporânea tem cada vez mais voltado-se para narrativas afastadas de centros urbanos, fazendo com que o leitor conheça novos territórios e novas contradições sociais. Onde bala tem nome, do autor Jonattan Rodriguez Castelli, insere-se nesse contexto.

Com vinte e um contos, o livro da editora Urutau volta-se para a fronteira brasileira, especificamente Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, cidade que faz fronteira com a cidade paraguaia Pedro Juan Caballero. Essa fronteira seca, destituída de qualquer divisão natural como rios, transcende o mero papel de ambientação ou recurso narrativo, assumindo a estatura de personagem central. É um território atravessado por práticas de exploração e por uma violência ostensiva.
Para quem habita o estado do Rio de Janeiro — ou em outros grandes polos urbanos —, pode ser complexo conceber a realidade vivenciada na fronteira brasileira com as nações vizinhas. O próprio título da obra antecipa esse cenário marcado por violência, exploração de territórios e constantes mortes por armas de fogo. Contudo, essa bala carrega consigo uma trajetória, uma gênese atravessada por teias de relações de poder. Logo, a brutalidade, sugerida pelo título, é atravessada por conflitos concretos e historicamente construídos.
Longe de se limitar a um marco físico ou a um obelisco, a fronteira ganha vida no fluxo constante de pessoas, mercadorias e manifestações culturais. É nesse espaço de trocas que o português e o espanhol se entrelaçam na criação do portunhol. Essa intensa conectividade entre os territórios faz com que a linha idealizada para separar funcione, na prática, como um elo de aproximação, transformando a busca por uma identidade rígida em um terreno fecundo para identidades complexas. A presença dos Guarani-Kaiowá, etnia originária de Mato Grosso do Sul, trazida por Castelli para a narrativa, reforça essa dinâmica. A vivência fronteiriça transpõe a mera travessia de uma rua entre o lado brasileiro e o paraguaio: trata-se de um cotidiano marcado pelo convívio e pela mistura contínua entre as populações.
Contudo, a violência se faz constantemente presente. Nisso reside um dos maiores méritos do autor: longe de ser um elemento externo, a brutalidade estrutura o espaço narrativo, a história local e o entrelaçamento entre os personagens. As narrativas se ancoram diretamente na trajetória socioeconômica da região, abordando a exploração latifundiária sobre terras indígenas, o avanço do agronegócio, o narcotráfico e a profunda vulnerabilidade de quem sofre os impactos desse sistema predatório.

“Quando o fazendeiro lhe disse que não tinha como frear o desenvolvimento, deveria ter imaginado o que isso significava […] O fogo consumia o passado, para o futuro nascer; o progresso enfim os alcançara.”
Os problemas sociais do Brasil são tão urgentes que gritam nas páginas do livro. Porém, não se enganem, os contos, aqui, não representam apenas denúncias ou análises socioeconômicas da região. Castelli incorpora os temas à construção da linguagem, à narrativa e à construção das personagens. Assim, o leitor está diante de um mosaico fronteiriço: a fronteira dos indígenas, dos trabalhadores, dos criminosos, dos proprietários, das crianças.
Entre as vinte e uma narrativas do livro, ganha relevância o conto Senhorita Mitãkuñã porã, em que são pautadas questões graves como a pedofilia e o tráfico de crianças indígenas. A construção do texto sobressai-se pela condução do leitor, que é surpreendido ao longo da leitura: o narrador semeia sutis indícios durante a história para somente no desfecho escancarar a realidade do ocorrido. Trata-se de uma revelação de tamanha atrocidade que, como leitora, vi-me forçada a interromper a leitura por um instante, fechar os olhos, respirar fundo e encarar o nada para absorver o impacto do crime narrado.

