Mais de 1.200 palestinos foram mortos por Israel desde o cessar-fogo firmado em outubro de 2025. Especialistas das Nações Unidas denunciam ataques contra hospitais, abrigos e áreas residenciais, restrições à entrada de alimentos e uma transformação forçada da geografia do território palestino
Dez meses depois da assinatura de um cessar-fogo que deveria interromper os ataques israelenses contra a Faixa de Gaza, palestinos continuam sendo mortos. Em declaração conjunta divulgada nesta segunda-feira, 19 especialistas independentes das Nações Unidas foram diretos: “o genocídio continua”.

Mais de 1.200 palestinos foram mortos por Israel desde a entrada em vigor do acordo, em outubro de 2025, segundo os dados citados pelos peritos. Somente em julho, forças israelenses mataram cerca de 160 pessoas na Faixa de Gaza.
A declaração é assinada pela relatora especial da ONU para a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, e por outros 18 especialistas das Nações Unidas.
Os peritos chamam atenção especialmente para o local onde essas mortes vêm acontecendo. Segundo eles, a maioria das vítimas registradas nos últimos dez meses estava em áreas densamente povoadas por palestinos deslocados internamente e distantes da chamada “linha amarela”, que demarca as posições ocupadas pelas forças israelenses dentro do enclave.
O documento denuncia ainda a destruição de áreas residenciais inteiras. Quarteirões recebem ordens de evacuação pouco antes de serem bombardeados e demolidos, obrigando uma população já deslocada repetidas vezes desde outubro de 2023 a abandonar novamente os poucos lugares onde conseguiu se instalar.
“O avanço contínuo para oeste da chamada ‘linha amarela’, a construção de uma barreira de 23 quilômetros ao longo da mesma e a demolição sistemática de edifícios residenciais estão remodelando à força e através de deslocações a geografia de Gaza”, afirmaram os especialistas.
Não se trata, portanto, apenas da continuidade das mortes depois de um cessar-fogo. A denúncia aponta para uma transformação física do território palestino por meio da destruição de moradias e do deslocamento de seus habitantes, em um enclave cuja infraestrutura civil já foi devastada ao longo de quase três anos de ofensiva israelense.
Ataques continuam apesar do cessar-fogo
Os especialistas da ONU também condenaram ataques israelenses contra hospitais e abrigos, além do assassinato de policiais e funcionários contratados pelas Nações Unidas. A declaração menciona ainda investidas contra pescadores palestinos e denúncias de sequestros e abusos praticados por grupos armados que, segundo diferentes relatos, colaboram com as forças israelenses.

A situação alimentar é outro ponto central do documento.
Mesmo após a assinatura do cessar-fogo, a ajuda humanitária não consegue entrar livremente na Faixa de Gaza. Os produtos que chegam à população através de canais comerciais são, segundo os peritos, predominantemente ultraprocessados e nutricionalmente inadequados.
A escassez ocorre em um território cuja capacidade de produzir, armazenar e distribuir alimentos foi profundamente destruída. Desde 2023, restrições à entrada de ajuda e mercadorias, deslocamentos sucessivos e a destruição de infraestrutura civil tornaram o acesso a comida, água potável, medicamentos e serviços básicos parte inseparável da catástrofe imposta à população palestina.
Os números divulgados nesta segunda-feira pelas autoridades de Gaza ajudam a dimensionar o significado bastante limitado que o cessar-fogo adquiriu para quem vive no território.
Segundo as autoridades locais, 1.258 palestinos foram mortos e mais de 4.145 ficaram feridos em função direta de ataques israelenses desde outubro de 2025. Outros 807 corpos foram recuperados dos escombros no mesmo período, consequência da destruição em larga escala de edifícios e bairros inteiros durante os ataques anteriores.
O cessar-fogo, em outras palavras, interrompeu formalmente uma etapa da ofensiva. Não interrompeu a morte de palestinos.
Gaza continua sem solução política
A continuidade dos ataques acontece enquanto permanece indefinido o futuro político da Faixa de Gaza.
A segunda fase das negociações previa uma transformação considerável da situação no território. Pelo plano proposto pelo Conselho da Paz para a Faixa de Gaza, estrutura criada pelos Estados Unidos com acordo da ONU, o Hamas deveria ser desarmado e as forças israelenses realizariam uma retirada gradual.
A proposta incluía ainda a formação de um governo palestino tecnocrático e o estabelecimento de uma força internacional de estabilização.

