Existem muitos filmes que eu começo a assistir pela curiosidade, sem saber exatamente o que esperar do trabalho, e de sua temática. Esse foi o caso do Labirinto dos Garotos Perdidos, filme de Matheus Marchettique que participou da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e recentemente foi distribuído em algumas salas de cinema do Brasil pela Filmicca.
O terror queer brasileiro narra a história de um garoto do interior que se perde na madrugada da cidade grande, passando por uma série de encontros sexuais progressivamente bizarros, enquanto um assassino espreita pelas sombras da metrópole.
É impossível abrir essa resenha sem falar sobre a qualidade técnica do filme. As escolhas de posicionamento da câmera que criam uma profundidade com o espelho, luzes e cores no aquário, que transformam numa experiência, logo nos primeiros minutos me trazem uma sensação de um filme surrealista, inspirado no trabalho de Luis Buñuel, como em A Bela da Tarde (1967), onde Buñuel permite que fantasia e realidade coexistam sem que o filme se preocupe em estabelecer fronteiras claras entre ambas. Não tenho certeza se ele é uma influência para Marchettique mas, se for, acredito que as escolhas estão bem acertadas por falar de um trabalho com olhar fantasioso sob as dinâmicas contemporâneas das relações líquidas e instantâneas.
Quando pensamos em cinema surrealista, temos uma tendência a achar que é algo muito fora da curva, mas nem sempre. Filmes surrealistas tendem a romper com a narrativa linear e a lógica racional, focando nos desejos reprimidos, nos sonhos e no inconsciente, fórmula bem utilizada em Labirinto dos Garotos Perdidos.

A história em si parte do princípio da dificuldade em se relacionar em uma sociedade que está focada no prazer individual, e em que as relações por meio de telas norteiam nossa carência individual mas, em sua maioria, pelo ritmo dinâmico de opções, se tornam descartáveis.
O roteiro utiliza alguns recursos que particularmente me agradam. A narrativa em terceira pessoa, transformando-a numa espécie de “conto de fadas”, apresenta essa narrativa cotidiana, mas que através do olhar e de como é abordada, se torna algo fantasioso. Mas o maior recurso não está no surrealismo, e sim no extremo das ações. Um encontro acompanhado pela mãe, uma relação sexualmente fria e a busca de um afeto no meio de uma sociedade que preza por prazeres instantâneos tornam a angústia do personagem principal a nossa.

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O elenco escolhido se encaixa muito bem na proposta do filme. Os atores desenvolvem bem seus “arquetipos”, de inocente, rebelde e bobo da corte. Giuliano Garutti que vive Miguel, o protagonista do filme, traz uma delicadeza e docura para o personagem, mas raramente sai desse registro. Já Matheus Marchetti surpreende ao se colocar em cena, sua atuação é contida, mas o personagem tem o texto absurdo, que chega a ser muito engraçado. As demais atuações se encaixam muito bem nos arquétipos propostos.
Em suma, Labirinto dos Garotos Perdidos é uma obra que merece a atenção e deve ser assistida. O filme é diferente do terror americano, porque o terror brasileiro se construiu diferente do terror blockbuster a que estamos acostumados, o nosso sempre tem um olhar crítico para os problemas sociais, e Matheus Marchettique desenvolve esse trabalho com uma obra completa de suspense, que gera curiosidade e se sustenta tecnicamente por um olhar apurado e atuações em que os atores encontram os melhores tipos, sendo um filme que merece ser apreciado, justificando a seleção para Mostra de Cinema Internacional de São Paulo e a curadoria da Filmicca.

