Em Torre Global: o Demente, Roberto C Véras J constrói uma narrativa de ficção especulativa a partir da trajetória de Snemed, um homem que passa vinte anos no presídio de Gibraltar sem memória de sua própria história. Durante esse período, flashes do passado e visões do futuro permeiam sua experiência. A transferência para um manicômio em Lisboa inicia o processo de reconstrução de sua trajetória e conduz a narrativa ao período em que Snemed trabalhou como executivo na Torre Global.

A Torre Global é parte da estratégia de um sultão do Oriente Médio que pretende criar um sistema econômico para suplantar o capitalismo. Esse novo modelo é o virtualismo. Para colocá-lo em funcionamento, o sultão funda Fajar, um país no deserto de Omã, onde constrói um edifício voltado ao entretenimento e para experiências de milionários do mundo todo.
Ao longo de Torre Global: o Demente, porém, o prédio passa a assumir outras funções. Sua tecnologia interfere na percepção dos indivíduos, enquanto a inteligência artificial desenvolvida em seu interior amplia sua presença na vida social. A circulação de riquezas em Fajar também produz mudanças na distribuição de renda e na organização econômica mundial.
É nesse cenário que se desenvolve a história de Snemed. Antes de perder a memória, ele trabalhou na Torre Global e participou de decisões importantes na implantação do virtualismo. No entanto, ele sucumbe a certas tentações e o próprio sultão determina sua saída. A partir dessa ruptura, a trajetória de ascensão e queda do personagem passa a se relacionar diretamente com as transformações da Torre.
“Desde que chegou a Gibraltar, ouvia que com dez anos preso era impossível não flertar com a loucura. Quinze, então, nem se fale. Estava diante do inevitável, portanto. Do irremediável. Era o destino ao qual estava fadado. Semed temeu. Será que a demência o tempo todo esteve neste ponto da sua vida, pacientemente aguardando-o chegar aqui, pronta para o engolir?” (p. 321)
Além disso, Roberto C. Véras J. dedica parte da narrativa à construção desse universo. A ambientação envolve instituições, relações entre nações, sistemas econômicos e diferentes mecanismos de funcionamento da Torre Global. Esse detalhamento faz com que o espaço ficcional tenha papel importante no desenvolvimento da história. Dessa forma, a Torre atua como uma construção que concentra elementos que sustentam os conflitos apresentados no romance.
Sob essa perspectiva, o dinheiro constitui um dos principais eixos de Torre Global: o Demente. O virtualismo permite ao autor explorar questões relacionadas à circulação da riqueza e à organização das economias, além da influência dos sistemas monetários sobre as relações sociais e políticas. A discussão acompanha a trajetória de Snemed e amplia a narrativa para uma dimensão coletiva, na qual decisões financeiras produzem efeitos sobre indivíduos. Ainda há a tecnologia como outro eixo fundamental do livro.

A inteligência artificial da Torre Global passa de recurso tecnológico a mecanismo que interfere diretamente na sociedade, aproximando o romance de discussões contemporâneas sobre autonomia. Roberto C Véras J utiliza esse elemento para explorar as consequências de uma tecnologia capaz de participar da organização da vida coletiva e alterar as relações entre indivíduo e sistema.
“Mas, como sempre, resignou-se. Suas escolhas o fizeram trilhar outro caminho. O assunto já estava digerido. E no fundo, ler nos jornais estas histórias dignas de distopias era o que lhe restara. Conjecturar sobre o domínio voraz de Fajar era um expediente até prazeroso.” (p. 317)
As referências declaradas pelo autor também ajudam a situar o projeto literário. Roberto C. Véras J. aponta Carlos Castaneda, com a sabedoria do xamanismo tolteca, além de Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo. Essas referências dialogam com questões presentes em Torre Global: o Demente, como consciência, organização social, tecnologia e futuro.
Assim, a obra retrata a trajetória individual de Snemed a questões de alcance econômico, político e tecnológico. A perda de memória do personagem estabelece o ponto de partida para uma narrativa que reconstrói seu passado ao mesmo tempo em que apresenta os meandros da Torre Global. Roberto C Véras J também constrói uma obra voltada à imaginação de futuros possíveis a partir de questões atuais da nossa realidade.
Sobre o Autor
Roberto C. Véras J. nasceu em São Paulo e sempre se interessou por temas ligados ao desenvolvimento humano, sobretudo do ponto de vista espiritual e social. Suas principais referências são Carlos Castañeda, com a sabedoria do xamanismo tolteca, e Aldous Huxley, através de seus ensaios e de sua consagrada distopia “Admirável Mundo Novo”.
É também conselheiro da UNESCO-SOST Transcriativa e participou da COP-26 e da COP-27, integrando painéis sobre transição energética e economia circular. Em Torre Global, o autor usou de sua experiência e pesquisa multidisciplinar para criar a obra de ficção, sendo que as ideias para esse livro foram desenvolvidas desde 2002.

