Quem disse que um documentário precisa contar o começo, o meio e o fim da vida de uma pessoa? Ora, a vida é caótica e a arte pode imitá-la e ser também desconjuntada. Ao escolher uma cronologia fluida, de música em música em vez de fatos da vida, o documentário “Gonzaguinha: Da Maior Liberdade” consegue pintar um retrato do artista de maneira menos engessada que se costuma fazer no gênero. As entrevistas do músico, aliadas a imagens de arquivo e outras captadas recentemente, servem para narrar uma trajetória de muito sucesso. Sobre as escolhas técnicas do documentário, conversamos com a diretora e produtora Susanna Lira.
Jornal Nota: O título do documentário é “Gonzaguinha: Da Maior Liberdade”. Você tomou alguma liberdade para contar a história? Qual?
Susanna Lira: O título já carrega uma espécie de provocação. A maior liberdade que tomei foi não tentar aprisionar Gonzaguinha em uma biografia tradicional, cronológica, que desse conta de sua vida apenas do nascimento à morte. Eu queria encontrar o homem através do artista e, principalmente, entender como a experiência de vida dele contaminou aquilo que ele cantava e escrevia.
Também tomei a liberdade de deixar que as músicas conduzissem a narrativa. Em muitos momentos, é a própria obra de Gonzaguinha que abre caminhos para sua história. As canções funcionam como memória, como comentário e, às vezes, quase como confissão.
E existe uma outra liberdade que considero fundamental: não separar o artista do Brasil em que ele viveu, mas também não deixar que o contexto histórico engolisse o personagem. A ditadura, a censura, a redemocratização estão presentes, mas o filme é, antes de tudo, sobre Gonzaguinha. Sobre suas escolhas, seus afetos, suas contradições e sua necessidade permanente de liberdade. O título do filme é também o nome de uma de suas canções: “Da maior Liberdade”, que tem uma das letras mais bonitas dele.

JN: Você já fez documentários sobre Fernanda Young, Casagrande, Mussum, damas do samba, seu próprio pai desconhecido. Como você encontra os assuntos de seus filmes? Ou são eles que te encontram?
SL: Acho que existe um pouco das duas coisas. Alguns assuntos chegam até mim, outros eu vou atrás, mas sempre existe alguma coisa que me provoca uma inquietação. Eu não consigo fazer um filme apenas porque uma história é interessante. Preciso sentir que existe ali uma pergunta que ainda não foi respondida, alguma coisa que me incomoda ou que eu quero compreender melhor.
Tenho uma relação muito particular com os personagens que filmo. Eu gosto de pessoas que carregam alguma contradição, alguma camada que não está imediatamente visível. Talvez por isso esses universos sejam tão diferentes entre si, mas exista uma espécie de fio invisível ligando todos eles.
Eu não faço exatamente biografias. Faço filmes sobre pessoas, sobre suas marcas, seus desejos, suas dores, seus silêncios. E, muitas vezes, o personagem chega até mim justamente quando percebo que existe uma história que ainda não foi contada daquela maneira.
No caso de Gonzaguinha, havia uma questão que me interessava muito: quem é esse homem quando tiramos dele a etiqueta de “filho de Luiz Gonzaga” e olhamos profundamente para sua própria trajetória? Foi essa pergunta que me levou para dentro do filme.
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JN: Um detalhe que não costuma ser citado em biografias de Gonzaguinha é a mãe dele. Apesar de não tê-lo criado, Odaléa Guedes dos Santos é citada por nome mais de uma vez, o músico fala dela com carinho e até escreveu uma música para ela. Há mais informações sobre essa curiosa figura além das que entraram no documentário?
SL: A história de Odaléa é uma dessas histórias que ficam nas bordas das biografias, mas que dizem muito sobre o personagem. Ela não criou Gonzaguinha, mas isso não significa que tenha desaparecido da memória afetiva dele. Pelo contrário. Existe uma relação muito forte entre a imagem que ele construiu da mãe e a maneira como ele falava dela.
Durante a pesquisa, fomos percebendo que essa ausência era, de certa forma, uma presença muito grande na vida de Gonzaguinha. E isso me interessava mais do que simplesmente tentar preencher todas as lacunas biográficas.
Existem informações sobre Odaléa, mas também existem zonas de silêncio, e eu acho importante respeitá-las. Nem tudo que encontramos em uma pesquisa precisa necessariamente entrar no filme. Às vezes, aquilo que não sabemos também conta uma história.
O que me tocou foi perceber como Gonzaguinha carregava essa relação dentro dele. E talvez seja justamente essa dimensão afetiva, mais do que uma informação biográfica objetiva, que ajuda a compreender o homem que ele se tornou.

