O teatro é o lugar do impossível. Ou, melhor dizendo, dos impossíveis. Dos encontros dos corpos, dos tempos, das inversões das hierarquias, das celebrações dos espaços que nem existem ou que, se existem, existem apenas naquele ínfimo momento em que podemos nos dar ao luxo de plenamente imaginar. Porque o teatro é esse lugar: o da plena imaginação.
Eu sempre falo da invenção como um gesto não contemplativo ou utópico de uma mente que vaga pensando, mas como um gesto político que, diante de um mundo injusto, ousa imaginar a justiça. Que diante de um mundo sujo, ousa imaginar a reparação. Que diante de um mundo vil, ousa imaginar a igualdade. Pois é disso que se trata a deliciosa e perniciosa obra dramatúrgica de Bárbara Pessoa, “Entrelaçadas — Um encontro entre Medeia, Virgínia e Dilma”.

O livro é um texto dramatúrgico no qual a personagem principal, Monique, em consulta com sua astróloga, descobre que em outra vida havia sido Medeia, a grande figura mítica grega. Diante dessa informação, ela reconhece em Medeia a primordial desavença com seu pai e puxa um fio de opressão que desfaz uma trama de mentiras inventadas por uma série de homens, inclusive Eurípides, o dramaturgo grego que teria inventado que ela, enquanto Medeia, matou seus dois filhos.
Para quem não conhece, Medeia é talvez a personagem com características mais humanas das figuras das tragédias gregas. Um dos textos mais consagrados de Eurípides, a narrativa começa logo após a heroína ter chegado de uma longa jornada. A história conta que, vivendo uma paixão por Jasão, ela rouba o Velocino de Ouro de seu pai e foge de sua terra. Medeia era conhecida por dominar o poder das ervas, das curas e os segredos da terra, uma espécie de feiticeira.
Porém, após alguns anos vivendo com Jasão, este resolve se casar com a filha de Creonte, em busca de acumular mais poder. Medeia se enfurece e, segundo o texto teatral do grego, envia um vestido envenenado para a noiva e depois assassina seus dois filhos, fugindo em um carro de sol.
No espetáculo de Bárbara Pessoa, autora e personagem contestam esta versão e, mais que isto, vão até a delegacia prestar queixa contra este tal de Eurípides que a caluniou mentindo desta forma. Sem conseguir o que queriam, afinal, o caluniador morreu já há 2400 anos, Medeia procura outras mulheres que passaram pelo mesmo para entrar com uma causa coletiva contra esses caluniadores.
Diante destes lapsos temporais maravilhosos que só o teatro pode proporcionar, Bárbara tem o mundo inteiro para explorar em seu palco. Agora ela se volta para outra mulher: Virgínia Leone Bicudo, socióloga e psicanalista brasileira, reconhecida como a primeira psicanalista não médica do país e uma pioneira nos estudos sobre o racismo e as relações raciais no Brasil.
O mais interessante é o grau de subversão com que nos é apresentada a personagem: Virgínia está no céu, uma vez que morreu em 2003, se apresentando para uma plateia, manifestando-se contra a existência do inferno, defendendo uma espécie de “abolicionismo penal pós-vida” cuja argumentação é absolutamente genial na criação de um “Projeto Para Um Novo Além”:
“O Projeto Para Um Novo Além acredita que a justiça só se realiza plenamente, como se diz ser o objetivo da eternidade, se todes, sem exceção, têm o direito de usufruir da paz eterna. Se todes têm oportunidade de buscar a evolução num ambiente sereno. E não pela tortura, pela dor, que é o que acontece em Um Mau Lugar.”

