O novo livro da poeta retoma a terceira parte de seu premiado livro de estreia, breve ato de descascar laranjas, reforçando sua poética azul através das zonas de tensão da psique, do confinamento e da liberdade e investigando, na linguagem, as possibilidades de reconstrução do mundo.

O lançamento da Macabéa Edições, Livro de reza, faz da poesia uma prática quase religiosa de elaboração da linguagem. Rezar, no livro, é uma palavra que convoca diferentes significados: ordenar o pensamento, criar ritmos para habitar a vertigem e inventar uma maneira de dizer o silêncio.
A pré-venda vai até o dia 2 de outubro, e o lançamento-festa acontece no dia 9 de outubro, às 19h30, no Cazota Bar, na Lapa, no Rio de Janeiro. As datas dos lançamentos em Belo Horizonte e em São Paulo serão divulgadas posteriormente.
Dividido em três partes — “o hospital é a casa”, “coice de cavalo na cabeça” e “a casa é o hospital” —, o livro se organiza a partir de uma estrutura cíclica, que remete à reincidência da internação psiquiátrica. Na primeira parte, os poemas atravessam a rotina das internas, suas relações de cumplicidade, a hierarquia e o controle dos corpos psiquiatrizados. Retorna também a forma geométrica do quadrado, em referência ao conto O quadrado de Joana, de Maura Lopes Cançado, e traz personagens do breve ato de descascar laranjas, como Enir, mescladas a figuras novas e a personagens trazidas de Sereias do hospício, de Rafael Julião, como Regina, a catatônica.
A segunda parte produz uma cisão: é composta por um único e longo poema-lista, construído a partir de razões para a internação psiquiátrica de mulheres entre 1864 e 1889. Já a terceira é permeada por poemas breves, atravessados por entreouvidos e diálogos coletados no espaço do hospital. Ao final, o último poema devolve o leitor ao primeiro, reforçando o caráter uróbórico da obra.
Construído como uma complexa arquitetura de vozes, Livro de reza tensiona as fronteiras da lucidez, da linguagem e da formação da própria identidade. O tom de azul insiste em retornar — tanto nos versos quanto no projeto gráfico —, fazendo jus ao tema da saúde mental e os uniformes azuis.
Entre as referências centrais está Stella do Patrocínio, cujo Falatório, registrado ao longo de décadas de institucionalização psiquiátrica, desestabiliza as distinções entre testemunho, pensamento e poesia. É de Stella a pergunta que dá origem ao título do livro, feita diante do gravador que registrava sua fala: seria aquilo “um livro de reza”? A obra também evoca a escrita de Maura Lopes Cançado e de Lima Barreto, cujos relatos do confinamento manicomial expõem com agudeza as violências de instituições e discursos empenhados em definir, controlar e domesticar aquilo que nomeiam como loucura.
No posfácio, Sara Ramos observa que o diálogo com Stella ultrapassa a referência direta e alcança a própria arquitetura da obra: “Quanto mais avançava na leitura, mais percebia que o diálogo entre as duas obras acontecia em outro nível: para além de uma presença intertextual, o Falatório também ecoa na espinha estrutural do livro.”
No campo das artes visuais, destacam-se a pesquisa cromática de Yves Klein, o universo felino de Louis Wain e as obras de Aurora Cursino dos Santos, Emma Hauck, Adelina Gomes, Emygdio de Barros, Octavio Ignacio, Carlos Pertuis e Fernando Diniz. A presença de Nise da Silveira atravessa esse conjunto pelo reconhecimento da criação artística como forma legítima de elaboração da experiência e reorganização da vida.
Como escreve Rafael Julião no texto de orelha, “o livro se inscreve em uma linhagem de autoras (e autores) que, movendo-se de um lugar passivo de nomeação, assumem suas agências na criação dos mundos”.
Sem romantizar o sofrimento psíquico ou a internação, a poeta ausculta os processos pelos quais determinados discursos são afastados do convívio social e, ao mesmo tempo, reconhece a potência inventiva que escapa às formas convencionais de sentido. Livro de reza dá continuidade à poética inaugurada em breve ato de descascar laranjas, aprofundando a exploração das relações entre corpo, mente e linguagem. Mescla falatório, delírio, arquivo, memória, sonho — possíveis caminhos construídos pela literatura de urgência.
Serviço
Pré-venda: de 1º de setembro a 2 de outubro
Lançamento-festa: 9 de outubro, às 19h30
Local: Cazota Bar — Av. Mem de Sá, 126, Lapa, Rio de Janeiro
Editora: Macabéa Edições
Lançamentos em São Paulo e Belo Horizonte: datas a serem divulgadas
Sobre a autora

Bianca Monteiro Garcia nasceu em 1994, no subúrbio do Rio de Janeiro, onde vive desde então. Em 2019, tornou a Macabéa Edições uma editora independente, atuando como diretora editorial e editora. Publicou, em 2023, seu livro de estreia, breve ato de descascar laranjas, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Escritor Estreante — Poesia.
Em seguida, foi incluída na lista Forbes Under 30 como uma das personalidades de relevância no meio literário. No mesmo ano, representou a jovem poesia brasileira no World Poetry Day Festival, de Washington. Seus poemas já foram traduzidos para o espanhol e para o tcheco e publicados em revistas como Círculo de Poesía, Altazor, La Otra, Esteros e PLAV. Seu primeiro livro está atualmente em processo de tradução para o espanhol. Livro de reza é seu segundo livro de poesia.

