Qual o momento certo de se apresentar ao mundo tal como ele é para uma criança? Como dizer das diversas violências, injustiças e iniquidades que nos cercam? No caso de Josephine (Mason Reeves), de 8 anos, a escolha é feita por ela, do modo mais brutal possível. Enquanto caminhava pelo parque com o pai, Damien (Channing Tatum), a criança se afasta por um breve momento e acaba testemunhando um terrível crime sexual.
A situação logo é interrompida com a chegada do pai, que persegue o estuprador e chama a policia, que rapidamente captura o criminoso. Contudo, o estrago na psique de Josephine está feito, e a memória do evento causa uma série de problemas para a convivência familiar.
Josephine é o segundo filme da diretora sino-americana-brasileira Beth de Araújo, vencedor do Grande Prêmio do Júri e do Prêmio da Audiência de Sundance. O longa é inspirado nas experiências da própria diretora, que assim como sua protagonista, testemunhou um crime similar quando era muito nova.

A produção navega a linha entre drama familiar e thriller. Os pais de Josephine, Damien e Claire (Gemma Chan) encontram enorme dificuldade em lidar com a situação, em parte pois possuem maneiras quase opostas de lidar com o caso. Damien quer buscar seguir a rotina de sempre, confiando que, com o tempo, tudo se ajeitará, além de sempre reafirmar sua posição como o protetor da família: “Nunca deixarei algo assim acontecer com vocês”, afirma ele às duas. Claire, contudo, sabe que a realidade é um pouco mais difícil – diversos momentos deixam claro que ela é sobrevivente de violência sexual – e se divide entre ser franca com a filha e preservar um pouco da inocência.
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No meio dos dilemas enfrentados pelos pais, o comportamento da própria Josephine muda. Beth de Araújo firma o filme na perspectiva da criança – o filme abre com uma cena em primeira pessoa, algo que se repetirá ao longo da narrativa – e acompanhamos diretamente como a falha dos pais em comunicar corretamente a situação, muda a criança. “Nenhum de vocês vai conseguir me estuprar!” diz ela após vencer uma corrida entre os colegas da escola, um dos diversos comportamentos gerados pelo trauma.
Josephine desafia a empatia do espectador ao expor as contradições de seus personagens. A postura protetora de Damien revela-se, aos poucos, uma forma de negação que isola ainda mais a filha, enquanto Claire, marcada por sua própria vivência de violência, tenta prepará-la para um mundo hostil e acaba projetando seus medos. O próprio comportamento de Josephine testa as nossas simpatias: parte do aspecto de thriller do longa se dá pela postura errática da protagonista, que toma forma de atitudes agressivas, explosões de raiva e reações imprevisíveis diante de situações cotidianas.
Nesse sentido, Josephine se encerra como um filme de rara honestidade emocional, que entende o trauma não como um obstáculo a ser superado rapidamente, mas como uma presença persistente que redefine afetos, rotinas e modos de ver o mundo.
Texto de Cobertura do Festival de Sundance 2026

