No filme Eu Não Te Ouço, que chegou aos cinemas no dia 14 de maio, o ator Márcio Vito assume o desafio de interpretar dois personagens atravessados pela polarização e pela dificuldade de diálogo que marcam o Brasil contemporâneo. Inspirado em um episódio que viralizou durante as eleições de 2022, o longa transforma um acontecimento aparentemente absurdo em uma reflexão sobre humanidade, escuta e incomunicabilidade.
Em entrevista ao Jornal Nota, o ator Márcio Vito, que vive os dois personagens do filme, fala sobre o processo de construção do “Patriota do Caminhão”, a preocupação em fugir da caricatura e a preparação coletiva desenvolvida com a equipe do filme.
Confira abaixo!

O Patriota do Caminhão é inspirado em um momento que virou meme, mas, no filme, ganha uma dimensão um pouco mais complexa. Como você trabalhou para fugir da caricatura e encontrar verdade nesse personagem?
Bom, eu sou admirador desse tipo de composição, uma posição, uma composição de ator, como Nelson Xavier, como Paulo José, Osmar Prado, como Chico Anysio, mestre de tudo isso, que trabalham uma composição com uma humanidade profunda, né, com uma certa naturalidade.
Tomo um certo cuidado ao usar essa palavra para não parecer que eu estou falando de um estilo de interpretação, e não é isso; é uma abordagem que passa por uma construção humanizada de algo que poderia ser só uma crítica caricatural.
Então, para apoiar isso, eu vou sempre ter essa abordagem, mas especialmente nesse projeto, a gente teve uma estrutura de escrita conduzida pela Bel Teixeira que dava uma rede de proteção gigantesca para a composição desses dois personagens.
Então, não foi muito difícil me alimentar de referências minhas, da Bel Teixeira, do Caco Ciocler, das pessoas que a gente conhece, de situações que eram públicas como essas e outras situações que vivíamos em separado com familiares e outras pessoas.
E dentro disso, a gente conseguiu puxar pequenas pontinhas que davam camadas para esse personagem. Então foi um trabalho super coletivo de preparação e eu acho que a circunstância ali de cena me ajudava também a fazer uma diferença entre os dois personagens.
Então, a princípio, essa construção com uma pesquisa mais aprofundada me ajudou muito a estar fazendo um personagem que passava por dentro das coisas que eu sinto, de como eu sou como pessoa, do que eu poderia estar dizendo, né?

O filme se passa em um espaço muito limitado, dentro e ao redor da cabine do caminhão, e isso concentra bastante atenção na atuação. Como esse ambiente mais fechado influenciou o seu trabalho em cena?
Dando sequência a essa ideia de como a circunstância física, né, como esse cenário ou essa limitação me ajudou, é porque eu estar pendurado no gradil do caminhão e numa condição que, né, que algumas pessoas estavam ali sacudindo o caminhão junto, né, e com o apoio próximo, eu tinha um apoio próximo ali para, caso de cansar demais, poder pisar numa estrutura de madeira, né, a boa e velha ‘três tabelas’ do cinema.
Mas aquilo ali, me colocar naquela situação, me obrigava a ter um tipo de atitude e de pensamento um pouco mais urgente, né? Tinha um perigo ali de queda, tinha uma limitação de alimentação, de tudo, né? Então, tudo ali… essa circunstância desse personagem que está do lado de fora do caminhão, ele trazia para mim uma maneira de pensar, uma maneira de se relacionar, que quase as falas dele precisavam parecer não dar conta da velocidade do pensamento, da urgência do pensamento dele.
E do lado de dentro, pelo certo conforto da direção, né, de um espaço que o caminhoneiro, especialmente um caminhoneiro, cria para si dentro de uma boleia, eu tinha uma cadeira de motorista ali mais confortável, eu tinha uma luz interna que me permitia estar lendo o que eu quisesse ou pegando algum artefato, né? Uma lata para beber alguma coisa, fingir que vou pegar uma arma, foto de família… então é um pequeno cantinho do motorista ali.
E isso dava para ele uma maneira de pensar mais lenta, mais delicada, né? Dava para ele um ritmo de fala que podia ser mais cuidadoso, mais ingênuo até. Ele pode ter uns tempos preenchidos de forma mais profunda mesmo, né, com camadas que são mais identificáveis, digamos.
Então eu acho que essa circunstância de cena, de limitação do espaço e tal, ajudou muito para que os personagens pudessem ter diferenças, para que eles imprimissem essas almas distintas, não exatamente opostas, mas de alguma maneira de duas pessoas que eu poderia ser qualquer uma delas, não sou nenhuma das duas, mas que de alguma forma são reconhecíveis nas suas humanidades

