Hollywood teve David Lynch e nós temos o Guto Parente. E agora, mais do que nunca, neste baque apocalíptico que sentimos no Brasil, é preciso apreciar as obras do nosso cinema, porque um período de trevas para o nosso audiovisual vem se anunciando.
É sobre a contraposição entre trevas e luz que o cinema de Guto Parente versa com uma poética envolvente. Desde Estranho Caminho (2023), além de outros títulos da sua filmografia, é muito evidente na sua linguagem o interesse pelos mistérios que perambulam entre vida e morte, nascimento e óbito, o real e o onírico, pais e filhos, a presença e a ausência.
Morte e Vida Madalena já revela esse interesse do diretor no próprio título. E aqui, assim como em Estranho caminho, há a ausência de um pai, cujo funeral dá início ao enredo: Madalena se despede do seu progenitor assumindo o propósito de produzir o filme que ele escreveu e tinha a intenção de dirigir. A dualidade prevalecente no filme, portanto, é a oscilação entre realidade e ficção.
Madalena, interpretada pela incrível Noá Bonoba, está gestante, de modo que o processo que acompanhamos no longa é toda a jornada de dar à luz não só a uma obra de arte, mas também a uma vida humana. A metalinguagem cinematográfica, da forma como é usada, permite sorver o melhor do estilo de Parente, que intercala ao longo da trama momentos da vida “real” e momentos da vida criada pelas câmeras no filme produzido por Madalena.
Embora este longa tenha inúmeros elementos dignos de atenção, a generosidade do diretor merece destaque. Enfrentando todos os desafios da produção de um filme, Madalena também precisa encontrar um diretor, alguém a quem possa confiar a missão de contar a última história que seu pai queria apresentar ao mundo. É engraçado como a protagonista oferece o cargo a três pessoas em uma mesma sequência, com o mesmo argumento para todas: “Só você é capaz de dirigir esta obra”.
A generosidade de Guto Parente, que dirigiu e escreveu Morte e Vida Madalena, se vê aqui na forma como ele reconhece a importância fundamental da produtora de um filme e, ao mesmo tempo, ri do seu próprio papel como um suposto artista supremo da obra de arte fílmica. Parente, que realiza seus filmes em parceria com Ticiana Lima, sua produtora e companheira de vida, sabe que o olhar conceitual e artístico do diretor nunca viria a ser nem se concretizaria em uma obra de fato sem todo o trabalho da produção.
Entre cenas que misturam o onírico e o real, Guto Parente é um diretor generoso não só com seus colegas de trabalho, mas também com seu público, pois entrega sequências em que é o espectador quem tem a liberdade de construir sentidos. E, mesmo percorrendo contextos que chegam à soturnidade e ao medo, o filme não abandona uma verve irreverente, nutrida por um humor que delicia a experiência, sobretudo e justamente nos conflitos que se estabelecem entre a visão pragmática de Madalena e a atuação mais tresloucada e visceral do diretor, cujas escolhas fogem do que a produtora pensa para o filme.
Nesse embate, também nos é dado a ver de forma poética como um filme cria vida a partir de uma ideia e toma forma tanto no plano artístico quanto no plano do possível ou “realizável”.
É um filme que vale a pena ser visto pela apreciação do que ainda há de fresco e de qualidade máxima no cinema brasileiro, e também para pensar na questão para a qual você só será capaz de formular uma resposta depois de assistir ao longa: “será mesmo que o Stanley Kubrick não enfiaria um braço no próprio c*?”
Minha nota para Morte e vida Madalena no Letteboxd: 4 estrelas.
Morte e vida Madalena
Direção e roteiro: Guto Parente
1h26

