Quando o teatro brasileiro começa a evoluir em busca de uma identidade e um público, Ziembinski (1908 – 1978) diretor polonês naturalizado brasileiro e um dos grandes responsáveis pela renovação do teatro no Brasil, sugere às companhias de teatro que produzam mais dramaturgias brasileiras. Ao assistir Aldeotas temos clareza de por que são necessárias dramaturgias que nos representem em cena.
Aldeotas acompanha a trajetória de amizade entre Elias e Levi, da infância à velhice. Crescidos em uma pequena cidade do interior, os dois compartilham sonhos, descobertas e afetos enquanto enfrentam o preconceito e as limitações impostas pelo lugar onde vivem. Unidos pelo desejo de construir uma vida melhor na cidade grande, eles percorrem uma jornada marcada por amor, perdas, memórias e pela força dos laços que resistem ao tempo.

A dramaturgia de Gero Camilo é uma das mais tocantes que vi nesse ano. Sua estrutura dramatúrgica não segue a linearidade convencional. Aldeotas utiliza um recurso de metateatro ao inserir uma peça dentro da peça: Levi, um poeta que saiu da pequena cidade, envia a Elias, seu amigo de infância que permaneceu no interior, um texto teatral que recorda as peripécias da dupla. Esse recurso de metalinguagem permite que o passado seja revivido em cena, com a narrativa sendo conduzida por fragmentos de memória, em vez de uma progressão cronológica rígida.
Ao se colocar como narrador, Levi passa por temas profundos e universais, como amizade e afeto, e o conflito entre permanecer na aldeia e partir para o mundo para realizar seus sonhos. Dentro dessa narrativa, a memória não é apenas um recurso nostálgico, mas uma ferramenta com a qual é possível ressignificar suas vivências. Assim, a dramaturgia ganha densidade emocional e sofisticação formal, pois articula temas universais a um dispositivo teatral que problematiza o próprio ato de lembrar e narrar, tornando a jornada de Elias e Levi tocante e teatralmente potente.
A qualidade do elenco de Aldeotas é marcada por uma força coletiva exemplar: embora a dramaturgia seja construída para dois personagens, os dez atuantes em cena alternam-se como Levi e Elias, de modo que todos assumem, em algum momento, as duas figuras, o que exige versatilidade, escuta e um senso de conjunto que impede qualquer hierarquia ou protagonismo isolado. É quase impossível destacar uma performance individual, pois o conjunto é extremamente sólido e homogêneo, não apenas por boas atuações, mas porque cada artista expõe seus recursos — interpretação eficiente, trabalho físico bem desenhado que ajuda a construir as imagens do texto e uma performance musical impressionante, com instrumentos ou canto. Assim, o elenco se afirma como um grupo de jovens artistas que, encontrando uma boa dramaturgia, faz dela um espaço privilegiado de expressão artística, unindo atuação, corpo e música em favor da cena.


A qualidade técnica de Aldeotas apresenta uma sofisticação na economia: a mise-en-scène é simples, mas funcional e coerente com a proposta da encenação, usando poucos elementos — cadeiras para os atores fora de cena e instrumentos musicais — de modo que o vazio cênico não empobrece, mas potencializa o jogo. O figurino branco e neutro viabiliza a alternância dos intérpretes entre Levi e Elias, ao mesmo tempo que estabelece um pacto claro com o público por meio de signos precisos, como o boné e o suspensório, que permitem identificar os personagens durante a troca. Já o desenho de luz, com tons azuis e frios, contribui para criar uma atmosfera que remete à infância, articulando-se à memória e à fragmentação narrativa. Assim, a técnica do espetáculo não se impõe como excesso, mas como conjunto de escolhas econômicas e significativas que sustentam a teatralidade e a potência cênica da montagem.
A direção de Clayton Nascimento em Aldeotas firma-se por uma personalidade cênica marcada e reconhecível: ao estabelecer um pacto com o público e propor interação com o espectador, ele constrói uma encenação de cumplicidade, na qual a plateia não é apenas observadora, mas parte do jogo. O uso de recurso cômico não é gratuito, e sim estratégico, conduzindo a experiência até uma catarse final. Assim como em Macacos, o atravessamento se mantém, revelando coerência poética, sensibilidade na condução emocional e uma direção que imprime identidade ao espetáculo.
Se, como queria Ziembinski, o teatro brasileiro precisa de dramaturgias que nos representem, Aldeotas responde a esse chamado com força: ao encenar afetos, memórias, preconceitos e violências de uma pequena cidade interiorana, o espetáculo transforma a dor em experiência estética e política, afirmando a potência de uma linguagem teatral brasileira. A dramaturgia de Gero Camilo, a entrega coletiva do elenco, a economia expressiva da técnica e a direção singular de Clayton Nascimento constroem uma montagem madura, sensível e necessária, capaz de nos atravessar e de nos devolver, pela catarse, a consciência de quem somos e do que ainda precisamos transformar. Assim, Aldeotas não é apenas um espetáculo sobre duas vidas: é um espelho e um gesto de resistência, confirmando por que precisamos contar e ver nossas próprias histórias em cena.
FICHA TÉCNICA
ELENCO:
André Eugênio
Elli Gerbi
Evelyn Maia
Gabriel Amaral
Julianne Hamaoka
Lara Arvati
Leticia Ambrósio
Luiza Barros
Sophia Alves
Steffi Conidi
DIREÇÃO:
Clayton Nascimento
TEXTO:
Gero Camilo
ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO:
Julia Miranda
Beatriz de Franco
Rafael Tadeu
DIRETORA DE PRODUÇÃO:
Sophia Alves

