Este país nunca sequer foi indicado ao Oscar e foi recentemente apelidado de “Pernambuco em pé”. Hoje não é ocasião de zoar com Portugal, mas sim olhar com curiosidade para o cinema português independente contemporâneo. Em cartaz no Estação Claro Rio, a mostra Terrinha à Vista, agora em sua segunda edição, é uma iniciativa louvável da distribuidora Filmes do Estação. Vamos, ora pois, às fitas.
As Meninas Exemplares, de João Botelho: memórias de outra infância

Com esse aqui a nostalgia bateu forte. Quando era criança, li um livro de capa amarela, “As Meninas Exemplares” de autoria da Condessa de Ségur. Alguns anos depois, ganhei de minha tia-avó a trilogia completa e hoje pude reavivar minha memória efetiva e sobretudo afetiva com a adaptação para o cinema da história de virtude e crescimento.
As jovens irmãs Camila (Crista Alfaiate) e Madalena (Catarina Wallenstein) presenciam um acidente com uma carruagem. As vítimas que sobrevivem são a igualmente jovem Margarida (Joana Botelho) e sua mãe, que são acolhidas pela família das meninas.
Enquanto isso, Sofia (Rita Durão), a desastrada, faz suas peripécias com bonecas e peixinhos, além de bulhar com seu primo Paulo (João Estima). Um dia, a madrasta de Sofia parte em viagem e a deixa com a família de Camila e Madalena, que já havia agregado Margarida. Juntas, as quatro meninas experimentarão as alegrias, tristezas, brincadeiras, rivalidades e desafios da infância.
Assim como na capa do meu livro, as meninas usam roupas multicoloridas, sendo o trabalho da equipe de figurino um dos destaques. Também vale mencionar que há uma narradora, sempre vestida de vermelho, abreviando o que seriam longas cenas com palavras tiradas do livro.
O fato de haver adultos interpretando crianças pode parecer um pouco perturbador de início, mas acostuma-se. Só adultos conseguem expressar com perfeição o que a história exige, o que me faz pensar que, adulta, consigo enxergar detalhes que me passaram despercebidos na leitura tão jovem. O filme me legou isso: uma necessidade de releitura de uma história que encantou minha infância.
As Aves, de Pedro Magano: uma meditação sobre o tempo

Adaptado tanto de um conto de Mia Couto quanto de uma peça de teatro de Aristófanes, “As Aves” acompanha um homem solitário (Gustavo Sumpta) cujos pensamentos apreendemos porque são compartilhados com seu pássaro engaiolado. Quando não está caçando ou pescando, nosso protagonista misantropo vai à biblioteca – na parte da noite, claro, para não encontrar outras pessoas também em busca de informação.
Chamá-lo de misantropo talvez tenha sido exagero, pois o homem se mostra curioso quando um barco atraca perto de sua casa e dele descem uma moça (Mafalda Rocha) e outro homem, ambos vestidos de preto da cabeça aos pés e ele permanentemente encapuzado e silencioso. Com essas visitas constantes, o homem solitário pode meditar sobre como usa seu tempo.
Nesse estranho conto em que só o pássaro recebe nome – é Poupa, aliás -, acompanhamos um homem eternamente enganado pelos peixes e devotado às aves. É mais que uma história cíclica: é um belo enigma emoldurado numa frase de efeito: “As palavras já deram asas a muita gente. É pela palavra que o pensamento voa”.
A Vida de Marie, de João Marques: retrato de uma influencer

Diferentemente dos outros títulos, este é firmemente ancorado no presente, tanto que seu frame inicial é de uma tela de smartphone. Retrata a rotina da influencer Marie (Maria Manuela Gomes), que é muito mais que uma personalidade extravagante da internet e ex-participante de reality show: é um ser humano complexo, com vida familiar pregressa, traumas e segredos.
Maria Manuela é fã do filme “As Pequenas Margaridas” (1966) e é de seu próprio modo disruptiva como as duas Maries da película tcheca. Para ela, sentir-se confortável é vestir-se com roupas multicoloridas, usar acessórios chamativos, exagerar na maquiagem, pintar o cabelo e fazer penteados elaborados. Esse estilo de vida difícil de definir é compartilhado com centenas de milhares de pessoas, inspirando umas e certamente chocando outras.
Marie, que também pinta quadros, é gravada em cidades de Portugal e também no exterior, em Paris e Lenzburg, Suíça, entre 2021 e 2024. Ela diz se sentir realizada e verdadeiramente bonita quando está pintando e, com suas próprias mãos, pinta as paredes de sua casa e muitos dos seus móveis.
Da mãe, ela fugiu. Do pai, ouve que se fosse mais organizada, estaria ganhando dinheiro com a visibilidade na internet. Todos na aldeia de Estela a conhecem, mas… será que conhecem mesmo? O filme nos lembra a todo momento que o que é postado nas redes sociais é um mero recorte da vida, e não podemos julgar conhecer nenhum famoso em sua totalidade. O que se esconde é, em geral, o mais íntimo e verdadeiro.
A segunda edição do festival Terrinha à Vista acontece até dia 05 de agosto.

