“Se recomponha. Temos convidadES!”, diz Thelores, drag queen que interpreta Lady Macbeth nesta encenação da Cia. Extemporânea. A piada não é gratuita. O elenco de “Macbeth”, em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo, é inteiramente formado por essas artistas. Então duelos sangrentos se transformam em batalhas de lip sync e Poker Face, de Lady Gaga, serve como trilha para as bruxas de DaCota Monteiro (em um trabalho inspirado) apresentarem a tragédia que virá: o general será rei da Escócia.
A diretora Inês Bushatsky e o dramaturgo João Mostazo já tinham absorvido a estética drag em “Rei Lear”, encenada em 2024. O projeto cresceu. E, para mim, se “A Megera Domada” ou “Romeu e Julieta” são possibilidades felizes de adaptação, a opção do grupo por recriar esta “representação do mal” pode dialogar com nosso cenário político.

O humor que move o texto (“Macbeth? O meu nome também é Beth!”), os figurinos coloridos, o bate-cabelo, as geniais espadas feitas de leque, as perucas e a maquiagem do elenco irretocável não desmancham o drama. Ao contrário, por mais que o público gargalhe, ainda é uma trama fúnebre em que o desejo de fazer o mal em nome do poder implode o bem-estar do reino.
Então, dá pra enxergar, nesse modo de representar o maligno, uma relação com a maneira como os programas de humor exploram figuras extremistas como Jair Bolsonaro ou Donald Trump. Exagerados e cômicos, esses homens foram muitas vezes tratados como algo engraçado e, talvez, tenha faltado urgência para entender que rir deles era diferente de impedi-los de prosperar.
A dramaturgia inteligente de Mostazo, obviamente, não expõe essa leitura. Há dor e culpa na história e, sobretudo, no jogo “em que a ambição, o medo e a tentativa de controlar o futuro conduzem as personagens a situações extremas.” Mas ter visto a montagem no dia 24 de outubro, um dia antes do segundo turno das eleições no Brasil, e depois assistir à fuga do candidato derrotado — atolado até o pescoço em diversas suspeitas de crimes — tira essa versão de Macbeth das sombras. Até onde alguém é capaz de ir para escapar das consequências do próprio poder?
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Aliás, a iluminação de Nicolas Marchi cria cômodos escuros e portas invisíveis por onde os personagens entram e saem, ora como fantasmas, ora como reflexos. É um trabalho lindo, acompanhado por um cenário e adereços que jamais roubam a força da cena que está concentrada no texto e no que é dito pelas artistas. A limpeza da interpretação de Alexia Twister no solilóquio final de Macbeth exemplifica o manejo de Inês e Mostazo para manter o peso da tragédia. O silêncio do público durante nessa parte do espetáculo foi inesquecível.

Em outro ótimo momento da peça, o fantasma de Banquo faz um lip sync de “Lama”, canção interpretada por Núbia Lafayette. A linguagem drag amplifica as convenções que orientam a representação das personagens. Então se gênero, autoridade e representação deixam de parecer tão naturais, o poder revela seu caráter teatral. Nós reconhecemos a poker face dos personagens. Sim, essa trama de Shakespeare é conhecidíssima. Mas, fora dos palcos, se um assassino se autoproclamar rei, você vai rir do absurdo ou pagar pra ver?
FICHA TÉCNICA
Direção e idealização: Ines Bushatsky
Texto e codireção: João Mostazo
Elenco: Alexia Twister, Antonia Pethit, DaCota Monteiro, Ginger Moon, Lilith Prexeva, Maldita Hammer, Mercedez Vulcão, Thelores, Xaniqua Laquisha
Figurino e visagismo: Salomé Abdala
Cenário: Fernando Passetti
Iluminação: Nicolas Marchi
Trilha sonora e desenho de som: Gabriel Edé
Adereços e bonecos: Matias Ivan Arce
Perucas: André Góes
Contrarregragem e cenotécnica: Cauê Gouveia, Diego França, Matias Ivan Arce
Microfonista: Viviane Barbosa
Operação de som: Gabriel Edé
Colaboração de trilha sonora: Ines Bushatsky, João Mostazo, Xaniqua Laquisha
Assistência de iluminação e operação de luz: Karen Mezza
Assistência de adereços: Josefina Siro, Paulina Olgin
Assistência de figurino: Sissa Eisele, Giulianna Menegasso
Costura e modelagem: Salomé Abdala, Gilda Peixoto
Calçados: Porto Free Calçados, Au Botieur
Luvas: ControllU Atelier
Impressão de objetos: Rico3D
Apoio de maquiagem: Catharine Hill
Fotos: Gabriel Marques, Tetembua Dandara
Arte gráfica: Lidia Ganhito
Redes sociais: Mariana Marinho
Direção de produção: Tetembua Dandara
Produção executiva: Iolanda Sinatra
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Criação: Cia. Extemporânea
Direção geral: Ines Bushatsky e Joao Mostazo

