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Literatura

Esporro, ou a poesia como jorro, confronto e possibilidade de existência, de Diego Monsalvo

por Bia Fonseca 16 de julho de 2026
por Bia Fonseca 16 de julho de 2026 0 comentário

Publicado pela Editora Patuá em 2025, Esporro, de Diego Monsalvo, é um livro de poemas que se anuncia desde o título como provocação, impacto e matéria lançada para fora do corpo. A obra conta com orelha do poeta e tradutor Régis Bonvicino (1955-2025) e com artes de Thiago de Almeida Reis, compondo um projeto no qual palavra e imagem não ocupam espaços independentes: ambas participam da construção de uma mesma experiência poética.

Mais do que nomear o conjunto dos poemas, a palavra “esporro” estabelece o seu campo de forças. O vocábulo reúne sentidos relacionados às “pulsões primordiais” e também à reprimenda violenta, ao grande barulho, ao bate-boca e ao escândalo. Essa polissemia permite compreender o título simultaneamente como descarga corporal, explosão verbal, ruído social e gesto de insubordinação. Há nele algo que irrompe, que não pede licença para aparecer e que dificilmente pode ser recolhido depois de lançado.

O livro parece nascer precisamente nessa fronteira: entre o que agride e o que fecunda, entre a palavra utilizada para ferir e aquela capaz de produzir outras formas de existência.

Nesse sentido, a poesia de Diego Monsalvo não parece interessada em preservar a imagem tradicional do poema como objeto harmonioso ou apartado das impurezas do mundo. Ao contrário, o título introduz deliberadamente o vocabulário vulgar no espaço literário e obriga o leitor a encarar aquilo que a linguagem social frequentemente tenta esconder ou higienizar.

O gesto, porém, não deve ser confundido com provocação gratuita. A vulgaridade do título cumpre uma função estética e crítica: retira a poesia do lugar da contemplação passiva e a aproxima do corpo, da violência cotidiana, do desejo, da política, da fala das ruas e das tensões que atravessam as relações humanas. O poema torna-se acontecimento físico. Não apenas comunica alguma coisa: ele espirra, invade, mancha e deixa vestígios.

A própria capa materializa essa ideia. As manchas podem ser lidas como tinta, secreção, explosão, constelação ou matéria lançada contra uma superfície. A imagem não fecha o significado; multiplica-o. Visualmente, o livro já começa antes da primeira página, fazendo com que o leitor encontre uma forma dispersiva e contaminante: alguma coisa aconteceu ali, alguma coisa foi projetada, e a superfície conservou as marcas desse acontecimento.

O autor, com uma escrita já conhecida pela ferocidade filosófica e imagética, se mostra e se desloca igual a um tatu, como ele mesmo diz, confundindo propositalmente a quem o lê.

A imagem permite que pensemos Esporro como um livro de superfície resistente e interior escavado. A “casca dura” presente na secura dos versos, no título agressivo ou na economia da linguagem. Entretanto, sob essa camada existe uma poesia que cava: procura abrigos, restos, memórias, contradições e perguntas que não se resolvem imediatamente.

O movimento do tatu também contraria uma ideia de poesia como orientação segura. Em vez de oferecer mapas, abrem covas. Em vez de conduzir o leitor a uma conclusão, alteram o terreno por onde ele passa. E essa é uma diferença importante. A rota promete uma chegada; a cova preserva uma ausência. A rota organiza o deslocamento; o buraco interrompe a superfície. Ao adotar essa figura, Monsalvo parece reivindicar uma poesia que não explica o mundo, mas perfura suas aparências. A leitura torna-se uma escavação, não uma decodificação automática.

Por fim, Esporro pode ser lido como um livro de recusas: recusa da linguagem excessivamente polida, da neutralidade diante da violência, da poesia afastada do corpo e da ideia de que o amor seja incompatível com o enfrentamento.

Mas é também um livro de permanência. Diante dos que atiram, mentem, cegam, calam e desertam, o sujeito poético procura continuar presente. Não porque desconheça a brutalidade, mas porque se recusa a permitir que ela estabeleça sozinha os limites do possível.

O resultado é uma obra que parece exigir contato, reação e releitura. Seu título pode causar desconforto, mas esse desconforto constitui a porta de entrada para questões mais profundas. O que precisa ser expulso para que seja possível continuar? O que a linguagem fertiliza depois da explosão? Como responder à violência sem aceitar sua gramática? Até onde a poesia alcança quando procura tocar a existência?

Em Esporro, portanto, o poema não se limita a descrever o impacto. Ele próprio deseja ser impacto. Abre covas na superfície da linguagem, deixa manchas sobre a página e procura, entre a agressão e o afeto, um lugar em que ainda seja possível existir.

Leia também: A antropofagia do fazer poético em “Pá-lavra”, de Mathias de Alencar

A apresentação do livro: Régis Bonvicino

A orelha do livro feita por Régis Bonvicino acrescenta uma dimensão importante à leitura da obra. Bonvicino aparece não apenas como chancela literária, mas como leitor que oferece uma entrada crítica para o universo de Diego Monsalvo.

O texto de Bonvicino, poeta e tradutor (1955-2025), oferece uma chave crítica fundamental para a compreensão de Esporro. Intitulado “Na terra seca do futuro”, e publicado na orelha do livro, identifica na obra de Monsalvo uma poesia profundamente relacionada à experiência histórica contemporânea, especialmente às dificuldades, contradições e formas de violência que caracterizam o presente.

Logo no início de sua análise, Bonvicino afirma que “a poesia de Diego Monsalvo é uma indagação sobre o mundo de agora, sobre o viver na adversidade desses tempos”.

Segundo ele, “Monsalvo faz reflexões diretas e outras mais eruditas, sem deixar de fazê-las com violência verbal”.

