É um gramofone que está no centro do palco de “Eu sou minha própria mulher”, no Teatro Faap, em São Paulo. Mas, ao contrário de alguma boa música ou melodia familiar, o que todos nós vamos ouvir ao longo do espetáculo será o som de sirenes.
Na peça, o próprio autor, Doug Wright, é personagem e conta como foi arrebatado e imbuído a escrever a história verídica de Charlotte von Mahlsdorf, uma travesti alemã que viveu os horrores da Segunda Guerra e a ardência comunista que sucedeu o período.
Quem interpreta Doug, Charlotte e mais de 15 outros personagens é Edwin Luisi. E é brilhante sua forma de criar tipos, vozes, características particulares, a ponto de o público distinguir essa multidão sem jamais se confundir. Reconhecemos a fúria do pai de Charlotte em sua boca torta tão rapidamente quanto a doçura e o espanto da tia de Charlotte ao ver a sobrinha vestindo roupas femininas pela primeira vez. Há uma certa anarquia em John, amigo de Doug que mora em Berlin, e o ator consegue até nos fazer sentir o cheiro do suor de Gunter, o primeiro namorado de Charlotte.

O trabalho para criar tantos tipos diferentes é cuidadoso e, sobretudo, econômico. Mas é na sofisticação do texto que a caracterização de Luisi transforma o figurino em pedaço do corpo: o colar de pérolas que Charlotte usava. Ela não gostava de se maquiar. Isso preservava suas características masculinas sem difamar sua feminilidade. Então, é a força do texto de Wright, sua investigação enquanto artista, seu fascínio e sua fantasia em criar tais tipos que garantem à interpretação do ator o poder de ocupar esses corpos em cena genuinamente. Multifacetada, a dramaturgia pode ser liderada por um homem, uma mulher ou uma travesti sem que a história de Charlotte seja abafada.
Peter Brook escreveu em “O Espaço Vazio” que os ritmos de cada personagens são tão distintos quanto impressões digitais. Então esse cuidado em destacar “a voz” da história, independentemente do corpo que vai recebê-la, também pode ser visto na direção de Herson Capri, que manobra muito bem o texto, o espaço e os gestos de Luisi. Assim como a cenografia, a trilha e o desenho de luz prezam pela elegância do que o ator faz em cena.
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Durante a guerra, Charlotte foi dona de um museu de móveis. Depois, de um cabaré clandestino que servia de abrigo para a população LGBT daquela época, em Berlim. É interessante como essas duas atividades se complementam, como se ela assumisse a posição de guardiã de uma casa, de um lugar seguro para que as histórias das pessoas ordinárias tivessem onde morar. Sem móveis, a casa fica vazia. Sem pessoas como Charlotte, a sociedade se sentiria assim?
Em vez de responder do jeito mais fácil, o espetáculo aprofunda o drama da protagonista, seus relacionamentos clandestinos, sua resistência à perseguição nazista, sua coragem em enfrentar o pai e seu modo de sobreviver mesmo quando o conflito já tinha passado. Charlotte é uma personagem contraditória, o que só aumenta o fascínio por ouvir sobre sua vida. Ela era sua própria mulher.
Ao lado do teatro, a Faap está com a exposição Miró: Mestre das Formas. E a mulher talvez seja o elemento, por assim dizer, mais retratado na obra do artista catalão. Para ele, elas eram galáxias, um tipo de forma capaz de abarcar dores, sofrimentos, fantasias e sonhos. Miró não riscava as formas exatas do corpo feminino. Suas criações são oníricas. Ora assustadoras, ora mágicas.
Miró e Charlotte jamais devem ter trocado uma só palavra. Mas, diante de tamanha opressão, foi ela que precisou encontrar a forma de se transformar na sua própria mulher, de riscar sua fantasia com as cores que tinha à mão, ser sua própria obra.

Depois de quase 20 anos, “Eu sou minha própria mulher”, esse belo espetáculo, voltou aos palcos para nos lembrar de lembrar. Nossa memória pede abrigo e escuta. O mundo está muito diferente desde a primeira vez em que a peça foi encenada. Novas guerras aconteceram. Novas perseguições, também. As duas mesas que compõem o palco – uma de cada lado – sintetiza o tipo de situação que enfrentamos. E, com o Brasil à beira de um novo precipício político, com a arte e os artistas sendo atacados pela extrema-direita, ver Edwin Luisi sozinho no palco, sem patrocínio, equalizando tantos personagens, sendo um deles uma travesti, faz barulho.
O teatro é como um gramofone. Em qualquer época ou lugar, é preciso girá-lo para que vozes como a de Charlotte possam ser ouvidas.
Ficha Técnica:
Texto: Doug Wright
Direção: Herson Capri
Atuação: Edwin Luisi
Assistente de Direção: Cláudio Andrade
Cenário e Figurino: Marcelo Marques
Iluminação: Aurelio de Simoni
Trilha Sonora: Paulo Arruzzo
Fotos: Lívio Campos
Programação Visual: Júlia Barros
Produção: Edwin Luisi Produções Artistícas
Produtor: Cláudio Andrade
Produção – SP: Gerardo Franco

