O bolsonarismo produziu diversas imagens fortes no Brasil, desde sua concepção. Elas vão da bizarrice, como o ex-presidente puxando o coro de “imbrochável” durante uma manifestação, às mais trágicas, como pessoas catando ossos para comer. Entre elas, destaca-se a de um homem vestido de verde e amarelo, agarrado ao para-brisa de um caminhão que atravessou as barricadas formadas pelo país após as eleições de 2022.
É a partir deste episódio que Eu Não te Ouço constrói sua narrativa, imaginando um cenário possível onde o motorista e a sua inusitada carona travam um diálogo acerca da situação em que se encontram, tanto a nível pessoal quanto nacional. Mas talvez “diálogo” não seja a palavra; estão mais para dois monólogos, pois cada um do seu lado do veículo fala para a câmera de uma equipe de filmagem que está dentro da cabine.

O longa de Caco Ciocler evita uma dicotomia do bem versus o mal, ou de fazer troça de maneira excessiva com o Patriota do Caminhão. Uma decisão de elenco torna as duas figuras quase iguais: ambas são interpretadas pelo mesmo ator, Márcio Vito. Assim, evita-se a armadilha de ver adversários políticos como um “outro” sem relação conosco. Não se trata de “dois lados da mesma moeda”, mas de reconhecer como determinadas fraturas sociais, econômicas e afetivas atravessam todos os personagens.
O patriota pendurado no caminhão surge menos como uma aberração isolada e mais como produto de um país que normalizou o ressentimento como linguagem política. Ao espelhar os dois homens no mesmo corpo, Ciocler sugere que há continuidades desconfortáveis entre eles, ainda que suas visões de mundo pareçam inconciliáveis.

É claro, Eu Não Te Ouço não deixa de tocar no aspecto delirante do bolsonarismo — nem teria como diante do episódio que o originou —, mas busca uma compreensão do que motiva esse aspecto. Nas falas do Patriota, é possível perceber uma mistura de paranoia política, frustração econômica e desejo de pertencimento. Em dado momento, ele comenta que seu desejo após sair do caminhão é ir comer no McDonald’s, e de como isso deveria ser algo noticiado pelo Brasil, talvez até mesmo criarem um hambúrguer em sua homenagem.
Dentro da cabine, o motorista representa um tipo bastante reconhecível de sujeito brasileiro contemporâneo: alguém que não necessariamente compartilha do entusiasmo bolsonarista, mas que também não deseja gastar energia combatendo-o. O vidro que os separa bloqueia o som, então, por vezes, ele reage apenas às caras e bocas do seu passageiro. Sua relação com a política parece mediada antes pela sobrevivência cotidiana do que por convicções ideológicas claras.
Assim, Eu Não Te Ouço vai além de tratar um episódio inusitado como mera curiosidade, ele o ergue como um símbolo trágico e cômico do momento que vivemos, sem buscar caminhos fáceis ou se apoiar em falsos moralismos.

