Partindo da imagem do “Patriota do Caminhão”, que viralizou nas redes sociais durante as eleições de 2022, o filme Eu Não Te Ouço, dirigido por Caco Ciocler, que chega aos cinemas no dia 14 de maio, transforma um episódio marcado pelo absurdo em uma reflexão sobre polarização, incomunicabilidade e os limites do diálogo no Brasil contemporâneo.
No longa, o encontro entre um caminhoneiro e um manifestante preso ao veículo expõe não apenas o choque entre visões de mundo opostas, mas também a incapacidade de escuta que atravessa a sociedade atual.Mais do que um embate político, o filme propõe uma discussão sobre espelhamento e isolamento, em que diferentes grupos passam a enxergar o outro como ameaça, enquanto reafirmam as próprias certezas.
Em entrevista ao Jornal Nota, Caco Ciocler falou sobre o impacto da imagem que inspirou o longa, o simbolismo presente na narrativa e a escolha de utilizar o mesmo ator para interpretar os dois personagens centrais da história.

O Bolsonarismo produziu uma série de imagens marcantes no país, dentre elas, a do homem vestido de verde e amarelo pendurado em um caminhão. Que reflexão e/ou impacto esse momento te causou que levou a produção do filme?
Esse foi um meme muito impactante e engraçado. Eu fui uma das pessoas que riu muito e que espalhou esse meme, porque ele continha uma gênese já muito absurda, uma coisa que tangencia com o irreal. E essa é uma coisa que me fascina e já estava presente nos outros dois filmes que eu fiz.
Então, de cara isso já me chamou a atenção. Mas aos poucos eu parei de rir do meme, justamente porque eu entendi que essa imagem trazia algo de trágico. Não era só engraçada, mas também trágica. E era a tradução física desse momento. Aquele vidro que separava os dois que tentavam conversar e não se ouviam, era a tradução física e ao mesmo tempo simbólica e metafórica do momento que a gente vivia e vive até hoje no nosso país, mas não só no nosso país, porque eu acho que é um fenômeno mundial.
Ou seja, aquela barreira física era uma tradução simbólica dessa impossibilidade de comunicação, dessa impossibilidade de escuta, desse diálogo feito por retalhos de argumento. E esse vidro era também um espelho, simbolizando que a gente tá cada vez mais conversando com a nossa própria imagem, com os nossos próprios semelhantes. Estamos cada vez mais distantes de quem tá do outro lado do vidro, tentando dizer alguma coisa. Era a tradução de como a gente projeta nesse outro que está do outro lado o que a gente acha que ele está dizendo, o que achamos que a gente ouviu.
Então, eu comecei a entender que essa imagem especificamente era extremamente potente nesse sentido, era a tradução física simbólica de um fenômeno bastante preocupante e bastante contemporâneo.

Como surgiu a escolha de escalar o mesmo ator para os dois papéis e que tipo de desconforto ou reflexão você queria provocar no público com esse espelhamento?
Esse espelhamento sempre me chamou atenção. Assim, eu tenho o privilégio e o horror de ter sido criado num núcleo familiar, de amigos e de pessoas que em sua maioria são de direita, e eu não rompi com essas pessoas. Como por exemplo, em grupos de WhatsApp e etc. E eu fui por um caminho diferente, o meio artístico, que em sua maioria são pessoas que tendem mais ao campo progressista.
Então, eu passeio muito entre esses dois universos e fico impressionado com esse espelhamento, não digo um espelhamento moral, e sim um espelhamento de vocabulário. Eu acho que houve um sequestro por parte da extrema-direita de certos termos do vocabulário do outro lado do espectro político. Um vocabulário que significa o contrário do que eles pensam. É muito louco para mim ver a extrema-direita falando em democracia, em liberdade de expressão, em revolução, entende? A própria imagem do patriota pendurado no caminhão, que gerou o meme e o filme, é um espelho daquela imagem famosa do homem chinês que se colocou em frente ao tanque em um momento importante para a Revolução Comunista na China. Ou seja, tem um espelhamento inclusive da imagem.
Esse filme não é não é um filme que opõe a esquerda e a direita. O caminhoneiro no filme está longe de ser um representante da esquerda. É um filme que fala de uma cisão, de um vidro que expõe dois mundos, em que cada um deles acha que vive a realidade e que o outro lado vive uma maluquice. E pior, que acredita piamente que essa outra metade quer destruir o país que a minha metade acredita, que a minha metade busca.
Então, não à toa o patriota do filme acha que é um herói. E o caminhoneiro acha que é um herói. As pessoas acham que estão lutando por um país que a outra metade está disposta a destruir. Por isso os dois lados falam em revolução, por isso os dois lados falam em democracia. Esse espelhamento é o que há de mais terrível. O espelhamento é o assunto do filme, e não porque eles sejam iguais, mas porque as pessoas estão conversando com seus espelhos. Não é um espelhamento de um com o outro, é um espelhamento de cada um consigo próprio. É uma divisão de dois mundos-espelho.
Essa é uma discussão bem complexa, mas o filme é sobre isso. Então, nesse sentido, a escolha de ter o mesmo ator para fazer os dois personagens foi uma escolha óbvia, para reforçar justamente esse jogo que eu queria retratar. Eu não queria personalizar. Então essa escolha fez todo sentido.