Essa violência não deve ser entendida apenas como emprego de palavras agressivas ou vulgares. Trata-se também de uma violência exercida sobre a própria linguagem: cortes, interrupções, inversões, contrastes e choques de sentido retiram as palavras de seus usos habituais.

Ao comentar a singularidade da escrita de Monsalvo, Bonvicino afirma: “Seus poemas têm o mérito da dicção própria e o mérito de evitar pautas mais ‘oficiais’.”

Essa autonomia não significa indiferença política. Pelo contrário, o livro apresenta um claro impulso de contestação. Entretanto, o protesto nasce da elaboração poética e da experiência individual do autor, e não da submissão a um programa externo. A poesia preserva sua liberdade de contradição, estranhamento e ambiguidade.

Na sequência, Bonvicino chama a atenção para os procedimentos formais que organizam o livro: “Há uma construção de formas, baseada nos contrastes, no jogo de palavras, que, algumas vezes, revelam um certo absurdo das situações.”

Esse jogo de palavras não aparece apenas como demonstração de habilidade linguística. Ele permite que situações socialmente absurdas sejam reveladas em sua própria contradição. Bonvicino exemplifica esse procedimento por meio dos versos “saio à rua de vírus outros / preso estava quase livre”

A saída à rua, tradicionalmente associada à liberdade, torna-se exposição a “vírus outros”. O sujeito que estava preso encontra-se, paradoxalmente, “quase livre”. A liberdade não se apresenta como condição plena, mas como estado incompleto, provisório e ameaçado.

A expressão “vírus outros” pode remeter tanto à experiência concreta de uma crise sanitária (pandemia?) quanto a diferentes formas de contaminação social: intolerância, autoritarismo, desinformação, medo, violência e isolamento. O plural amplia o sentido da palavra “vírus”, deslocando-a do campo exclusivamente biológico para o político, o moral e o existencial.

Bonvicino reconhece igualmente a dimensão política dos poemas ao afirmar: “Os poemas se constituem num tipo de protesto, que se quer, de algum modo, útil ao combate às injustiças.”

A poesia de Monsalvo não se apresenta como protesto puramente abstrato. Existe nela o desejo de que a palavra possua alguma utilidade no enfrentamento das injustiças. Essa utilidade, porém, não deve ser confundida com aplicação prática imediata ou com propaganda. O poema combate ao nomear, desorganizar certezas, revelar contradições e impedir que determinadas violências sejam naturalizadas.

A literatura dificilmente elimina sozinha uma injustiça concreta, mas pode modificar as condições de sua percepção. Pode oferecer novas palavras para experiências silenciadas, conservar a memória dos conflitos e produzir desconforto diante daquilo que se tornou habitual. A utilidade do poema reside, nesse sentido, em sua capacidade de ampliar a consciência e preservar a indignação.

Entretanto, a perspectiva de Esporro não é ingenuamente otimista. Ao lado do protesto e do desejo de transformação, Régis Bonvicino identifica uma tonalidade de desencanto: “Há um tom, no entanto, de desencanto: ‘no mundo de hoje / sigo atrás do muro / jogando sementes / na terra seca do futuro’.”

Os versos concentram uma das imagens mais expressivas da obra. O sujeito se encontra “atrás do muro”, espaço que pode representar exclusão, isolamento, invisibilidade, proteção ou impedimento. Não está no centro das decisões nem diante de um horizonte aberto. Sua ação acontece em uma posição limitada, parcialmente escondida.

Mesmo assim, ele continua “jogando sementes”. Não há garantia de que as sementes germinarão. Elas são lançadas sobre a “terra seca do futuro”, imagem que sintetiza a tensão entre esperança e desesperança. O gesto do sujeito poético é, ao mesmo tempo, necessário e talvez inútil. Ele sabe que o futuro pode ser árido, mas continua semeando.

É justamente nesse ponto que se encontra o desencanto percebido por Bonvicino. Não se trata de desistência completa, pois o sujeito ainda age. Contudo, também não existe confiança plena na transformação. A esperança presente em Esporro é uma esperança ferida, exercida sem garantias e consciente da possibilidade de fracasso.

A expressão “terra seca do futuro”, escolhida por Régis Bonvicino como título de seu texto, condensa essa condição. O futuro, normalmente associado à renovação e à promessa, aparece antecipadamente ressecado. A poesia lança sementes sobre ele, mas não controla o resultado. Sua tarefa é continuar lançando, ainda que a fertilidade da terra permaneça incerta.

A apresentação de Régis Bonvicino permite, assim, compreender Esporro como uma obra estruturada por quatro elementos essenciais: a indagação sobre o presente, a violência verbal, o protesto contra as injustiças e o desencanto diante do futuro… E um quinto dilacerado elemento, o poeta; Monsalvo canta como forma instintiva de dizer (ainda) NÃO!

Como já dizia Belchior em sua “Divina comédia humana” (1978): “Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto!”

Sobre o autor:

Diego Almeida Monsalvo é filósofo, psicanalista, professor e escritor. Autor do livro de poemas Esporro , também assina a coluna “Olhar Filosófico”, publicada no jornal Diário do Litoral às segundas-feiras. Em sua produção literária, aborda questões sociais, existenciais e políticas, articulando reflexão filosófica, crítica e poesia. Dentre as suas obras de destaque estão “Pensar a história com Nietzsche” e “Filosofia Urgente”.

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Bia Fonseca

Bia Fonseca é formada em História, Direito e Letras-Inglês, tendo enveredado pelo caminho das Letras após uma especialização em Leitura e Produção Textual. Hoje, trabalha na área da educação a distância e da tradução e no tempo livre se debruça sobre a literatura contemporânea e estuda chinês.

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