O luto é uma matéria bruta. E talvez a mais bruta de todas porque não pode ser talhada: é ela que, aos poucos, talha a si própria. Muito se escreveu, se pensou, se filosofou, se elaborou e se construiu sobre o luto nos últimos 120 anos nas ciências humanas. Entretanto, para quem vive o luto, o aprendizado sobre ele serve somente para entendimento, nunca para conforto.
Diante de uma perda, o luto vence qualquer entendimento: é ele a sabedoria maior que nos faz entender o que é a vida da forma mais suprema. É por isso que, frente à perda de sua mãe, a pessoa mais importante de sua vida, Talita Camargos chamou o processo do luto e a feitura do livro que narra esse processo de “A Redescoberta do Sol”. Vamos conhecer essa história conosco?

“A Redescoberta do Sol – frestas de vida após a morte de minha mãe” é um livro de Talita Camargos, mineira de Ibitira, Minas Gerais, jornalista e escritora que publica suas histórias no Substack. O livro é uma espécie de biografia, um relato pessoal e íntimo que atravessa os dias de sua vida através dos momentos de perda da sua mãe por conta de um câncer.
Porém, o que o livro traz de mais interessante é uma redefinição das noções tradicionais de luto. O luto geralmente é visto naqueles 5 passos tradicionais: negação, raiva, barganha, depressão, aceitação. Para Talita, é muito mais do que isso. O luto vai muito além de perder e passar por essas fases da perda, não que ela não tenha passado. O luto, segundo ela, sempre foi algo muito além de perder sua mãe, mas sentir, desde o início, que a perderia.
É a sensação de “ir perdendo”. De certa forma, tudo começava com a sensação de que a perderia, ainda antes de sua morte, ou seja, a experiência do luto que começava a ser vivida antes mesmo da morte, antes ainda, quando da ocasião do anúncio do câncer, durante o período de suspeita de uma doença grave.
Aliado a isso, ainda vivia uma espécie de silêncio ou de opacidade na família que se recusava um pouco a enunciar a doença como um processo a se viver coletivamente, como sua avó que se recusava a falar a palavra “câncer” em voz alta:
“Minha vó evita a palavra câncer, prefere dizer ‘aquela doença’, e no lugar de morte sempre fala ‘partida’. Prefere esses eufemismos como quem dá um analgésico para a alma, dos fraquinhos, mas que fazem a dor ser menos sentida, talvez”.
Com muita sensibilidade, Talita entende que nem todos suportam a dor da mesma forma. A cruz nunca pesa nas costas de todos igual. No caso, ela, perdendo a mãe, a avó, naquele momento, perdendo a primeira filha (viriam outras, em seguida).

E esses últimos momentos seriam cruciais para o livro: Talita tentou acelerar um casamento com seu namorado para que sua mãe pudesse vê-la casando, mas a cirurgia da mãe teve a data alterada inúmeras vezes, por diversos motivos. Enquanto isso, dona Neuza e a família compartilharam encontros tanto no sítio da avó da escritora como na cidade, na casa de Talita. Até que um dia, a mãe da autora passou por um procedimento de alto risco e, após 16 dias de intercorrências, faleceu. A partir daí, começa uma nova etapa, o luto com a ausência de dona Neuza.
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Eu sempre gosto de citar a definição de Freud sobre o luto. Para o psicanalista francês Sigmund Freud, o luto é a resposta psíquica normal e consciente à perda de um ente querido ou de uma abstração que o substitua e nisso ele inclui outras coisas como a pátria, a liberdade ou um ideal, um sonho, um desejo profundo, talvez, quiçá, um amor.
“O mais bonito é que o luto não pode ser visto como uma doença, porque o luto vai passar assim que o sujeito conseguir se organizar internamente e isso vai acontecer mais dia menos dia porque o luto é somente um processo: como ele tem objeto, ele se processa. Freud enuncia uma frase linda: o luto é quando “a sombra do objeto caiu sobre o eu”.
Com a perda de Dona Neuza, sua mãe querida, Talita vai passar por um processo de luto em todas as suas nuances. Porém, com muita força e resignação suficiente para ajudar seu pai, sua irmã Mel, seu irmão Julinho e, ainda, servir de suporte para o restante da família. O mais curioso é que o livro relata também uma série de outras perdas que Talita passou ao longo dos anos seguintes, de amigos próximos, incluindo um de seus mais especiais, o amigo Gabriel, o Gava, de familiares como sua avozinha de 97 anos, dentre alguns por conta da pandemia e alguns outros conhecidos por fatalidades inesperadas. Um livro que era sobre perder a mãe, mas que passa a olhar e ler sobre aprender a perder pessoas. Lutos, dentro de lutos, dentro de outros lutos.

