Você já parou pra pensar que a poesia, no fim das contas, ou quem sabe, toda a forma de arte… é uma forma desesperada de não morrer?

Esse é o coração de Naturália Psicótica, livro de Sávyo Fernandes.
Aqui a escrita vira e se desvira como forma também de sobrevivência pura. Sávyo transforma o ato de criar em algo doloroso, mas também necessário, quase um parto difícil, como se escrever fosse a única maneira de seguir vivo diante do abismo do mundo.
“Se vivo hoje, não é por um sentido / Mas por medo” “A vida se faz necessária toda vez que pretendo acabar com ela em mim.”, diz ele em “Aos Mortos, com Amor”
Ele também mergulha nas histórias do Nordeste com muita força: retrata a vida dos retirantes, os amores destruídos pela miséria, e revive o cangaço como uma força bruta que nasce do sertão seco e impiedoso. Ele usa a fala popular, por exemplo, para contar a história de um homem que perdeu seu amor para, futuramente, um homem rico no poema “Seu Severino”.
Além disso, não tem medo de política. Pelo contrário. O livro traz críticas duras e diretas e Sávyo não poupa ninguém que está a sua frente: aqui a poesia é denúncia da incompetência, do negacionismo. Um exemplo disso em Naturália Psicótica é o poema “Corona’s Brazilian Blues”
“Dizem ser um assistente da nação (…) Atrapalha quem ajuda e ajuda quem atrapalha / Esbraveja para câmeras seus seguidores de molecagem / Quer salvar a economia, mas são seus ventrículos que sempre afaga”
No meio de tudo, aparece também a solidão pesada, o cansaço existencial, aquele sentimento de quem não se encaixa e carrega o peso de estar vivo.
E o título já diz muito: Naturália Psicótica é uma resposta direta à Tropicália de Hélio Oiticica. É como se Sávyo pegasse o espírito de desbunde de Gilberto Gil, Caetano e Torquato Neto, mas trouxesse ele para os dias de hoje — mais cru, mais insone, mais revoltado. Uma herança dos anos de chumbo, mas com a cara do agora.
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O resultado é um livro visceral. Poesia que sangra, que fala a língua do povo, que mistura sertão, política, dor e resistência. Não é confortável. É incômodo. É grito. É literatura que respira.
Se você gosta de poesia que não pede licença pra existir…
Esse livro foi feito pra você.
Sávyo Fernandes não escreveu só pra ser lido.
Ele escreveu pra não morrer. O livro está vivo.
Se vai continuar vivo ou não depende de você leitor completar o ciclo dele, agora, lendo.

