A dança da serpente (2026), de Paulo Stucchi, é sem dúvida uma grata surpresa. Um livro que prendeu minha atenção desde as primeiras páginas tanto pela escrita hipnotizante do autor quanto pelas histórias que se encontram em um emaranhado espacial e temporal que se estende entre os séculos XVIII e XX.

Paulo Stucchi nos apresenta um trabalho de pesquisa formidável, no qual ele conta sob uma ótica ficcional a história de Luzia Pinta, mulher que foi aprisionada e julgada pela Inquisição lisbonense no século XVIII por conta das suas práticas de calundu, na cidade de Sabará/MG, e cuja biografia pode ser acessada no endereço eletrônico da UFRGS.
Ressalto que o autor não se poupou em seu trabalho de pesquisa e nos contempla durante toda a leitura com notas de rodapé esclarecedoras que fazem toda a diferença no entendimento de alguns fatos descritos ao longo dos capítulos. Um esforço que merece ser reconhecido, pois o resgate de histórias como o de Luzia Pinta é essencial para que outras histórias também possam ser reconhecidas e ganhem a devida visibilidade.
Paulo Stucchi, o encantador de serpentes
Enquanto lia as páginas de A dança da serpente, foi possível perceber a dedicação do autor à escrita, algo que muitas vezes não é encontrado em textos de outras/os autoras/es contemporâneos, que parecem atropelar o tempo e comprometer a formação das imagens e dos contextos necessários à construção de uma boa história. O texto precisa ser cultivado com parcimônia, e é perceptível no texto do Paulo, o realismo caracterizado pelo retrato de pessoas comuns, sem idealização, descrevendo com riqueza de detalhes cada espaço, conforme é possível ler no capítulo 35:
“O interior da Matriz não havia mudado em absolutamente nada Permanecia imponente e bem iluminado devido aos janelões, o que colaborava para tornar o ambiente mais amistoso. A riqueza de detalhes estava em cada canto, desde as colunas tortas, os ornamentos em ouro, até as imagens barrocas de santos com expressões sofridas” (p. 260).

Um dos pontos de conexão utilizados pelo autor para contar essa história é o calundu, termo quimbundo que designa práticas religiosas de cura, adivinhação e transe espiritual realizadas por pessoas escravizadas oriundas de sociedades ambundas e bacongas da África Centro-Ocidental, que foi amplamente difundido no Brasil pelas pessoas vítimas do tráfico transatlântico. O termo calundu serve tanto para identificação das práticas religiosas, como para os espíritos que se manifestam.
Além de contar a história de Luzia Pinta, Paulo nos conta também a história de Cléo e Clarice, duas irmãs gêmeas que herdaram o “dom” de acessar os calundus, essa prática ancestral, que conduziu suas histórias por caminhos misteriosos e cheios de suspense em uma mesma Sabará, mas do século XX.
Nos conta também a história de Joaquina, uma personagem que surge na parte final da história, mas que se conecta totalmente com a trajetória de Luzia, Cléo e Clarice. Ao construir esta narrativa, de maneira sinuosa, o autor nos permitiu conhecer inúmeros acontecimentos marcantes e com muita sensibilidade, possibilitando à pessoa leitora não se perder em nenhum momento, aproveitando cada ponto de contato para nos fazer compreender como algumas coisas permanecem nas nuances da história, mesmo com os apagamentos e silenciamentos históricos.
Luzia foi uma mulher escravizada desde a infância, que descobriu aos 12 anos um dom, caracterizado pela visão de espíritos e de cura. Ela descobriu isso, após um episódio dentro de uma igreja em Angola, onde viveu até a vida adulta, quando viu seus dons serem explorados pelos senhores.
Em um determinado momento, Luzia, ou melhor, os calundus, não conseguiram curar uma pessoa, e então, Luzia pagou sendo vendida e traficada para o Brasil. Essa é a primeira parte de sua trajetória, que não se encerra no Brasil. Depois de anos atendendo e curando pessoas no Brasil, novamente, Luzia é vítima do preconceito e do racismo religioso, sendo julgada e punida pela inquisição, que dominava o mundo ainda no século XVIII.
Foi após cumprir sua pena em Portugal, que Luzia Pinta conheceu a pequena Joaquina, que também carregava consigo o “dom” dos calundus, e enquanto pôde, a protegeu e fez todo o possível para a menina estivesse a salvo das garras da Inquisição e da condenação que sua fé poderia lhe causar. Joaquina atravessou o Atlântico e chegou a Sabará/MG dando continuidades às práticas religiosas iniciadas por Luzia Pinta naquele lugar, passando para as próximas gerações o “dom” que ela mesma havia herdado.