O projeto, entretanto, foi rejeitado pelo primeiro-ministro israelense, o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu.
No domingo, Netanyahu confirmou que havia recusado o plano de 15 pontos, apesar de ele ter sido aceito pelo Hamas. O primeiro-ministro israelense condiciona qualquer avanço à conclusão do desarmamento das forças de resistência palestinas.
A decisão mantém sem resposta uma questão que acompanha a destruição de Gaza praticamente desde o início: o que restará do território e quem poderá governá-lo quando os ataques terminarem.
A denúncia apresentada agora pelos especialistas da ONU acrescenta outra dimensão ao problema. A movimentação da “linha amarela”, a construção de uma barreira de 23 quilômetros e a demolição sistemática de edifícios indicam uma alteração concreta da geografia do enclave.
Para os palestinos, isso significa que deslocamentos inicialmente apresentados como medidas temporárias podem transformar-se em fatos permanentes.
Desde outubro de 2023, famílias inteiras foram obrigadas sucessivamente a deixar casas, bairros, escolas convertidas em abrigos e campos de refugiados. Cada deslocamento acontece dentro de um território mais destruído e com menos espaços disponíveis para uma população de milhões de pessoas.
Quase três anos de destruição
Desde o início da ofensiva em 2023, mais de 73 mil palestinos foram mortos, segundo as autoridades locais, embora outras estimativas indiquem números ainda maiores. Centenas de milhares foram deslocados, e praticamente toda a população do enclave foi afetada pela destruição de casas, serviços públicos e infraestrutura indispensável à sobrevivência.

Hospitais, escolas, universidades, edifícios públicos, redes de saneamento e abastecimento, instalações de saúde e bairros residenciais foram destruídos ou danificados. Para milhões de palestinos, sobreviver passou a depender de um sistema de ajuda humanitária cuja entrada no território é, ela própria, submetida a severas restrições.
A devastação também compromete qualquer possibilidade de reconstrução rápida. Gaza não precisa apenas de novas casas; será necessário reconstruir hospitais, escolas, universidades, redes elétricas, sistemas de água e saneamento, estruturas administrativas e praticamente todas as instituições das quais depende a existência cotidiana de uma sociedade.
A destruição dessas estruturas não termina quando os bombardeios diminuem. Seus efeitos permanecem durante anos — e, em alguns casos, gerações.
Um genocídio documentado por organismos internacionais
A declaração não inaugura a classificação das ações israelenses em Gaza como genocídio dentro do sistema das Nações Unidas.
Em 2025, uma Comissão Internacional Independente de Inquérito nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU concluiu que Israel havia cometido genocídio contra palestinos na Faixa de Gaza. O governo israelense rejeita a conclusão e nega reiteradamente as acusações.

O genocídio é um crime definido pelo direito internacional desde a adoção da Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio, em 1948. A convenção inclui atos praticados com a intenção de destruir, total ou parcialmente, determinado grupo nacional, étnico, racial ou religioso.
A responsabilização internacional de autoridades israelenses não se limita às conclusões da comissão.
Em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e o então ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, por acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Os procedimentos jurídicos são distintos: os mandados do TPI tratam da possível responsabilidade criminal individual dos acusados, enquanto a determinação jurídica de responsabilidade estatal por genocídio pertence a outra esfera do direito internacional.
Nada disso, entretanto, torna a palavra utilizada pelos especialistas da ONU nesta segunda-feira uma novidade. O que muda é o tempo verbal: os peritos não afirmam apenas que um genocídio aconteceu em Gaza. Afirmam que ele continua.
O cessar-fogo que não interrompeu as mortes
Dez meses deveriam ser tempo suficiente para que a diferença entre uma ofensiva militar e um cessar-fogo fosse evidente. Para os palestinos de Gaza, essa diferença permanece marcada por números que dificilmente permitem falar em normalidade: mais de 1.200 mortos, milhares de feridos e centenas de corpos retirados debaixo dos escombros desde outubro.

Ao mesmo tempo, continuam as denúncias de ataques contra estruturas civis, as restrições à entrada de alimentos e ajuda humanitária, a destruição de edifícios residenciais e o deslocamento de uma população que já atravessou quase três anos sem segurança efetiva em praticamente nenhum ponto do território.
O futuro político de Gaza permanece indefinido. O plano aceito pelo Hamas foi rejeitado por Netanyahu, a retirada gradual das forças israelenses não avançou nos termos propostos e os especialistas das Nações Unidas agora denunciam que a própria geografia do território está sendo remodelada pela ocupação, pela construção de barreiras e pela destruição de moradias.
É dentro desse quadro que deve ser compreendida a frase que abre a declaração assinada pelos 19 peritos.
“O genocídio continua.”
Não como referência apenas aos quase três anos anteriores, nem como uma discussão abstrata sobre o nome adequado para aquilo que ocorreu em Gaza desde outubro de 2023. A denúncia se refere ao presente: aos palestinos mortos depois do cessar-fogo, aos bairros demolidos, aos alimentos que não entram livremente, aos hospitais e abrigos atacados e a uma população continuamente empurrada de um lugar para outro dentro de um território devastado.
O cessar-fogo alterou a intensidade e as condições da ofensiva israelense. Segundo os especialistas das Nações Unidas, não alterou sua natureza.


