Por mais moderna que uma sociedade se torne, há ainda apreço pela simplicidade. E o que é mais simples que um circo mambembe, parando de cidade em cidade para apresentar espetáculos para seu respeitável público? O circo ainda exerce fascínio, e exerceu no realizador Fabio Meira, decidido a fazer seu primeiro filme exatamente sobre o circo. Ele foi fazer pesquisa de campo, filmando e entrevistando artistas de circo. E então percebeu que tinha um filme diferente em mãos. Esse é o resultado de pesquisas, de filmagens, de trocas. Esse é “Mambembe”.
O filme de Fabio seria sobre um topógrafo em missão nômade que se envolve com três mulheres de um circo itinerante. Ambientado nos anos 80 e inspirado pelo pai do cineasta, também topógrafo, o filme seria sobre “universos contrários que entrariam em choque”. Em sua pesquisa de campo, Fabio encontrou as três personagens em artistas de circo: Jéssica, Madona e Índia Morena. Era hora de começar a odisseia de filmar.
Aos 27 minutos de projeção, o título aparece na tela. Surge Ruy (interpretado por Murilo Grossi), topógrafo de meia idade, primeiro conhecendo Índia Morena, depois, em situação distinta, Madona e Jéssica (interpretada por Dandara Ohana, pois o dono do circo não liberou a Jéssica verdadeira para a filmagem). Além de enfrentar o preconceito de estranhos, Madona deve se reconectar com o filho que mal conheceu. O romance de Ruy com Índia Morena é tórrido, porém passageiro. Mas será Jéssica quem quererá adiar o fim. Em meio a essa história, entrevistas com as agora atrizes não-profissionais.

O circo é lugar de diversão, mas já foi de sofrimento na exibição: é só se lembrar de que, um século atrás, havia os shows de aberrações, onde pessoas de aspecto “diferente” eram exibidas como curiosidade para o público, como retratado no pungente clássico “Monstros / Freaks” (1932). Ao empregar artistas de circo como protagonistas de seu filme, Fabio humaniza essa gente, tantas vezes menosprezada, olhada de lado, virando motivos de risada e comentários maldosos.
Além do circo, o filme é conduzido pelas cartas de tarô, espalhadas numa toalha de mesa e filmadas igualzinho, até no granulado da imagem, ao que se sucede no início de “Cléo das 5 às 7”, filme de Agnès Varda de 1962 cuja única sequência a cores é esta inicial do tarô. Quem conhece o tarô ganha uma camada de percepção que escapa aos leigos, pois entende o significado por trás de cada carta tirada na mesa.

Fabio começou sua pesquisa de campo em 2010, mesmo ano em que foi eleita a primeira mulher presidente do Brasil. No filme de Fabio haveria uma dona de circo, exceção no mundo, como era a mulher na presidência. Ele escolhe três mulheres para protagonizar seu longa, uma delas trans, assim colocando no centro da narrativa as experiências femininas, ainda que só sejam de interesse quando encontram com a figura masculina que é Ruy. De 2010 para cá, da viagem de reconhecimento de Fabio até hoje, muita coisa aconteceu, no Brasil e na vida de quem foi filmada. Hoje, Fabio faz um filme distinto do que planejou há mais de 15 anos. Hoje, o cineasta por trás de sucessos como “Tia Virgínia”, declara:
“É uma honra fazer um filme sobre o circo e ter essas três mulheres como protagonistas, elas são a alma de ‘Mambembe’, (…). Eu procurava pessoas bem diferentes para os papéis, mas a força e o carisma delas me fizeram mudar meus planos para que todas coubessem no filme, e não me arrependo. Muito em breve todo o Brasil poderá conhecer de perto essas figuras geniais da nossa cultura.”
Índia Morena, patrimônio vivo do estado de Pernambuco, diz que um filme sobre o circo deve ser feito pela própria gente do circo, porque “sairia mais bonito”. Ao deixar isso acontecer, Fabio eleva um filme mediano, que ele confessa ser fruto de “imaturidade e obstinação”, e o transforma em algo superior, uma mistura de documentário e ficção. Um mestre dos documentários, Eduardo Coutinho disse: “O esforço inalcançável é se colocar no lugar do outro para entender de que lugar o outro está falando”. Fabio não apenas se colocou no lugar do outro, mas deu protagonismo às outras e as deixou falar – que é exatamente o que deveria acontecer com mais frequência no nosso cinema.
“Mambembe” estreia em 14 de maio nos cinemas. Confira o trailer:
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