Assim como Luiza, Clarice e Cléo, também eram detentoras do dom de cura dos calundus, entretanto, Cléo, que se sentia assombrada na infância, recusou-se durante a vida adulta a manter contato com o sobrenatural. Ao contrário, sua irmã Clarice começou a experienciar o contato com os calundus durante a adolescência e, assim como Luzia, foi acusada, presa e sofreu na própria pele as consequências de professar sua fé e oferecer seus “serviços” como curandeira na cidade de Sabará/MG.
Sabará/MG foi a cidade que recepcionou todas essas mulheres com o “dom” ancestral dos calundus e desde o século XVIII até o século XX, período em que acontecem as histórias de Luzia Pinta, Joaquina, Cléo e Clarice, a cidade foi o cenário para que essa prática religiosa se consolidasse e se manifestasse, oferecendo a atmosfera ideal para que essas histórias fossem vividas e compartilhadas.
Se em um momento é a Inquisição que silencia as pessoas por meio de suas intervenções grotescas e imposições sociais que atingiram principalmente as mulheres negras, simplesmente pelo fato de professar a sua própria fé, em outro, a ditadura militar instaurada no Brasil entre os anos de 1964 e 1984, também oprime e impede que as pessoas pensem livremente e se emancipem por meio de suas próprias escolhas.
Sabará: lugar personagem
Assim, como Toni Morrison deu vida à casa 124 Bluestone Road, em Cincinnati, Ohio, no romance Amada (1987), considero que Paulo Stucchi também transformou Sabará/MG nesse lugar/personagem que constrói uma atmosfera em torno de si, criando um ambiente propício para a presença forte dos calundus e para o desenrolar da história, nos fazendo acreditar que há um destino e que não há como fugir dele.
Entre os eventos que podem ser citados e evidenciam a importância de Sabará nesta maneira de perceber o destino, há aquele em que Cléo, uma das irmãs gêmeas, que saiu muito cedo da cidade onde nasceu, Sabará/MG, se apressou em voltar por conta do surgimento de uma tal “Sacerdotisa” que era sua irmã:
“Sim, havia chegado a hora que eu temia, o destino para o qual talvez eu, realmente, tivesse nascido. Sob o pretexto de escrever uma matéria sobre aquela mulher e seus milagres, eu teria a oportunidade de, talvez, curar a ferida que ainda sangrava” (p. 33).
Joaquina, que fora cuidada por Luzia Pinta e estava em Lisboa, atravessou o Atlântico acreditando que encontraria descanso nas terras brasileiras, sendo Sabará/MG o seu destino:
“Joaquina não parou de caminhar até tocar parte do que parecia ser uma das paredes da velha casa. O conhecido zunido em seu ouvido recomeçara, e o vento, tal qual uma voz melódica, soprou, dizendo: Um dia, verás este lugar vivo novamente. E, de geração em geração, não importa quantas forem as mulheres que a partir de ti tiverem o dom de ir e voltar do vasto rio Kwanza, esse esplendor renascerá sempre sob a proteção da Virgem de Soledade. Apertou com força o rosário e chorou. Então, virou-se para o horizonte, onde, já engolida pela escuridão, despontava no topo da colina a silhueta da capelinha de Soledade. (p. 453)
Calundus e violências

A forma como as histórias se cruzam e se entrelaçam no romance nos permite observar um sem-fim de conexões que, num primeiro olhar, pode nos passar despercebido e não dar a ver suas similaridades. No entanto, guardam em si um sem número de conexões, dentre elas o ser mulher, as heranças africanas, as violências sofridas, etc.
Todas essas personagens/mulheres descobriram o poder dos calundus ainda muito jovens, quando viam vultos, espíritos e conseguiam curar pessoas, mesmo sem compreender como aquilo acontecia com elas e por que acontecia com elas. Mas este é apenas um dos fatores que as unem. Todas elas também são violentadas socialmente e exploradas por suas habilidades de cura.
Vinte anos depois do lançamento de Um defeito de cor (2006), de Ana Maria Gonçalves, temos a oportunidade de conhecer ao menos parte da história de uma outra mulher apagada na sociedade brasileira: Luzia Pinta. É interessante pensar sobre quantas histórias ainda vamos conhecer se mais pessoas resolverem pesquisar a fundo a história do nosso país.
Ao pensar sobre as violências sofridas pelas personagens, é inevitável não lembrar da minha leitura de Um defeito de cor, que realizei em 2021, e foi tão marcante que até os dias atuais, ainda me recordo do mal-estar ao me deparar com as violências sobre o corpo da pequena Kehinde, uma pequena amostra do terror que foi o período escravagista no Brasil. Abaixo segue um trecho de A dança da serpente, que me fez recordar a leitura de Um defeito de cor (2006):
“Quando seu corpo totalmente nu foi colocado sobre o objeto triangular, e a ponta de ferro comprimiu suas costas, Luzia deu um grito animalesco. Ela não tinha forças para se debater ou resistir. Seus braços e pernas foram atados a quatro argolas fixadas ao chão, de modo que seu corpo ficasse completamente esticado, sustentado apenas pelo triângulo cuja ponta penetrava em suas costas com ajuda de seu próprio peso” (p. 348).
Não somente pelo retrato das violências, também associei o livro do Paulo Stucchi ao livro da Ana Maria Gonçalves, visto que os dois livros compreendem um grande resgate histórico, dando a robustez necessária às histórias destas mulheres/personagens alcançadas pelos mistérios da ancestralidade.
A ancestralidade na dança da serpente

O livro A dança da serpente (2026) traz com profundidade narrativas de mulheres que sofreram muito nos séculos passados e automaticamente pensei no quanto as mulheres continuam sendo alvo de opressões no século atual. Não somente isso, mas quantas mulheres foram mortas apenas por professar sua fé? Por falarem sobre o que sentem? Por sustentarem suas escolhas? Mas a pergunta mais importante, até quando morreremos apenas por existir?
A dança da serpente é, portanto, um registro de nossa história ao mesmo tempo em que revela a formação de nosso país, sob os escombros de um colonialismo que ainda hoje se mantém sob a figura da colonialidade e que perpetua violências, pagamentos e silenciamentos, sobretudo, quando as histórias são de mulheres negras.