E para chegar a essa conclusão, ela usa uma argumentação lógica que deixaria muitos advogados desnorteados:
“Na Terra, há dados provando que ser apartado do convívio não favorece a evolução do indivíduo. Por que repetir o erro aqui? Vocês, por acaso, têm medo de serem mortos por supostos delinquentes? Já estamos mortos. De serem roubados? Já não possuímos bens. De que a maconha seja a porta de entrada…? Não precisamos mais de dopamina. Existir Um Bom Lugar e Um Mau Lugar só reproduz uma lógica terrena que discrimina. Observem que aqui, entre trombetas e harpas, são poucos os de origem humilde.”
Ao elaborar uma proposta para um “céu” sem divisão de classes e sem divisão entre céu e inferno, Bárbara elabora de forma irônica, debochada e, não por isso, menos comprometida, uma complexa trama que coloca uma série de dinâmicas em jogo.
Primeiro, nos deixa ver Virgínia Bicudo em ação em sua prática interseccional entre classe e raça; depois, revela a instituição prisão como algo intrinsecamente racista, o que fatalmente se desdobrará na própria ideia de céu e inferno: enquanto houver racismo, os punidos serão sempre os oprimidos pela raça. Por fim, revela ainda uma rebeldia em relação a Deus e a possibilidade de uma sociedade sem classes no céu e na terra, uma política antirracista e anticlassista. Bárbara estava atenta: se é possível no teatro, é possível em qualquer lugar.
É quando Virgínia aceita o convite de Medeia para se juntar à vingança por terem “rasurado o imaginário” do passado:
“E qualquer mulher que fale alto, que fale o que pensa, que fale… vai ser malvista, difamada. Porque nada disso é (gesto de aspas) feminino. Nós duas, e também essas outras mulheres, rasuramos o imaginário das nossas épocas. Nós não estávamos, nem elas estão, no lugar que supostamente deveríamos. Por isso foi preciso imputar falsamente a mim o crime de charlatanismo, como imputaram a você o de infanticídio, para não deixar dúvidas, Medeia: elas não cabem aqui e devem ser banidas.”
E para finalizar a narrativa de mulheres injustiçadas que buscam reparação, “Entrelaçadas” encontra a ex-presidenta Dilma Rousseff”, curiosamente a única delas que está viva. Medeia e Virgínia vão atrás de Dilma no aeroporto enquanto ela embarca para sua função como presidenta do Banco dos BRICS, para convencê-la a se juntar à tarefa de, juntas, reunirem essa ação contra o passado que as oprimiu.
Uma vez convencida, Bárbara traz uma nova reviravolta: o espetáculo se transforma em um tribunal em que Dilma Rousseff é a juíza. No caso de Medeia, recebemos a presença do próprio Eurípides para fazer sua defesa e, no caso de Virgínia, os professores da USP que a acusaram de charlatanismo pelo uso da psicanálise sem formação em medicina.

Fazendo uso de uma multiespacialidade ultra contemporânea, mas imersa dos melhores usos do teatro moderno brasileiro, invocando espíritos no melhor estilo Zé Celso e Teatro Oficina, com uma linguagem que sabe aliar nossa tradição, convocando a história do teatro ao mesmo tempo que empurra esta história para o futuro, Bárbara Pessoa faz de “Entrelaçadas — Um encontro entre Medeia, Virgínia e Dilma” um espaço de acolhimento para discussões que não podem mais ser silenciadas.
Ela convoca essas vozes para nos fazer ver 2400 anos de história do patriarcado e fazer com que ela seja não só passada a limpo, mas também tenha um espaço para ser revisada pelos corpos das mulheres que foram por ele atingidas. Ainda que a estrutura seja toda para parecer uma brincadeira, uma espécie de escracho, o que está por detrás não é, e o jogo cênico é de uma seriedade que atravessa este escracho: as mulheres se reúnem para falar e nós rimos juntos dessas feridas.
“Entrelaçadas — Um encontro entre Medeia, Virgínia e Dilma” é um texto ímpar. Que fotografa um momento da nossa história em que é preciso não só reparar o passado, mas anotar seus espaços para o futuro. É preciso não mais matar o pai, mas buscar uma reconciliação possível, nem que seja silenciosa, oca, para que um futuro seja reconstruído.
Por um lugar no mundo onde mulheres não sejam obrigadas a ter suas histórias submetidas às figuras masculinas e possam escrever suas vidas por si próprias. Espaços de liberdades, de justiças e reparação. E que, enquanto isso, essas mulheres possam construir entre si seus espaços de acolhimento e de vida entrelaçadas.