“Adoro quando me pedes para contar-te como nos conhecemos, virando para mim esses teus olhos castanho sedentos pelo mundo; é difícil lembrar-me daquele dia, o dia em que a minha vida terminou; no início, a minha voz engasga e os olhos lacrimejam, mas depois de um tempo, posso narrar tudo; gosto de inventar detalhes, acrescentar desafios e mistérios, mas a verdade é que não precisamos de nada disso, pois, se eu apenas narrasse as coisas como foram, já seria suficiente; ter a sua presença em minha vida, enchendo os corredores escuros da casa com risos e canções, é mágico o bastante.”
Destaco, ainda, o conto A luz depois do fim. Com uma narrativa de parágrafo único que não preenche nem uma página inteira, a história é capaz de devastar o leitor ao retratar uma criança como alvo de um disparo. O desespero da mãe ao recordar o receio do filho torna esse curtíssimo relato ainda mais pungente, evidenciando a dolorosa incapacidade materna de proteger sua pequena cria daquela tragédia pós-morte: ter o seu caixão colocado dentro de uma gaveta escura de um cemitério:
“Tiveram que velar a criança com o caixão fechado; balas não ligam para a estética. Ao depositá-la na gaveta de cimento, a mãe gritou: “Não, não, ela tem medo do escuro.” O coveiro parou. Foi até o almoxarifado; pegou de lá uma lanterna e colocou-a junto ao esquife de madeira, antes de lacrá-lo para sempre.”
A afirmação “balas não ligam para a estética” faz refletir sobre o impacto das armas de fogo: no instante em que o disparo atinge o alvo, o estrago causado na aparência é completamente indiferente para o projétil. Para além do dano estético, o impacto do disparo atinge as consequências em sua totalidade, inclusive, privando os entes queridos da possibilidade de prestarem a última homenagem no velório. Dessa forma, à medida que a leitura avança, a fronteira de Ponta Porã revela-se um território denso, repleto de sonhos, memórias e tragédias. Essa imersão na complexidade local nos permite compreender o sentido da dedicatória da obra.
A Ponta Porã, fronteira rica em histórias, sonhos e tragédias — dedicatória do livro.
Cabe destacar, também, a proximidade do autor com o cenário da fronteira. Castelli morou em Ponta Porã entre 2019 e 2025, vivência que certamente alimentou a composição deste livro. Atualmente lecionando nos cursos de Economia e Relações Internacionais da UFRGS, o escritor alia essa experiência de campo à sua formação acadêmica. Essa dupla lente — do economista e do internacionalista sobre a região fronteiriça — revela-se fundamental para compreender a centralidade das conexões entre território, economia, desigualdade social e violência no decorrer da obra.
No entanto, vale destacar que o livro não se propõe a ser uma análise acadêmica acerca do assunto e, sim, em experiências humanas concretas relatadas. O grande mérito do autor reside em expor uma desigualdade profunda, enraizada na própria estrutura do tecido social. Longe de serem episódios isolados, os conflitos do presente refletem a permanência de um sistema histórico que se nutre da própria violência, uma engrenagem que não busca soluções, mas se perpetua a cada bala disparada, favorecendo, sempre, os mais privilegiados.
A dimensão da fronteira funciona como uma síntese reveladora das contradições e da heterogeneidade do nosso país. Mesmo a uma grande distância geográfica, é possível, para pessoas como eu, moradora do estado do Rio de Janeiro, sentir o pertencimento a essa dinâmica territorial. Essa experiência evoca o poema Descobrimento, de Mário de Andrade: ao folhear uma revista. Distante de sua São Paulo, o poeta reconhece no borracheiro amazônico a mesma identidade brasileira que o constitui. Semelhantemente, ler os contos de Jonattan Rodriguez Castelli permite ao leitor reconhecer a própria brasilidade. Eu, você e os habitantes de Ponta Porã compartilhamos a mesma nacionalidade e somos atravessados pela complexidade da desigualdade social/econômica. Em momentos em que o sentimento patriótico mostra-se frágil e incerto, esse resgate revela-se fundamental.
Quem é Jonattan Rodriguez Castelli?

É escritor e professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS. Residiu em Ponta Porã (MS) entre 2019 e 2025; atualmente vive, sonha e escreve em Porto Alegre (RS). Autor de Olhos lilases (Metamorfose, 2023), publicou contos em coletâneas organizadas pela mesma editora.
Foi contista selecionado no Prêmio Literário Unifor 2023 e finalista do Jabuti Acadêmico de 2025, como um dos coautores de Os homens da moeda. Onde bala tem nome é seu segundo livro individual.
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