Festivais de cinema permitem a descoberta de futuros clássicos e a redescoberta de clássicos esquecidos. O tradicional festival de documentários É Tudo Verdade, realizando sua 31ª edição em 2026, traz para a programação a restauração do primeiro documentário de longa-metragem realizado no Ceará, no surpreendentemente nem tão longínquo ano de 1986. A história contada é uma que não nos ensinam na escola, mas que foi bem semelhante à Guerra de Canudos: a história do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto.
Começamos no Museu do Estado, onde um grupo observa os objetos de uso pessoal do beato José Lourenço, em exibição dentro de um mostrador de vidro. Eles rompem com a sagrada porém não dita regra de que não se pode tocar em peças de museu e tomam para si os objetos pessoais do beato.
Somos então informados por uma narração em off que, desde as sesmarias dos tempos coloniais, o Nordeste é dividido de maneira desigual. Desde sempre, portanto, se vê a luta dos despossuídos, muitas vezes liderados por cangaceiros ou beatos. Ora, não teria sido Padre Cícero uma espécie de liderança messiânica?
E por falar em Padre Cícero, é na mesma igreja em que repousam seus restos mortais, só que do lado de fora, que fica o túmulo do beato José Lourenço, aquele com os pertences em exposição. Se ainda não ficou claro, é sobre ele que versa “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”.

O religioso paraibano fixou-se no Crato no começo do século XX. Precisou enfrentar os boatos do político Floro Bartolomeu, que queria acabar com a “barbárie” das comunidades de romeiros que eram vistas como antros de fanatismo. Bartolomeu consegue que o beato seja preso e ademais inventa que em sua comunidade estão adorando um boi como santo. Mas o tiro sai pela culatra.
Uma vez liberto, o beato José Lourenço é encaminhado pelo Padre Cícero para o sítio Caldeirão, para onde seguem também os romeiros, que haviam adotado o boi como símbolo de união. Intuitivamente, o beato estabeleceu a regra socialista de “a cada um de acordo com sua necessidade”. E assim o Caldeirão prosperou.
Mas a nossa elite do atraso não consegue ver os mais pobres prosperando. O mesmo acontece com o clero e o poder público, que preferem ver a inércia na vida do povo que a prosperidade que não chega através de suas mãos. Apoiando-se pelo trio do retrocesso e acusando o beato José Lourenço de comunista, tropas invadiram o Caldeirão.
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É um pouco complicado entender as falas de alguns entrevistados, apesar do esmero com que foi restaurado o material sonoro. O problema aqui reside na idade avançada dos depoentes que se percebe em dificuldades de dicção. Mas nada que impeça o entendimento. Os depoimentos são ilustrados por bonecos de argila artesanais, imagens de arquivo, de jornais e algumas reconstituições com atores. O único senão é a falta de identificação dos entrevistados, que só acontece nos créditos.
Rosemberg Cariry, além de cineasta, é um escritor e poeta cearense. Apaixonado pela cultura popular de seu estado, estreou no cinema durante o Ciclo do Super-8, nos anos 70. Entre documentários para o cinema e a televisão, destaca-se este “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, seu primeiro longa-metragem.

É ousado o filme ao denunciar “a falta de democracia no país, a manipulação alienadora e a desumana exploração financeira” que retiraram das romarias a expressão de rebeldia popular. Nunca foi só fé cega. Além disso, o filme termina com um poema de Patativa do Assaré que em seu último verso versa sobre a esperança de conseguir a reforma agrária, que era praticamente um palavrão durante a ditadura que desaparecia naqueles meados dos anos 80. “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” merece ser reconhecido como o filme corajoso que é.
Há quarenta anos, o documentário conseguiu depoimentos de sobreviventes e envolvidos na repressão ao Caldeirão, ocorrida 50 anos antes. Hoje, noventa anos nos separam da tragédia, e restam documentos como o filme, peça valiosíssima para mostrar que fake news sempre foram usadas na imprensa, que ninguém gosta da prosperidade do outro e que a repressão violenta é uma constante na nossa História.
“O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” será exibido no É Tudo Verdade dia 17/04 em São Paulo e 18/04 no Rio de Janeiro. Confira o trailer:
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