Porém, Talita não fez do livro uma reflexão somente pessoal, individual. Sim, o livro é sobre ela e sobre o seu processo pessoal, mas durante o seu luto, o país passou por um luto coletivo, o da pandemia da COVID-19, e Talita não se furtou a nos trazer sua visão sobre o que viveríamos e vivemos ali. Enquanto éramos negligenciados por uma administração federal, organizamos nossas vidas como podíamos para sobreviver. Ela atuou, inclusive, como voluntária de um projeto que ouvia enlutados e escrevia tributos para vítimas do Coronavírus. Este retrato é trazido por Talita, que recorda no livro um momento de dor que ela vivia e se sobrepôs a um momento de dor que o país viveu e, enquanto ela já sofria por Dona Neuza, soube traduzir melhor do que ninguém esse sentimento:
Eu me sentia cada vez mais como se estivesse condenada a viver o peso da perda de maneira precoce e brutal, como se a vida me impusesse uma sequência de despedidas impiedosas, arrancando as pessoas que mais amava, antes que eu tivesse tempo de entender o que acontecia. A dor não vinha apenas da saudade, mas de uma sensação avassaladora de que a morte me perseguia, ou eu fosse escolhida para sofrer essas partidas dramáticas, sem chance de descanso. A convicção de estar condenada a viver o luto de forma antecipada e cruel se aprofundava a cada despedida.
Outra definição de luto que parece seminal para a autora é uma que ela extrai de uma live neste período e que vem da Dra Ana Claudia Quintana Arantes, escritora e médica de cuidados paliativos. É a ideia de que o luto é, na verdade, uma espécie de pêndulo:

“Pende-se para os dois extremos. Um é o da perda (dor, tristeza, sofrimento) e o outro está voltado para a restauração (transformar a dor em ação, descobrir novos interesses e criar, por exemplo, como faço com a escrita). (…)
Descobri, então, que essa ideia do luto consta na obra ‘O processo dual do luto’, de Margaret Stroebe e Henk Schut. Segundo os autores, essa oscilação é o esperado. O movimento pendular é importante para que o luto seja integrado à vida. Ou seja, ter uns dias bons e outros ruins é normal. O preocupante é quando só um deles existe, tanto o positivo quanto o lado doloroso.”
Estamos diante de um ponto-chave de mudança na vida de Talita, de seu luto e de sua vida. E ainda bem que existe a literatura. Pois são desses pontos de sofrimento, dessas oscilações, desses sentimentos e dessas memórias infinitas que Talita tem de sua mãe, Dona Neuza, e das histórias que ela lembra e relembra ao lado de sua família reunida durante os eventos, que nasce seu site, Texto do Dia, e aos poucos vai surgindo este “A Redescoberta do Sol”.
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E esta é a potência da literatura: se há um pêndulo entre sofrimento e alegria, entre dias chuvosos e dias ensolarados, que os dias de sol sirvam para que outros possam também receber um pouco desse calor e dessa luz. E a literatura é justamente esta garrafa que se lança ao mar, um grito dentro de uma sala escura para que alguém escute ou, como diz Mário Quintana: “Quem faz um poema salva um afogado.” E que eles sejam salvos através das palavras. Talita não escreve para salvar a si, Talita não faz arte da dor. Talita faz literatura porque as dores se processam em outro lugar. E é desse tipo de imaginação que o mundo precisa.

Talita traz consigo uma inspiração da filósofa alemã Hannah Arendt, que dizia que “toda dor pode ser suportada se, sobre ela, puder ser contada uma história” para transformar de maneira profunda e terna a história da maior dor que já sentiu na vida. É realmente cativante a forma como vamos sendo carregados para dentro de sua história e vamos caminhando por dentro de sua família, como aquela familiaridade e hospitalidade que só os mineiros são capazes de nos oferecer.
“A Redescoberta do Sol – frestas de vida após a morte de minha mãe” é um livro sobre caminhos, sobre histórias vividas. Algumas dores, mas quem entende de vida sabe que ali nem sempre há só dores. Ali tem literatura e história de uma moça que amou demais sua mãe e sua família linda e soube dar cores à sua história que agora vive eternizada em uma obra. Agora cabe viver o resto da vida para que ela seja tão ensolarada como foi essa primeira parte. E que todas as vidas que lerem esse livro sejam capazes de amar como amou Talita Camargos.