JN: Gonzaguinha se tornou conhecido após participar e vencer um festival de música no final dos anos 60. Como estes festivais eram capazes de alavancar carreiras na época? Qual seria o equivalente deles hoje?
SL: Os festivais tinham uma força cultural gigantesca. Eram grandes acontecimentos populares, acompanhados por milhões de pessoas, e funcionavam como uma espécie de vitrine para artistas que ainda estavam começando. Uma canção apresentada em um festival podia mudar completamente a trajetória de um compositor.
Havia também uma coisa muito interessante: o público participava daquele processo. As pessoas discutiam as músicas, torciam, escolhiam suas favoritas. Era quase uma experiência coletiva de descoberta de novos artistas.
Hoje temos uma multiplicidade muito maior de caminhos. Talvez os festivais possam ser comparados, em alguma medida, aos grandes realities musicais, aos programas de descoberta de talentos e, principalmente, à lógica das plataformas digitais, em que uma música pode viralizar e transformar a vida de um artista muito rapidamente.
Mas existe uma diferença importante. Naquela época, havia alguns poucos espaços capazes de concentrar uma enorme atenção nacional. Hoje essa atenção é muito mais fragmentada. Gonzaguinha precisou conquistar um palco. Hoje um artista pode, em tese, conquistar uma audiência diretamente pela internet.
JN: Gonzaguinha disse que teve cerca de cinquenta músicas vetadas pela censura. Como essa censura era driblada? Ou as músicas só foram gravadas após o final da ditadura civil-militar?
SL: A censura fazia parte do cotidiano dos artistas. Não era uma coisa abstrata. Existia um processo concreto de envio das letras, análise, cortes, vetos e, muitas vezes, uma negociação permanente para tentar fazer a música chegar ao público.
E Gonzaguinha aprendeu a lidar com esse sistema sem abrir mão daquilo que queria dizer. Às vezes era necessário encontrar outra palavra, outra imagem, outra maneira de construir uma frase. Mas o interessante é que a censura também não conseguia controlar completamente os sentidos de uma canção.
Uma palavra pode ser cortada, mas uma metáfora permanece. Uma frase pode ser modificada, mas a música continua carregando aquilo que o compositor queria dizer.
Por isso, quando ouvimos hoje essas canções, precisamos lembrar que muitas delas foram produzidas dentro de um campo de batalha simbólico. Gonzaguinha não estava apenas compondo: estava tentando preservar sua voz em um período em que o Estado queria determinar aquilo que podia ser ouvido.

JN: Muito se fala sobre os atritos entre Luiz Gonzaga, Rei do Baião, e seu filho Gonzaguinha, munido de violão e não de acordeom. Esse assunto só vai ser tratado mais para o final do filme. Pela sua experiência adquirida na feitura do documentário, como essa relação afetou a vida e obra de ambos?
SL: Essa relação é uma das partes mais delicadas e, para mim, mais fascinantes da história. Porque não é simplesmente uma história de pai e filho que não se entendiam. Existe uma disputa de identidades, de gerações, de linguagens e, sobretudo, de expectativas.
Luiz Gonzaga era um gigante. Ele havia criado uma imagem muito forte do que significava ser Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. E Gonzaguinha precisava descobrir quem seria sem ser apenas o filho daquele homem. O acordeom e o violão quase se transformam, simbolicamente, em instrumentos de duas gerações diferentes.
Mas, ao longo da pesquisa, fui percebendo que reduzir essa relação ao conflito seria uma injustiça com os dois. Havia mágoa, havia distância, havia incompreensão, mas também havia amor, admiração e uma ligação muito profunda.
Acho que Gonzaguinha passou uma parte importante da vida tentando se libertar do pai e, paradoxalmente, também tentando se aproximar dele. E talvez essa seja uma das grandes contradições que tornam essa história tão humana.
No fundo, acredito que os dois foram fundamentais para a construção da identidade um do outro. Luiz Gonzaga deu a Gonzaguinha uma origem da qual ele precisou se afastar para encontrar sua própria voz. E Gonzaguinha, ao construir essa voz tão singular, acabou também ampliando a dimensão da história de Luiz Gonzaga.
É uma relação que fala muito sobre paternidade, reconhecimento, abandono, pertencimento e liberdade. E talvez por isso eu tenha escolhido guardá-la para mais adiante no filme: porque, quando chegamos a esse ponto, já conhecemos Gonzaguinha como artista e como homem. Então podemos olhar para esse pai e esse filho não mais como personagens de uma anedota familiar, mas como dois homens tentando, cada um à sua maneira, encontrar seu lugar no mundo.

“Gonzaguinha: Da Maior Liberdade” ganhou o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Gramado e chega aos cinemas em 03 de setembro. Confira o trailer:

