Em O outro lado das redes, o roteirista e diretor Aaron Sorkin diz não querer especular sobre o que se passa na mente de Mark Zuckerberg. Mas ele parece não saber nem o que se passa na mente dos próprios personagens.
Se o metaverso não deu a Mark Zuckerberg o sucesso esperado, Aaron Sorkin deu ao CEO da Meta um universo cinematográfico. O outro lado das redes (2026) é algo como um novo capítulo da saga iniciada em A rede social (2010), sobre a criação do Facebook. Mas a narrativa bem articulada e as discussões instigantes do primeiro filme não reaparecem, e fica a dúvida sobre a necessidade dessa sequência.
O mundo hoje sabe melhor, ou deveria saber, quem é Zuckerberg. Então, é natural que um novo filme sobre ele não cause o frenesi de 2010. Esse, porém, é o menor de seus problemas.
A trama, ambientada entre 2019 e 2021, acompanha o caso, baseado em fatos, de Frances Haugen, ex-gerente de produto da equipe de integridade cívica do Facebook. Ela vazou documentos internos ao Wall Street Journal mostrando que a empresa sabia que seus algoritmos provocam e impulsionam desinformação e extremismo entre seus usuários.
É um contexto sem qualquer novidade, mas o seu desenrolar entretém bem pelas quase duas horas de um filme bem-humorado e simpático. E isso incomoda, mas não da forma como deveria.

Ironicamente, o longa chega ao Brasil no período das eleições presidenciais, quando os algoritmos tendenciosos da Meta se fazem notar diariamente pela disseminação de desinformação e discursos de ódio. Em 2020, o documentário O dilema das redes (Jeff Orlowski) já tinha explicado de forma bem objetiva como essas plataformas funcionam e, desde então, aprendemos cada vez mais sobre os seus mecanismos.
Portanto, sabemos que se trata de uma realidade trágica. O filme, porém, não se esforça para revelar seus aspectos mais aterrorizantes da forma como somente a ficção seria capaz de fazer.
Sem David Fincher, que dirigiu A rede social, Sorkin assume também a direção. Ele parece tentar evitar o destino de Spotlight (2015), o vencedor do Oscar que foi eficiente ao expor os abusos cometidos pelos padres em Boston, mas pouco relevante no apreço popular. Assim, o que ele entrega é um filme que a todo momento acena ao público em busca de aprovação.
Até a atuação de Mikey Madison fica confinada a uma visão estereotipada de Frances Haugen: a mulher da área tecnológica, sem traquejo social. Ainda assim, a expectativa em torno de seu primeiro papel após o Oscar por Anora (2024) não é de todo frustrada. Madison confere bastante química à relação de Haugen com o repórter Jeff Horwitz, responsável por revelar os “Facebook Files”.
Vivido por Jeremy Allen White, que finalmente escapa do perfil misterioso e hipersensível que costuma interpretar, Horwitz protagoniza com Haugen as partes mais agradáveis do filme. Só que esse é, na verdade, outro problema: os dois ficam presos a diálogos e situações que lembram mais um episódio de Friends do que uma trama sobre fatos perturbadores que afetam bilhões de pessoas em todo o mundo.

Esperávamos um thriller investigativo sombrio, mas o que recebemos é o tipo de história para ver durante o jantar, para rir de piadas “inteligentinhas” e frases que ninguém diria numa conversa real. Além disso, há uma espécie de fan service com um pretexto totalmente artificial para Haugen aparecer em roupas elegantes e sensuais nos seus encontros estritamente confidenciais com o Horwitz.
A escolha de Jeremy Strong para Zuckerberg é um dos poucos acertos do filme. Ator de método, Strong compõe com precisão a figura tensa, sem emoção e sem carisma do CEO. Parece uma caricatura? Certamente! Mas essa é a persona pública que nós conhecemos do próprio Zuckerberg: inflexível, robótico e desprovido de qualquer característica passível de identificação com outro ser humano. Contudo, até o personagem que é uma caricatura de si fica refém da forçação de barra do roteiro. Nem mesmo a atuação sempre impecável do eterno Kendall Roy foi capaz de emplacar um comentário tipo “que porra de integridade cívica!”
Sorkin declarou não ter a intenção de especular sobre o que se passa na cabeça de Zuckerberg. Talvez fizesse mais sentido dizer que ele não sabe especular nem sobre a mente dos próprios personagens.
E então parece que esse projeto é uma oportunidade perdida. Afinal, quando um homem poderoso deliberadamente comete erros terríveis que afetam bilhões de pessoas, e até mensura esse impacto por meio de relatórios precisos, seria interessante, sim, especular o que se passa em sua mente. Mais do que isso, seria válido dar corpo e imagem à perversidade das suas ideias. O cinema é o lugar para dar forma a essa imaginação e ajudar o público a se posicionar diante das situações. (Quem sabe o Cronenberg tenha que dirigir um próximo filme sobre a Meta).
Em O outro lado das redes, o espectador não é convidado a se posicionar. Ele é chamado apenas para rir da própria desgraça. Afinal, o que mais se pode fazer? Bem, talvez a gente possa fazer mais.
Minha nota para O outro lado das redes no Letterboxd: 2 estrelas e meia.
The social reckoning (2026)
Roteiro e direção: Aaron Sorkin
1h52

